A ética do sacrifício

Os escritos de juventude do pensador romeno E. M. Cioran, reunidos no volume Solitude et Destin, revelam muito da obra daquele que mais tarde seria definido como o esteta da desesperança e pessimista incondicional

Por Fernando Eichenberg

Artigo publicado na revista Primeira Leitura, no. 31, de setembro de 2004

Paris – “Como pude ser aquele que eu era?”, indagou o filósofo romeno E. M. Cioran (1911-1995), já transcorrida a maior parte de sua trajetória intelectual. A interrogação de tons shakespearianos inseria-se numa série de autocríticas aos seus antigos flertes com a organização fascista romena Guarda de Ferro e a escritos de juventude de matizes anti-semitas. “Meu eu atual não reconhece o autor”, dizia, ao manifestar uma tardia incompreensão e arrependimento públicos em relação a certas posturas juvenis adotadas nos primórdios da formação de seu singular pensamento filosófico. Entre amigos, Cioran costumava designar de “pré-história” o período de sua vida até a mudança definitiva para Paris, no fim dos anos 30, e a passagem de sua escrita para o idioma francês, a partir de 1947.

Não por acaso, os artigos políticos mais violentos e polêmicos (principalmente os produzidos entre 1933 e 1935, na Alemanha) foram excluídos pelo próprio autor, em 1990, da antologia que reúne seus textos publicados em jornais e revistas romenas entre 1931 e 1943, ou seja, dos 20 aos 32 anos de idade. Dito isso, traduzidas agora do romeno para o francês, as 434 páginas de Solitude et Destin (Solidão e Destino) revelam muito do que se tornaria o então jovem e provocador pensador, alguns livros mais tarde definido como esteta da desesperança, niilista desencantado, arauto da melancolia ou pessimista incondicional.

Aos seus 20 anos, já se notavam as raízes de seu estilo corrosivo e percuciente; o gosto pelo paradoxo, a ironia, os silogismos e aforismos; o sombrio romantismo e o ódio às ideologias; seu anticristianismo feroz, a afirmação da tragédia humana e a descrença na história. O jovem Cioran bebia na fonte da filosofia alemã, principalmente influenciado por Friedrich Nietzsche (1844-1900). Mas, na maturidade, a idolatria seria relativizada por razões particulares, como afirmaria numa entrevista de 1983: “Nietzsche era o herói da minha juventude; mas já não o é mais hoje. Mesmo que genialmente mordaz, eu o considero muito pueril para mim, demasiado cândido”.

Nos quase 80 artigos da antologia, Cioran aborda variados temas da filosofia, literatura, música, arte. O leitor não se entediará com suas joviais impressões e digressões sobre Greta Garbo, Oskar Kokoschka, Auguste Rodin, Albrecht Dürer, Karl Jaspers, a agonia da cultura, a moral sexual, a sensibilidade mística, estados depressivos, o irracional na vida, a necessidade do radicalismo, niilismo e natureza, a perspectiva pessimista da história ou, como revela o título da obra, solidão e destino. “Quando nos damos conta de que tudo é vão, mas que, absurdamente, continuamos a amar a vida, é preciso se decidir a realizar um gesto, uma ação. Pois é melhor se destruir no frenesi do que na neutralidade. É quase impossível viver de forma neutra, de considerar como um espectador esta terra maldita e querida”, escreveu, aos 24 anos, iniciando seu percurso de ativo polemista. Os intelectuais, na sua opinião, não são feitos para preservar a “harmonia universal”, mas, ao contrário, para dar “brilho às discórdias” e “charme às incertezas”. Num elogio à profecia, seu discurso é arroubado: “Não compreendo como pode haver neste mundo pessoas indiferentes; como pode haver almas que não se atormentam, corações que não queimam, olhos que não choram. Declaremos falsas todas as verdades que não nos fazem mal e falsos  todos os princípios que não nos inflamam. Que nosso verbo lance raios e que nossos argumentos sejam flamas!”.

No fundo, todo problema da cultura e do espírito é o do homem e de seu destino, constata o jovem pensador, aos 21 anos. O sofrimento nos ajuda a compreender o mundo mais do que o entusiasmo, acrescentava, concluindo em embrionária lógica ciorana: “Os homens que meditam sobre a morte não podem ser resignados; aqueles que meditam sobre a vida não podem ser céticos”. Para o filósofo, não há outra ética a não ser aquela do sacrifício. Refinadamente irônico, já dizia aos 22 anos: “Indigno-me com a idéia de que ninguém até agora morreu de alegria. Mas, talvez, seja preciso ter sofrido muito parar morrer de alegria”. O sofrimento é a escola da tolerância, defendia, ao mesmo tempo em que atacava o moralismo excessivo das religiões, responsáveis “pela destruição da espontaneidade irracional e do ela indefinido da vida”. O Cristianismo, na sua opinião, queria revolucionar o homem”, mas, com sua visão de pecado, conseguiu foi “condená-lo na totalidade da escala da história”.

Leitor de O Declínio do Ocidente (1918), do filósofo alemão Oswald Spengler (1880-1936), o Cioran dos 20 anos – o mesmo que vaticinava “penso, não sem uma satisfação perversa, que nos dirigimos para uma época de barbárie” – se perguntava: como podemos falar de uma cultura do futuro, enquanto vivemos no decorrer da decadência do Ocidente? Ninguém, ou quase, tem dúvidas sobre o fracasso da cultura moderna, individualista e racionalista, dizia. “A atitude do homem de hoje em relação à vida é uma mistura de resignação, cinismo e contemplação. Outrora, a moral possuía uma consistência sustentada em critérios de validade unanimemente admitidos; nos nossos dias, ela perdeu, teórica e praticamente, o caráter divisório e rigoroso que distingue o bem do mal (…) Quem sabe se o bem não é o mal e o mal não é o bem?”, sustentava.

O jovem Cioran acreditava que sua época tinha por missão liquidar o otimismo. A hora histórica era a de renunciar às ilusões, apoderar-se do destino imanente do homem, ressuscitar a sensibilidade trágica e livrar o pessimismo de todo sentimentalismo. “O valor do cético na Antigüidade tinha por medida a tranqüilidade de sua alma e a igualdade de seu humor. Por que não criaríamos, nós que vivemos na agonia da modernidade, uma moral trágica, na qual a dúvida e a desesperança se casariam com a paixão, com uma chama interior, num jogo estranho e paradoxal?”, questionava em 1933.

“Sempre vivi em contradição e nunca sofri por isso. Sempre encarei as contradições como elas vinham, tanto na minha vida privada como na intelectual”, confessou o filósofo, passados seus 70 anos. O pensador admitia não somente ter aceitado o caráter insolúvel das coisas, mas, inclusive, encontrado certa “voluptuosidade do insolúvel”. Como exemplo, evocava a possibilidade de se duvidar absolutamente de tudo, se definir como um niilista e, entretanto, se apaixonar como o maior dos idiotas. “Essa impossibilidade teórica da paixão, mas que a vida real não cessa de frustrar, faz com que a vida tenha um certo charme, incontestável, irresistível”, dizia, na proximidade do fim de seus dias. Já o jovem filósofo, que manifestava como única ambição se tornar um “pessimista pensador de bulevar”, escrevia, aos 26 anos: “Há na vida algo da histeria de uma primavera terminal. Um caixão suspenso nas estrelas, uma inocência em putrefação, um vício floral. Esta mistura de cemitério e de paraíso…”. Do puro Cioran.

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