O castelo do terror metafísico

por CAIO LIUDVIK — Guia da Folha, Folha de São Paulo, 27 agosto 2011

“Só uma geração desiludida poderia se entusiasmar por uma visão tão negativa da história. Só da história? Da existência em geral. É preciso reconhecer que a vida não resiste a uma interrogação séria e que é difícil, e mesmo impossível, atribuir um sentido ao que visivelmente não tem”.

Nesta carta a José Thomaz Brum, tradutor dos seus quatro livros recém-reeditados pela editora Rocco, Emil Cioran (1911-1995) ajuda-nos a entender o crescente fascínio despertado por esse filósofo trágico e sombrio, de que se comemora o centenário de nascimento este ano. A carta, incluída na edição brasileira de “Silogismos da Amargura” (o título já indica o pathos negativo de seus aforismos) é de 1990, contemporânea, pois, do colapso do socialismo real, último suspiro da “epilepsia” (metáfora tão dostoievskiana, e amada mas conjurada por Cioran) ideológica que banhou de sonhos e sangue o século XX. E a crise das projetos de transformação messiânica da sociedade, à direita e à esquerda, é um dos temas centrais do pensador franco-romeno. Nascido na vampiresca Transilvânia, o castelo tenebroso de suas idéias niilistas e pessimistas parece despertar até no leitor mais prevenido a sedução paradoxal do “brilho do nada de tudo o que vive”. Inimitável em sua riqueza e autenticidade, Cioran faz mais do que rebaixar toda utopia a fanatismo sanguinário, e toda ideologia “forte” a totalitarismo –uma de suas obsessões, foco de seu “História e Utopia”, evocado no desencantado filme “As Invasões Bárbaras”, de Denys Arcand. Este livro, segundo alguns comentadores, pode ser lido como um mea culpa de Cioran, que na mudança para a França deixou para trás não só sua língua natal, mas um obscuro passado de militância fascista. Quanto à língua, aliás, cabe destacar que o “Breviário de Decomposição”, o primeiro dos seus livros em francês, foi reescrito quatro vezes antes de publicado em 1949. O que indica não mais se tratar de um jorro juvenil de conteúdos anímicos elementares, mas construção calculada, um tanto alheia ao desespero de seu cerne, embora não devamos cometer com Cioran a injustiça que ele faz a Sartre de acusá-lo de ser um “empresário das idéias”.

Mas houve sim para ele uma notável convergência entre oferta e procura. Numa Paris ainda traumatizada pelo desastre da guerra e da ocupação nazista, e que entrava no debate apaixonado sobre o engajamento de esquerda (contra o qual a direita usou sistematicamente o recurso de igualar nazismo e comunismo), todo seu entusiasmo vitalista de outrora cede lugar à crescente amargura e cansaço metafísico. Seu alvo é não só o “terror da História” (tema que ele compartilha com o conterrâneo Mircea Eliade), mas a própria existência, desnudada como ilusão, farsa e gozo sádico de um gênio maligno, figura mítica que já não é mais mera hipótese, como para o otimismo racionalista de Descartes. Mais aparentado a um Pascal, Cioran vê a raiz de grande parte de nossos males (os deliberados, afora aqueles aleatórios e inerentes à vida enquanto tal) na nossa incapacidade de ficarmos sozinhos e quietos no quarto.

Como que um místico para uma geração órfã de Deus e dos desejos de libertação coletiva, Cioran em alguns momentos parece radicalizar a tradicional teologia apofática (que busca o transcendente mais pela recusa de seus falsos semblantes). Mas o recolhimento contemplativo que ele favorece se esvazia dos antigos conteúdos dogmáticos. Restam vivos, como instrumento de meditação imanente, os mitos, por exemplo o dos gnósticos, heresia que denunciava o deus do Antigo Testamento como um demiurgo canalha, mas mais eficaz, por isso mais ativo na História, do que o deus “bom” de Jesus Cristo.

E resta também uma notável capacidade de empatia e afeto, como se vê nos seus “Exercícios de Admiração”, auto-retratos camuflados nos perfis que traça de amigos (entre eles Samuel Beckett) e “aliados” ideológicos (sim, a ideologia não morreu…) como o ultra-direitista Joseph de Maistre, mas também de autores que o atraíam por contraste, como Eliade e Fitzgerald.

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