E.M. Cioran e Ernesto Sábato: um encontro

Sobre estes e outros temas conversei longamente com Cioran, em uma tarde de 1989. Anos atrás me chegaram notícias do desejo que ele tinha de me conhecer; insistência que interpretei como mensagens crípticas, reiteradas em distintas oportunidades. Combinamos um encontro em sua casa da rua Odeón, a poucos passos do meu hotel no Boulevard Saint-Germain.

Custou-me dissuadi-lo do seu insistente oferecimiento de me esperar na entrada, por temor de que eu me perdesse; o que me corroborou mais uma vez o seu autêntico desejo de me ver. Depois de alguns minutos cheguei à sua casa, num daqueles velhos edifícios franceses; e logo depois de subir os seis andares a pé, me detive em frente à porta de madeira onde havia colocado, no lugar reservado para as chambres de bonnes, um cartaz que dizia Ici Cioran.

Contrariamente ao que muitos pressupõem e ao que eu mesmo pensava, aquele homem amável me surpreendeu, miúdo e abatido, predicador de um niilismo que não coincidia con ele. Era antes um grande pessimista, por momentos subjugado por um outro, cético e descrente. Mas sempre com um sorriso. Em nenhum momento um intratável indiferente, pelo contrário, um desses homens solidários com a “desventurada multidão”, como dissera Mallarmé, em busca de alguém que expresse sua inquietação e seu tormento. Talvez possamos referir a ele a frase de Strimberg: “Não detesto os homens, tenho medo deles”.

Conversamos fraternalmente durante mais de quatro horas, até  que tive de retirar-me porque meu amigo Severo Sarduy me esperava em um café não muito distante. Descobri em Cioran a coerência de um homem autêntico, e compartilhamos pensamentos de notável semelhança. Como a necessidade de desmitificar um racionalismo que só nos trouxe a miséria e os totalitarismos. Como também a imbecilidade dos que acreditam no progreso e no avanço da civilização. “Pode-se sufocar tudo no homem, salvo a necessidade de absoluto, que sobreviverá à destruição dos templos, assim como à desaparição da religião sobre a Terra.” Palavras de um filósofo cuja lucidez era produto de suas perplexidades e de seu tormento.

Tenho a convicção de que sua dor metafísica poderia ter-se aliviado caso tivesse escrito ficções, por seu caráter catártico, e porque os graves problemas da condição humana não são aptos para a coerência, mas unicamente acessíveis a essa expressão mitopoética, contraditória e paradoxal, como nossa existência.

“Na tristeza tudo se torna alma”, diz em um dos seus ensaios que tanto ajudaram a desmascarar a frivolidade e os sorrisos hipócritas destes tempos.

Ernesto Sábato, Antes del Fin.

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