Festa para o pessimista (O Globo, 25/06/11)

O jornal O Globo de 25/06/2011 traz o seu caderno Prosa & Verso dedicado a Cioran, que aparece estampado na capa com o título: “Festa para o pessimista”. O jornalista Bolívar Torres escreve sobre as homenagens preparadas na França para o centenário de nascimento de Emil Cioran. Uma exposição, livros de ensaios, um volume de correspondências trocadas com o poeta Armel Guerne e uma inédita continuação de “Breviário dos Vencidos” festejam o filósofo romeno, conta Bolívar, que entrevista ainda o pesquisador Vincent Piednoir, tradutor de Cioran.
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Festa para o pessimista Cioran

Por  Bolívar Torres – Especial para O GLOBO, de Paris (25/06/2011) link

Ele ficou conhecido como “antiprofeta”, “dândi metafísico”, “aristocrata dos vândalos”… Pobre e discreto, fazia questão de permanecer longe dos holofotes, recusando todos os prêmios e honras que insistiam em lhe atribuir. Dezesseis anos depois de sua morte, porém, a obra do ensaísta francês de origem romena Emil Cioran saiu definitivamente do porão. No ano do seu centenário, o mais low-profile dos autores malditos volta a fazer barulho na França, com direito a exposição, livros de ensaios, um volume de correspondência com o poeta Armel Guerne, além de uma inédita continuação de seu clássico “Breviário dos vencidos”. Por mais contraditório que possa parecer, chegou a hora de celebrar com todo alarde o nascimento do autor de… “Do inconveniente de ter nascido”.

— É preciso celebrar tudo que se recusa a ser celebrado — defende o jornalista e editor Stéphane Barsacq, autor de “Cioran. Éjaculations mystiques” (“Cioran. Ejaculações místicas”, Seuil) recém-lançado livro de ensaios sobre o autor. — Celebrar Cioran é, de fato, bastante curioso. Mas, se por ocasião do centenário, leitores ingênuos descobrirem a obra de um escritor tão valoroso em tornar o mundo menos inocente, já será uma vitória. Basta um único leitor. Talvez a Humanidade perca o seu futuro carrasco.

Já faz alguns anos que Cioran vem saindo do relativo esquecimento em que se metera. O centenário confirmou a nova popularidade de sua obra, que no Brasil começou a ser reeditada há pouco pela Rocco — ainda esse ano a editora lançará “Do inconveniente de ter nascido” e “O livro dos logros”, ainda inéditos no Brasil. Em março, a prefeitura do 6 arrondissement, bairro em que o autor se sentia particularmente à vontade, dedicou-lhe a exposição “Juventude crepuscular”, repleta de arquivos, cartas e fotografias pessoais. O Salão do Livro de 2011 também se rendeu ao filósofo com a grande exposição “Pessimismo jubilatório”.

Cioran via biografias como uma ameaça (“É incrível como a perspectiva de uma biografia nunca tenha provocado alguém a renunciar à sua vida”, disse certa vez), e esforçava-se em esconder diversos aspectos de sua intimidade. Mesmo assim, pululam publicações em torno de seu nome. Em “Ejaculações místicas”, Stéphane Barsacq resgata a juventude do autor na Romênia e suas relações conflituosas com a religião. Já o ensaio “Cioran malgré lui” (“Cioran apesar de si mesmo”), de Nicolas Cavaillès, disseca os paradoxos do escritor a partir de um de seus livros mais marcantes, “Breviário da decomposição”. O mesmo Cavaillès, aliás, coordenou este ano a transferência de suas obras para a prestigiosa coleção da Pléiade — para muitos, a honraria máxima concedida a um autor de língua francesa.

— Biografias de Cioran são capitais — afirma Barsacq. — Ele diz tudo em seus livros, mas de maneira alusiva. Conhecer sua vida, contudo, não rebaixa sua obra. Pelo contrário! É um homem que falava das coisas que conhecia. Acredito que sua vontade em destruir ilusões tem uma relação com sua própria biografia. Foram suas próprias ilusões que ele quis reduzir a pó.

O renascimento de Cioran não acontece por acaso. Distanciando-se de qualquer ideal revelador, o autor de “História e utopia” temia a fúria das indignações, aquilo que chamava de “pausa mental da Humanidade”. Seu pensamento é externo à ação, defende a sabedoria da ociosidade, uma greve permanente da vida. Fruto da desilusão do pós-guerra, o distanciamento apaixonado e descrente tem tudo para seduzir a geração do “meu partido é o coração partido”, do mundo pós-muro de Berlim e da falência das ideologias.

— A obra de Cioran é universal, e continua atualíssima — avalia Laurence Tacou, editora da L’herne, que dedicou recentemente seus famosos “Cahiers” ao romeno. — A falta de perspectiva das gerações atuais e suas descrenças na política, sem dúvida ajudaram a popularizá-la. As pessoas não querem mais acreditar em políticos. Preferem ouvir a sinceridade e a autenticidade de um escritor que escrevia com as tripas.
Há, porém, um período sombrio da vida de Cioran, que começa lentamente a ganhar luz. Antes de abraçar a língua francesa e, com ela, o niilismo, o ensaísta foi capaz de assumir posições apaixonadas — de causas bastante duvidosas, vale ressaltar. Nos anos 30, antes do exílio parisiense, simpatizou com movimentos fascistas na Romênia. “Eu sou como essas mulheres que têm um passado”, confessou certa vez.

Passado que diversas publicações inéditas podem desenterrar. Em 2009, a editora L’Herne já havia lançado dois livros nunca antes publicados na França, e que ofereciam pistas preciosas sobre a primeira fase do autor (“Transfigurations de la Roumanie”, um panfleto improvável defendendo os fascistas da Guarda de Ferro; e “De la France”, belíssimo ensaio sobre o apodrecimento da cultura francesa, que ajuda a explicar a adoção do idioma por Cioran).

Cadernos encontrados no lixo aguardam publicação

O número de inéditos pode aumentar em breve, se a justiça permitir a exploração comercial dos 37 cadernos repletos de rasuras e correções encontrados em 2005 por uma catadora de lixo. Enquanto isso, os leitores poderão se contentar com uma continuação até então desconhecida do “Breviário dos vencidos” (última obra de Cioran escrita em romeno), que acaba de sair pela editora L’Herne.

— Ainda há muitos textos romenos de Cioran que podem ser recuperados — lembra Laurence. — Há também alguns cadernos e correspondência. Espero um dia poder publicar as cartas que trocou com o irmão, e que mostram como Cioran não era apenas um moralista de língua francesa. Ele nunca renegou suas origens balcânicas. Nas cartas, falava da Romênia como se fosse um paraíso que lhe fora arrancado.

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