Cioran: uma mente desconcertante

Conhecido como filósofo do nada, o romeno Emil Cioran produziu uma obra carregada de fina ironia e tiradas polêmicas

por Paulo Jonas de Lima Piva*

Muitas são as tentativas de definir o pensamento estilhaçado, iconoclástico e desconcertante do pensador romeno Emil Mihai Cioran. Rei dos pessimistas, o niilista por excelência do século XX, um Nietzsche contemporâneo, um cético a serviço de uma civilização em declínio, teórico do suicídio, especialista do problema da morte, um místico herético frustrado com o absoluto, cínico. O texto de Cioran parece imune a todas essas designações, em função, sobretudo, de sua aristocrática ironia. Ele deixou de acreditar nas palavras, embora tenha escrito muito. Quanto aos livros, considerava-os inúteis e não concebia razão alguma para multiplicá-los. Entendia a escrita como uma terapia, como um meio para se desintoxicar das reflexões que fermentavam em seu crânio. “Minha obra? Essa palavra me dá náusea. Nasceu de razoes médicas, terapêuticas”, explica o romeno, que é considerado, ao lado de Paul Valéry (1871-1945), um dos maiores estilistas da língua francesa.

Ocorre que Cioran sofria de devastadoras insônias, às quais ele atribuiu a fonte dos seus pensamentos mais lúcidos. Tal estado clarividente de consciência o fez ver a vida como um “mau gosto da matéria” e como “uma ocupação de inseto”, a metafísica e a poesia como “impertinências de piolho”, o amor como o “encontro de duas salivas”, Deus como um “fracassado do alto”, como um “Nada supremo” e, por fim, o suicídio como uma idéia que torna a vida suportável na medida em que nos dá a garantia de que podemos nos livrar dela quando quisermos.

Infelizmente, os cadernos de cultura da grande imprensa brasileira deixaram passar em branco os dez anos da morte de Cioran, provavelmente em virtude do afã de proporcionar o merecido destaque ao centenário do nascimento de Sartre, também ocorrido em 2005. Entretanto, o público brasileiro pode se deleitar com as traduções em português de algumas das mais expressivas obras do filósofo romeno, todas publicadas pela editora Rocco, dentre elas Breviário de Decomposição, Exercícios de admiração, História e utopia e Silogismos da amargura. José Thomaz Brum, responsável por essas traduções, teve o privilégio de discuti-las com o próprio Cioran, de quem acabou se tornando amigo e correspondente.

Mais recentemente, Rossano Pecoraro publicou em 2004, pela EdipucRS, Cioran: a filosofia em chamas, uma versão modificada de sua dissertação de mestrado defendida na PUC do Rio de Janeiro, em 2002. Trata-se sem dúvida da descoberta pelos nossos leitores e pela filosofia universitária brasileira da obra daquele que acreditava “na salvação da humanidade, no futuro do cianureto”.

Eterno estudante

Há dez anos, mais exatamente no dia 20 de junho de 1995, falecia em Paris, aos 84 anos, de mal de Alzheimer, o pensador romeno Emil Mihai Cioran. Nascido em Rasinari, um vilarejo na região da Transilvânia, Cioran graduou-se em filosofia na Universidade de Bucareste, onde apresentou como trabalho de conclusão de curso uma dissertação sobre as idéias do francês Henri Bergson (1859-1941).

Durante os anos de faculdade, no alvorecer de uma década de 1930 marcada pelo nazismo e pelo bolchevismo, o então jovem universitário Emil fez sua opção ideológica por um movimento romeno de extrema direita. Opção que, posteriormente, reconheceu como um equívoco juvenil e rechaçou por várias vezes em sua maturidade. Vale lembrar que equívocos dessa natureza também foram cometidos e reconhecidos por outras personalidades ilustres do universo da reflexão. É o caso, por exemplo, de Jean Paul Sartre (1905-1980) em sua defesa enfática do comunismo soviético do período stalinista. Ou de Michel Foucault (1926-1984) em seu apoio entusiasta à revolução islâmica liderada pelo aiatolá Khomeiny. Poderíamos citar ainda como exemplo os vários intelectuais brasileiros que se engajaram na eleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e que acabaram assistindo atônitos aos escândalos que envolveram o PT.

Após uma proveitosa estadia de dois anos em Berlim como bolsista e de uma curta e malograda experiência de professor de filosofia no ensino médio romeno, Cioran foi contemplado com uma nova bolsa de estudos, dessa vez do Instituto Francês de Bucareste. Chegou a Paris com o compromisso de elaborar na Sorbonne uma tese sobre o filósofo alemão Friedrich Nietzsche (1844-1900), sua paixão de juventude. Contudo, jamais a concluiu. Tampouco retornou ao seu país natal. Radicado em solo francês, mais precisamente numa mansarda do Quartier Latin, bem próxima ao Jardim de Luxemburgo, Cioran realizou a proeza de sobreviver como bolsista por quase uma década. Mesmo com o término das bolsas, ele manteve sua vida de eterno estudante. Fazia as refeições nos restaurantes universitários até os 40 anos, quando foi oficialmente desligado da Sorbonne. “Eu preferi levar uma vida de parasita a exercer uma profissão”, costumava justificar Cioran, em suas raras entrevistas, a liberdade e a independência garantidas por quase uma existência inteira marcada pelo ócio, a única, segundo ele, suportável.

Texto publicado na revista Discutindo Filosofia no. 2, ano 2005, páginas 24-27.

*Paulo Jonas de Lima Piva é doutor em filosofia pela USP, pós-doutorando em filosofia pela Universidade São Judas Tadeu (USJT)/Fapesp, professor da USJT e autor de O ateu virtuoso: materialismo e moral em Diderot (Discurso Editorial).

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