O silêncio do dândi romeno

por LEDA TENÓRIO DA MOTTA / Especial para a Folha de São Paulo, Caderno Mais! — 17 de fevereiro de 1995

Com pudor inusual e ironia perfeita, Emil Michel Cioran renuncia à literatura em 1987, no exato momento em que está saindo de um longo anonimato para alcançar o que a muitos só teria aconselhado a continuar: reconhecimento da crítica, prêmios, que invariavelmente recusa, e sucesso de público.

Editados em  poche, os  Silogismos da Amargura, de 1952, tinham se tornado um best seller. E 30 mil exemplares de seu último livro,  Confissões e Anátemas, são vendidos nesse ano de 87, quando o escritor, agora um mestre notório da desesperação, que já começa a fazer escola, o que resulta suspeito em se tratando de desespero, concebe frear a engrenagem ultrafrancesa da produção contínua dos ilustres, e faz silêncio para se pôr a ouvir música —aliás Bach.
A percepção do sucesso como  humilhante —a palavra é do próprio Cioran e a humilhação inverte outra humilhação: viver meio século em Paris miseravelmente, publicar livros de aforística elegância, à moda dos moralistas antigos, e passar nos lugares pelo amigo desconhecido dos dramaturgos Samuel Beckett e Eugène Ionesco —condiz absolutamente com a lucidez depressiva, até o exagero, segundo ainda o próprio Cioran, desse grande autor estrangeiro de expressão francesa, como os dois amigos.

O que leva o escritor a trabalhar, não obstante se incline, desde a primeira crise, que é religiosa, a só ver inanidade, quando não vaidade, em tudo o que se escreve —é a mesma coisa que o leva a parar. É a mesma coisa que o leva a criticar também, diga-se de passagem, os romances de Mircea Eliade, o compatriota que, juntamente com Ionesco e ele mesmo, representa a inteligência romena do século na Europa ocidental.

Trata-se de uma visão irresistível da gratuidade dos homens e de suas palavras. Não é de admirar que a música seja para o autor do  Breviário de Decomposição (1949), que ao sair foi confundido, pelo título, com uma obra de química, a única linguagem que não faz um barulho desagradável, ou não produz estridência, uma vez que é sem palavras, e assim sem intenções.

Cioran não resiste, de fato, ao seu elã negativo, à sua propensão para o abismo, direção na qual se sente confirmando um excesso caracteristicamente balcânico, origem da figura do eterno estudante e do poeta sem obra. E a obra, no caso, corresponde à lógica suicidária das literaturas que referem a sua própria inanidade e giram em torno de sua autoliquidação. Nesse sentido, ele não é apenas profundamente balcânico, mas inevitavelmente moderno, e o que é justamente interessante é que o paradoxo moderno de escrever sobre a pane de escrita, já tão exaurido e sem alma, surge com ele animado pela alma de um país.

Não há como entender Cioran fora da cultura do Leste, da Transilvânia, dos Cárpatos, do primitivo religioso, muito perto da presença sombria da literatura russa. Esse é um mundo fechado que, quando se abre, se parte, é o chão que cede e dá o sentido da esterilidade, ou o não-sentido. Há uma sequência de crises na vida romena do escritor, tão logo começa a amadurecer.

Filho de padre ortodoxo, muito cedo, falta-lhe a fé.  Há dois mil anos, Jesus de Nazaré desconta em nós o fato de não ter morrido num sofá, escrever ele mais tarde, lapidar e blasfematoriamente, resumindo-se a respeito dos valores do pai. Estudante de filosofia, escapa-lhe a finalidade dos sistemas de pensamento, esses  pequenos universos inverossímeis de pura criação verbal de conceitos.

Leitor dos poetas, torna-se sensível aos idiotas, no sentido dostoievskiano, tanto mais líricos quanto nulos ou ridículos. E acrescente-se que, aos 20 anos, como uma espécie de Proust dos Balcãs, foge-lhe por completo o sono. Não só a obra, quase toda escrita em francês, como a de Beckett, mas a vida de Cioran, quase toda vivida na França, em exílio voluntário, são devedoras desses desastres.

Ora, o que fazer quando não se acredita em absolutamente nada, nem em Deus, nem nos homens, nem nos regimes políticos, nem na filosofia, nem na maioria dos poetas? Como continuar vivendo quando não se alimenta ilusão alguma a respeito do que quer que seja, quando se acha a vida absurda, se foi até as últimas consequências na negação de tudo, se negou a própria terra e a própria língua de origem, se chegou ao vazio, à força de negação e, ainda por cima, por obra de uma insônia crônica, não se dorme?

Até o dia em que resolve parar de escrever, depois de ter aproveitado sabiamente as suas muitas noites em claro para se dar conta de que o vazio total pode ser encarado com distância, e assim prescindir do suicídio —Cioran, a título de resposta a essa situação que ele próprio reputa insuportável, produz textos, abundantemente. Como ele diz, quem não tem razão nenhuma para viver, por que teria uma para morrer?

Os escritos assim produzidos, em nome de uma busca sem objeto, hoje compõem uma apreciável obra completa, de 16 títulos, acerca do nada —o  néant, termo para o qual Cioran apela frequentemente, e que ele prefere a  abismo porque o abismo dá vertigens, quando o nada não dá nada. Mas para se alcançar verdadeiramente o refinado cultor de fórmulas sintéticas e agônicas que ele é, consciente de que toda forma de conhecimento é uma forma de demolição, é forçoso atentar também para os efeitos da passagem para Paris, no início dos anos 40, e mais precisamente para o impacto do rigor francês sobre os excessos balcânicos do imigrado.

Inúmeras outras fontes podem nos aproximar de uma interpretação de Cioran. A cultura dominantemente alemã da região romena em que ele nasce e se forma e, através dela, a instigação do pessimismo schopenhaueriano, via Nietzsche, por exemplo. Ou a leitura, decisiva, dos místicos espanhóis. A biblioteca particular do escritor o mostra ainda atento ao tédio baudelairiano, tédio sendo outra palavra de enorme circulação em seus escritos, a Shakespeare, a Valéry, ao poeta Henri Michaux, ao próprio Beckett, a Borges, que ele chama  o último dos delicados e que o faz perguntar: como um espírito tão refinado pode suscitar aprovação tão geral?

Mas o ponto em que se origina o que alguns chamam um segundo nascimento, até porque ele coincide com a adoção da expressão francesa —em 1949, quando publica, com 38 anos, o  Breviário de Decomposição, reescrito inúmeras vezes para limpar as marcas do romeno— é o encontro com os moralistas franceses e com seus descendentes diretos, os filósofos-escritores do século 18. Mais que filosofar poeticamente, estes lhe ensinam as exigências de limpidez e sutileza da língua de Voltaire.

O que ocorre nesse momento é que é a exaltação lírica, a efusão com que se verte o desespero, os superlativos do Cioran, que começou escrevendo sobre  Santos e Lágrimas (1937) ganham comedimento, distanciamento, ironia. Aqui, ele se passa a limpo. Aqui ele que é amante da música conquista um tom, um estilo, mais que de pensamento, de escritor. Os aforismos, os silogismos, os breviários, os manuais vêm daí. E a palavra  decomposição, inscrita no título do primeiro livro em francês, indica exatamente isto: o fim da antiga tonalidade. O talento para a negação vira talento para a formulação. A neurastenia se torna elegante, como já se disse.

O escritor, qual um verdadeiro dândi da misantropia, como também já se disse, está agora pronto a dirigir-se ao julgamento final com uma flor na lapela. Cioran desesperado é uma lição de maestria formulativa.

Pena que, sóbrio até as últimas consequências, essa sua elegância já não se exerça mais, devorada que foi pela discrição final do silêncio.

LEDA TENÓRIO DA MOTTA é crítica literária e professora de literatura francesa da Unesp (Universidade Estadual Paulista)
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