“Cioran ou Os domingos da vida” (Vasco Arruda)

Blog do Jornal O POVO, 12 de novembro de 2009

Se as tardes dominicais fossem prolongadas durante meses, o que seria da humanidade, emancipada do suor, livre do peso da primeira maldição? A experiência valeria a pena. É mais do que provável que o crime se tornasse a única diversão, que a devassidão parecesse candura, o uivo melodia e o escárnio ternura. A sensação da imensidade do tempo faria de cada segundo um intolerável suplício, um pelotão de execução capital. Nos corações mais imbuídos de poesia se instalariam um canibalismo estragado e uma tristeza de hiena; os patíbulos e os carrascos extinguiriam-se de langor; as igrejas e os bordéis explodiriam de suspiros. O universo transformado em tarde de domingo… é a definição do tédio – e o fim do universo… (…) Como matar de outra maneira este tempo que já não flui? Nestes domingos intermináveis, a dor de ser manifesta-se plenamente.

E. M. Cioran

[Cioran, E. M. Breviário de decomposição. Tradução de José Thomaz Brum. – Rio de Janeiro: Rocco, 1989, p. 30/31].

Bastou-me uma frase, e a paixão estava consumada. Nunca mais deixei de ler Cioran. Retorno sempre às páginas de seus livros com redobrado prazer. E tudo por causa daquela frase. Às vezes basta uma frase para que sejamos fisgados por um autor e nunca mais deixemos de nos encantar com seus escritos. Na minha descoberta do filósofo romeno Emil M. Cioran (Rasinari, Romênia, 8/4/1911-Paris, 20/6/1995) foi assim. Bastou uma frase, aquela frase perfeitíssima, completa, inigualável, que vale por todo um tratado de filosofia, a frase que um dia eu gostaria de ter escrito (desculpem-me os leitores se abuso aqui dos superlativos e dos adjetivos, mas é que quando me apaixono não consigo disfarçar): “Nestes domingos intermináveis a dor de sermanifesta-se plenamente”. Depois vieram outras, que também me provocaram não menos prazer, como aquela em que Cioran indaga: “Que pecado cometeste para nascer, que crime para existir? Tua dor, como teu destino, não tem motivo”.

Primeiro foi a leitura do seu Breviário de decomposição. Li-o com o prazer de quem se encontra diante do prato da mais fina e rara iguaria. Li-o com volúpia, da primeira à última palavra. Depois fiquei aguardando ansiosamente a próxima tradução de um livro seu, torcendo para que José Thomaz Brum se decidisse a fazê-lo. Mas foi necessário esperar, ainda, dois anos. Então chegou às livrarias Silogismos da amargura.

Lá estavam novamente as frases curtas e certeiras, desta feita mais curtas silogismos_da_amarguraainda, uma vez que se trata de silogismos. Como essa: “A vida, esse mau gosto da matéria” (Cioran, E. M. Silogismos da amargura.Tradução de José Thomaz Brum. Rio de Janeiro: Rocco, 1991,  p. 56). Ou, ainda, o resumo curtíssimo e, talvez por isso mesmo, completo, do autor de Hamlet, sobre o qual Cioran afirmou apenas: “Shakespeare: encontro de uma rosa e de um machado…” (p. 13). E sobre Deus: “Sem Deus tudo é nada; e Deus? Nada supremo” (p. 49).

Depois continuei lendo – e o faço ainda, sempre – Cioran, torcendo para que sejam publicadas mais traduções de seus livros (algumas outras já foram editadas). Os dois aqui citados contam-se entre os livros mais lidos, mais cotejados da minha pequena biblioteca. Tenho retornado a eles reiteradas vezes, e o prazer experimentado é sempre o mesmo. Cioran é como um vinho antigo, que deve ser sorvido em doses comedidas, para que possamos bem apreciar-lhe o sabor sem que nenhuma gota seja desperdiçada.

Em 1995, quando a revista Veja noticiou a morte de Cioran, destaquei a página, mandei emoldurá-la e dei-lhe um lugar de destaque na parede da minha biblioteca, onde permanece até hoje. Quero concluir com uma citação que tenho como uma das afirmações mais verdadeiras sobre a realidade do ser:

“O ser entregue a si mesmo, sem nenhum preconceito de elegância, é um monstro; só encontra em si zonas obscuras, onde rondam, iminentes, o terror e a negação. Saber, com toda sua vitalidade, que se morre e não poder ocultá-lo, é um ato de barbárie. Toda filosofia sincera renega os títulos da civilização, cuja função consiste em velar nossos segredos e disfarçá-los com efeitos rebuscados. Assim, a frivolidade é o antídoto mais eficaz contra o mal de ser o que se é: graças a ela iludimos o mundo e dissimulamos a inconveniência de nossas profundidades. Sem seus artifícios, como não envergonhar-se por ter uma alma? Nossas solidões à flor da pele, que inferno para os outros! Mas é sempre para eles, e às vezes para nós mesmos, que inventamos nossas aparências…” (Breviário de decomposição, p. 17).