Cioran é herdeiro dos céticos, de Nietzsche a Dostoiévski

CÁSSIO STARLING CARLOS, Editor-adjunto da Ilustrada — Caderno Mais!, Folha de São Paulo, 17 de fevereiro de 1995

Se é correto, como afirmam a maioria dos seus exegetas, filiar o filósofo E.M. Cioran à corrente dos chamados pessimistas e dos céticos, o romeno seria herdeiro de uma linhagem tão antiga quanto o próprio pensamento.

Pregadores de uma verdade absoluta capaz de resistir até ao ultrapassamento imposto pelo tempo, os filósofos sempre estiveram perigosamente sujeitos ao canto de sereia do ceticismo, resultado quase sempre do fracasso de seus projetos hercúleos.

Desde os gregos, mais especificamente, desde Sócrates, que o otimismo em relação à verdade e à razão é encarado com reservas. Não foi a obsessão socrática pela verdade que justificou a punição do filósofo com a pena de morte? Como resultado, toda uma geração que se seguiu, a dos céticos gregos, inclinou-se para o partido oposto ao de Sócrates, aquele que encontra na desesperança seu próprio alimento.

Os céticos gregos, contemporâneos da variante cientificista consolidada a partir do aristotelismo, representam o ápice da radicalidade que o pensamento é capaz. A “époché”, algo que se poderia traduzir como “suspensão do juízo”, é de fato o reconhecimento trágico da falência do pensamento. Diante de um mundo que se recusa a colaborar na produção das certezas, a única atitude do cético é: “Não afirmo, nem nego”. Nesta dupla recusa, é o pessimismo que vai fincar suas raízes na tradição ocidental.

Indiretamente, é aí que se encontram as origens do pensamento de Cioran. Influências diretas encontraremos a partir da segunda metade do século 19.

O movimento é semelhante. Hegel estabelecera um modelo de descrição do pensamento verdadeiro capaz de resistir ao tempo. Ao contrário da eternidade congelada e morta, uma verdade dinâmica, capaz de converter o devir, grande inimigo, em principal aliado. O método: a dialética. Se tudo se move, porque não fazer a verdade acompanhar o movimento e assimilar o devir das coisas?

Mas um novo monstro —o Absoluto— acabou sendo construído para servir de substrato a tudo que muda, para unificar em seu seio a totalidade da variação dando a ela um sentido final. É contra esta totalidade, que engole as parcialidades, é que vão se levantar três gigantes intelectuais do século passado: Schopenhauer, Nietzsche e Kierkegaard.

Contra o otimismo teleológico da dialética hegeliana, eles opõem o pessimismo do individual, do singular que resiste a qualquer ameaça de devoração pelo Absoluto. A ordenação demasiado perfeita do pensamento parece suspeita a estes filósofos, que descartam a farsa da certeza em proveito de uma parcialidade não mais verdadeira, mas menos falsa.

Nestes casos, o pessimismo não é um parti pris afetivo que contamina o pensamento, ele é uma conclusão extraída do próprio fracasso histórico das tentativas de se estabelecer uma verdade absoluta.

Em um de seus livros mais interessantes e menos conhecidos, “As Lágrimas e os Santos”, Cioran declara: “Não há nada mais fácil que se livrar da herança filosófica, pois a filosofia tem raízes que se fixam em nossas incertezas, enquanto as raízes da santidade ultrapassam em profundidade o próprio sofrimento. A suprema coragem da filosofia é o ceticismo. Além dele, ela reconhece apenas o caos. Uma filosofia só escapa da mediocridade por meio do ceticismo e do misticismo, estas duas formas de desespero frente ao conhecimento. O misticismo é uma evasão para fora do conhecimento, o ceticismo é um conhecimento sem esperança. Duas maneiras de dizer que o mundo não é uma solução”.

Por outro lado, o pessimismo como sentimento e como atitude face ao mundo, Cioran o recebe através da literatura de Dostoiévski e de seus heróis devastados pela melancolia. A “psicologia” dostoievskiana é o ponto em torno do qual Cioran vai orbitar ao longo de toda a sua obra.

Com Nietzsche, além da descrença, Cioran compartilha a forma adotada em seus escritos. O formato da máxima aforismática que o alemão imitou dos moralistas franceses do século 18 (sobretudo de La Rochefoucauld e Pascal) vai ser a mesma adotada por Cioran já nos primeiros escritos.

Em “No Cume do Desespero”, seu primeiro livro, publicado em 1934, Cioran utiliza a fórmula do texto curto, onde a intensidade do sentido deriva em proporção direta do seu estilo depurado. Os textos deste livro lembram com frequência o formato mais longo que Nietzsche utilizou em “Aurora”. O investimento no conceito de individualidade (da qual o aforismo é o reflexo formal, como se tudo, inclusive a escrita, devesse ser concebido como fragmentário) revela, sem subterfúgios, a visão de mundo do autor.

No texto intitulado “Não Poder Mais Viver”, Cioran escreve: “O paroxismo das sensações, o excesso de interioridade nos arrastam para uma região eminentemente perigosa, já que uma existência que adquire uma consciência demasiado viva de suas raízes só acaba por negar a si mesma”.

Pelo menos aqui estamos longe da filiação que se costuma sustentar entre Cioran e o existencialismo. Se no existencialismo a subjetividade funciona como um fundamento para o conhecimento e a liberdade (portanto, tem caráter positivo), para Cioran o investimento na subjetividade é o caminho mais rápido para a dissolução do sujeito, para a efetivação do compromisso com a morte ao qual nenhum homem faltará.

Nem mesmo a loucura, ainda sedutora para Nietzsche como manifestação do vigor dionisíaco, atrai Cioran. “A loucura nos faz perder nossa especificidade, tudo o que nos individualiza no universo, nossa perspectiva própria, o giro particular de nosso espírito”, escreve ele em outro texto de “No Cume do Desespero”. “A morte também nos faz perder tudo, com a exceção que a perda resulta de uma projeção no nada. Assim, se bem que persistente e essencial, o medo da morte é menos estranho que o medo da loucura, onde nossa semipresença é um fator de inquietação bem mais complexo que o temor orgânico da ausência total experimentada diante do nada. A loucura não seria então um meio de escapar das misérias da vida? Esta questão só encontra justificativa no plano teórico, pois, na prática, aquele que sofre certas angústias considera o problema sob uma luz —ou melhor, sob uma sombra— diferente. O pressentimento da loucura se duplica no medo da lucidez na loucura, onde a intuição do desastre arrisca engendrar uma loucura ainda maior. É por isso que não há salvação através da loucura. Adoraríamos o caos, mas temos medo de suas luzes”.

Por fim, Sissi, a imperatriz, é o mais surpreendente dos nomes que exerceram influência sobre Cioran. Apesar da doçura do olhar de Romy Schneider, o cinema não apagou a verdadeira personalidade da imperatriz, que ressurge através do encantamento de Cioran.

Que eu me lembre o cinema não contou que a imperatriz compartilhava com o romeno a admiração por Schopenhauer, nem que seu cavalo favorito foi batizado por ela com o nome de Niilista.

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