Emil Cioran vigiado pela Securitate

por Stelian Tănase

(extraído de Cahier L’Herne 90 – Cioran, organizado por Laurence Tacou e Vincent Piednoir, 2009)

Tradução de Rodrigo Menezes

O “personagem” Emil Cioran é ainda pouco conhecido. Ele desejava ser decifrado apenas pelos livros que publicou após a guerra. A partir de 1940, Cioran se dedicou metodicamente a uma discrição que beirava a mania do segredo. Ele nunca quis de maneira alguma que seu passado intelectual e político fosse descoberto. Durante a década de 30, esteve próximo da extrema-direita; publicou artigos elogiosos sobre Hitler e sobre Zelea Codreanu, além de textos antissemíticos. Constituíra-se assim um passado inconfessável antes de se refugiar, em 1941, em Paris, após ter sido demitido do cargo de agregado cultural em Vichy, onde fora nomeado meses antes. Tendo sido estabelecido o regime comunista na Romênia, os serviços especiais de Bucareste passaram a considera-lo um alvo prioritário. Durante sua longa existência – de 1949 a 1989 – a Securitate não se interessou apenas pelos romenos residindo em território romeno. Ela conduziu amplas ações no Ocidente, tendo como alvo imigrantes romenos, não importa quando tenham ido embora da Romênia, tivessem ou não um colorido político. Nas listas negras da Securitate, encontram-se antigos dignitários, antigos diplomatas, homens de negócios, jornalistas, artistas, padres, militares, etc. O fato mesmo de estabelecer-se no Ocidente era considerado um delito, punido pelo novo código penal, de matriz soviética. A razão pela qual o regime passou a observar Emil Cioran não foi tanto o seu passado ideológico de extrema-direita, nem suas simpatias pró-alemãs, e tampouco sua afiliação ao movimento legionário. A Securitate estava preocupada com o “presente”. Ela tinha dois objetivos: (1) saber os vínculos que os membros da diáspora mantinham em seu país; e (2) o conhecimento e impedimento de ações de protesto organizadas junto aos governos e à imprensa ocidental. Deste ponto de vista, Cioran apresentava um duplo interesse para a Securitate. Em seu refúgio parisiense, ele vivia à margem, de maneira contrária ao comportamento que tinha na Romênia, onde se mostrava bastante sociável, bastante presente na imprensa e em acontecimentos de caráter mais ou menos mundano (vernissages, conferências, lançamentos de livros, premiações, etc.). Os motivos de sua reclusão foram diversos, mas todos estavam ligados ao seu medo de ver seu passado de militante antissemita de extrema-direita revelado ao público francês. Isso teria tido consequências nefastas para o seu destino. Primeiro, ele poderia ser vítima de investidas e ameaças da Securitate de Bucareste. O caso de Vintila Horia, antigo legionário, lhe servia de exemplo. Em 1960, Horia foi sugerido para o prêmio Goncourt. A embaixada romena de Paris o convidara repetidas vezes na tentativa de anexá-lo ao regime. Horia se recusou, e por consequência Bucareste lançou uma campanha, baseada nos dossiês da Securitate, para desmascarar seu passado de homem da extrema-direita. Hora ficou comprometido, se retirou, e sua carreira na França terminou aí. Para Cioran, o caso foi um exemplo a ser lembrado. Outra ameaça vinha da esquerda e de alguns intelectuais judeus que conheciam seu passado pré-guerra. Seu adversário mais célebre era Lucien Goldman, antigo comunista, expulso do Partido Comunista da Romênia em 1937-38 por trotskismo, e que estava ciente dos artigos antissemitas e pró-nazistas de Cioran.  Terceira ameaça para Cioran, os membros do movimento legionário que viviam no Ocidente e que se manifestavam por meio de publicações; estes o atacavam por causa de sua recusa de participar em suas ações, e sobretudo por sua negação do passado.

Seu dossiê foi aberto em 14 de janeiro de 1954. Não obstante, é difícil de acreditar que, durante os anos entre 1944 e a ocupação da Romênia pelo Exército Vermelho, ele tenha sido totalmente esquecido pelas autoridades comunistas. Em 1948, seu irmão Aurel Cioran foi preso, julgado e condenado a sete anos de detenção por “atividades legionárias”. Sua irmã Virginia também foi presa e deportada ao Canal Danúbio-Mar Negro[1] (projeto iniciado em 1949, principalmente utilizado pelo regime para exterminar a antiga elite). O dossiê compreende, a partir de 1951, diversas referências ao “fugitivo de Paris”, assim como cópias de cartas enviadas a seus parentes. Cartas, ademais, banais, em que ele anunciava o envio de pacotes com roupas e medicamentos, e dava notícias de sua própria vida. Em 1954, a Securitate de Sibiu abre para Cioran um dossiê de “busca local” (PL). Um ano depois, em 16 de agosto de 1955, seu dossiê passa de “busca local” para “busca nacional” (PN): “RPR, Ministério do Interior. Estritamente secreto. Região de Braşov, distrito de Sibiu, nº 2808”, este dossiê referente a “Ciobanu” (“O Pastor”, codinome do escritor). A data é bem próxima da libertação de Aurel Cioran. A partir de então, os agentes que atuam no Ocidente se dirigem progressivamente a Paris, tendo Cioran como um de seus alvos principais. Na Romênia, sua família é vigiada de perto, assim como seus amigos.

Em 1º de março de 1960, o tribunal militar de Bucareste julgou o maior processo já lançado a intelectuais. Dentre os 23 três acusados figuravam alguns amigos de Cioran: Constantin Nöica, Arşavir Acterian, Marieta Sadova, todos antigos legionários. Outros acusados eram antigos legionários com os quais Cioran não teria tido contato. Mas no conjunto dos acusados estavam também pessoas de visões opostas (Alex Paleologu, Nicu Steinhardt, Dinu Pillat, Vladimir Streinu, Theodor Enescu, etc.). Todos foram condenados a longas penas de encarceramento, variando de seis a vinte cinco anos. Sua culpabilidade foi inventada de todas as maneiras possíveis. Um dos principais argumentos da acusação foi a correspondência de Cioran com a Romênia. Constantin Nöica foi acusado de preparar a tradução de um ensaio sobre Hegel que ele enviaria a Paris, onde, com a ajuda de Cioran, seria publicado. Também acusaram Nöica de ter respondido a um texto de Cioran publicado na NRF[2] em 1957, “Lettre à un ami lointain”[3]. Outra cabeça de acusação, o fato de que alguns dos acusados teriam lido e espalhado (o que significava “propaganda anticomunista”) La Tentation d’Éxister, publicado pela Gallimard em 1956. O livro havia sido introduzido na Romênia pela produtora e atriz Marieta Sadova, amiga de juventude de Cioran. Eles haviam frequentado juntos os meios legionários dos anos 30. De passagem por Paris após uma turnê do Teatro Nacional, Marieta encontrou Eliade e Cioran, levando para a Romênia alguns exemplares de A Floresta Proibida e de A Tentação de Existir. Este segundo, especialmente, foi considerado subversivo (o primeiro é um romance fantástico). O livro circulou em diferentes círculos intelectuais, de extrema-direita ou não, ou de pessoas simplesmente curiosas para ler um livro publicado em Paris por um romeno que deu certo. Ataques contra Cioran e contra seu livro aparecem na imprensa romena, no contexto de uma repressão massiva lançada por Gheorghiu-Dej, que temia ver a situação fugir ao seu controle após a partida do Exército Vermelho, em 1958. No quadro dessa campanha de repressão, milhares de intelectuais e militantes de antigos partidos foram presos. Vínculos com Cioran serviam de pretexto para as autoridades levarem a cabo o processo de 1960. A figura mais proeminente dentre os acusados era o filósofo Constantin Nöica, amigo de Cioran desde seus anos de estudos. O nome “Emil Cioran” seria pronunciado diversas vezes durante o processo, tanto na acusação quanto nos depoimentos das testemunhas. As autoridades buscavam assim intimidar os círculos intelectuais, infligindo para tanto penas bastante pesadas.

Em 20 de março de 1965, o dossiê de “UT” (“busca nacional”) se transforma em dossiê de “busca individual”. A Direção de Informações Externas (DIE) envia diversos espiões a Paris. A Securitate coloca vários agentes dentre seus amigos da Romênia, e ao redor de sua família em Sibiu. Os dossiês destes anos contêm centenas de referências repletas dos detalhes mais anódinos, pressuposições e denúncias. Sua correspondência é violada e copiada antes de ser reenviada aos destinatários. Três anos depois, em 8 de fevereiro de 1968, “o arquivamento da ação informativa individual é decidida”. O contexto havia mudado. A Romênia estreitara os laços com a França. O General de Gaulle havia aceitado o convite de Ceauşescu para visitar Bucareste; o acontecimento se deu em maio de 1968. As autoridades decidem então renunciar ao “suspeito”. Um documento emitido em 23 de fevereiro de 1970 mostra que o dossiê “CHIRU” (pseudônimo designando nosso personagem) está arquivado porque “CIORAN EMIL não apresenta mais interesse para nosso trabalho”. Não obstante, seria ingênuo acreditar que Cioran cessa, a partir dessa data, de ser vigiado. Ele continua sendo objeto da atenção dos serviços de informação da Romênia. A preocupação destes com os intelectuais exilados em Paris não diminui, qualquer que seja a conjuntura política. As técnicas são as mesmas, dos anos 50 aos 70: (1) infiltrar agentes em seus arredores e dentre os romenos da Romênia com os quais ele se corresponde; (2) violar sistematicamente a correspondência; (3) interceptar todas as conversas telefônicas, etc. Durante este período, o interesse crescente das autoridades por Cioran as leva a tentar utilizar Aurel Cioran como um informante. A tentativa aconteceu em 1975 e terminou como um fracasso, após Aurel ter “desconspirado” [descoberto] a situação, tendo-a relatado a amigos. Mesmo assim, ele recebe, em 1981, a autorização para viajar à França. Este fato se explica pela operação “Recuperação”, lançada pela Securitate com o fim de levar Cioran de volta à Romênia. Os dois irmãos se reencontrariam após quarenta anos de separação. A Securitate abriu um novo dossiê, em que Cioran foi batizado, desta vez, como “ENE”. Sob a aparência de um funcionário do Ministério de Assuntos Externos, um oficial disfarçado interroga Aurel Cioran em Sibiu antes de sua partida a Paris. Diversos informantes gravitam ao redor dele. A vigilância se intensifica. Em sua volta, dois meses mais tarde, ele recebe novamente a visita do agente, que vem recolher suas impressões. Como o agente não confia em sua sinceridade, ordena que Aurel seja “verificado” por informantes, mediante a técnica da escuta (TO) instalada há vários anos em sua casa, e também pela interceptação de ligações telefônicas. Evidentemente, é muito mais fácil para a Securitate trabalhar em Sibiu e Bucareste, que em Paris. Os anos 80 marcam uma degradação contínua do regime comunista. Os relatórios dos agentes se rarefazem progressivamente. Cioran, por sua vez, torna-se cada vez mais desconfiado, tendo sido prevenido de repetidas tentativas de infiltração de agentes. Ele se torna tão mais ansioso quanto aumenta a paranoia de Ceauşescu, com suas ordens de represália contras os contestatários no Ocidente. Os repetidos escândalos provocados em Paris pela Securitate o avisaram do perigo. A deserção do general Pacepa, o caso Hajduk, o caso Goma-Tănase, o caso Monica Lovinescu (atacada na rua por ordem da Securitate), mostram um regime em plena deliquescência, decidido a recorrer a todos os meios para intimidar aqueles que considerava seus inimigos. A imagem de Ceauşescu se afunda, e as críticas e os ataques do Ocidente se multiplicam. Os temas mais comentados são: a demolição de vilarejos e igrejas, a penúria crônica de produtos, a construção da Casa do Povo e a destruição de Bucareste, o culto da personalidade e a política neosstalinista praticada por Ceauşescu. Os julgamentos feitos por Cioran a respeito do regime também se modificam.

Nos anos 60, quando a política externa da Romênia manifestou uma independência em relação a Moscou, Cioran parecia mais tolerante, não desprovido de certa esperança por uma eventual mudança. Ele dizia às vezes que ele desejaria voltar a Sibiu, para rever os lugares onde ele viveu. Nos anos 80, ele recusava claramente tais proposições e parou de dizer, mesmo aos amigos, que gostaria de voltar à Romênia. Ao contrário, sua opinião sobre o regime de Bucareste se radicaliza. Ele recebe cada vez menos os romenos chegados da Romênia. Suas cartas são mais e mais circunspectas, e estritamente endereçadas a alguns parentes e a velhos amigos em quem Cioran ainda tinha confiança. A Securitate continua sua vigilância técnica, ainda que seus meios sejam cada vez mais limitados. As referências sobre Cioran provêm especialmente de agentes disfarçados colocados como diplomatas na embaixada da RSR em Paris e, às vezes, de emissários que conseguem encontrá-lo e obter informações de primeira mão. Os relatórios citam sobretudo artigos publicados na imprensa: por exemplo, sua recusa de um prêmio literário oferecido pela Academia Francesa, ou ainda afirmações feitas em entrevistas. Mesmo já enfrentando inúmeros problemas internos, pois o regime estava próximo do fim, a Securitate continua operação de “influência positiva”, que já leva trinta anos. O projeto de convidar Cioran à Romênia é esquecido, “até novas ordens”. No entanto, encontramos, nesses dossiês, notas informativas e referências datando dos anos 1988-1989 que indicam que Cioran ainda interessava à DIE.

A informação mais espetacular revelada pela consulta dos dossiês compostos pela Securitate a propósito de Cioran (sob três nomes diferentes: “Ciobanu”, “Chiru”, “Ene”) é sem dúvida esta: o interesse “informativo” por Cioran não diminuiu nem mesmo após a queda de Ceauşescu. As autoridades “revolucionárias” massivamente controladas pelas antigas estruturas da Securitate não cessaram de se interessar por ele. O desmembramento oficial da Securitate no final de 1989 não produziu nenhum efeito. O dossiê “EMIL CIORAN” só foi arquivado alguns meses mais tarde. Em 5 de maio de 1990, um documento ultrassecreto, nº a-6/005553/15 é emitido por U.M. X-609 (exemplar único): “Relatório propondo o arquivamento da ação informativa de influência ‘ENE’”. “‘ENE’ tem agora 79 anos, de nacionalidade romena e cidadania francesa, professor de filosofia e escritor, domiciliado a Paris. Ele foi objeto de nosso interesse em 1981, no contexto da ação ‘Recuperação’. Tendo em vista que ‘ENE’ não mais oferece nenhum interesse operacional segundo a linha de nossa unidade NÓS PROPOMOS: que seja aprovada sua desconsideração e o arquivamento do dossiê 5553 de U.M.L115. assinado Cpt. ss. (indecifrável) e chefe de serviço Lt. Cel. M. Vasiliu.”

Assim, a carreira de “suspeito” de Emil Cioran foi longa. As acusações que ele sofreu não concerniam tanto à suas afinidades legionárias dos anos 30 (de resto, o regime comunista de Bucareste demonstrava inúmeras semelhanças com a ideologia de extrema-direita). O erro que lhe fez ser perseguido foi, além do fato de ter mantido vínculos com parentes e conhecidos na Romênia, “a realização de atividades inimigas por seus escritos ‘filosóficos’ [as aspas aparecem no dossiê] de caráter idealista.” A Securitate constata: “Nas relações que ele mantém frequentemente por correspondência, como por intermédio de turistas, o elemento perseguido manifesta prudência e não faz afirmações de caráter político.” As relações com o “suspeito” evoluíram, assim como as relações de Bucareste com Moscou e com o Ocidente. Houve aí curtos períodos de recaída (pouco após 1955, graças ao “espírito de Genebra”, ou ainda nos anos 60, sob o pano de fundo da “liberalização”). Elas alternaram com outros períodos, mais longos, de recrudescimento do controle, contemporâneos de intensificações da guerra fria (após a revolução de Budapeste, e as invasões da Tchecoslováquia e do Afeganistão). Nestas circunstâncias, o interesse da Securitate aumentava, e as acusações se multiplicavam. Certamente, não houve um dia em que Cioran tivesse sido esquecido por Bucareste. Um dos objetivos da vigilância contínua do escritor pela DIE foi a “influência positiva” mediante diversos mensageiros e espiões infiltrados em seus arredores. Visava-se desencorajá-lo, dissuadi-lo de participar da emissão de um programa de rádio ocidental que era transmitido na Romênia. Outro objetivo: convencê-lo a não colaborar com membros da emigração em ações de protesto, a não se expressar publicamente de maneira crítica a respeito de Bucareste. Como havia se tornado um escritor renomado, toda posição de contestação de sua parte teria um peso (real ou suposto) que Bucareste não apreciaria. O regime trabalhou desde meados da década de 50 para que Emil Cioran (1) ou voltasse “à casa” definitivamente; ou (2) fizesse uma viagem à Romênia por convite oficial das autoridades. Esta foi, com efeito, uma verdadeira obsessão do regime. Caso Cioran tivesse aceitado, o regime teria conquistado uma vitória importante para sua propaganda. Poderia ter alegado que Cioran, antigo ideólogo da extrema-direita, agora um intelectual de prestígio no Ocidente, aprovava a ditadura comunista. Essa operação de atração à Romênia não visava unicamente a Cioran, mas também a Eugène Ionesco e Mircea Eliade. Todos os três se recusaram a retornar à Romênia. Outros aceitariam, como G.E. Palade (prêmio Nobel de medicina) e Henry Coanda (o inventor do avião por reação), etc., tendo sido copiosamente utilizados pela propaganda oficial. Para conseguir essa “influência positiva” e a “visita ao país”, Bucareste enviava frequentemente seus agentes a Paris para contatar Cioran sob toda sorte de pretextos. Estes agentes eram ou pessoas que Cioran havia conhecido em sua juventude, e dos quais alguns haviam entrementes se tornado informantes da DIE, ou mesmo desconhecidos, igualmente recrutados pela Securitate. Quem eram eles? Antigos prisioneiros políticos que tinham assinado um compromisso com a Securitate durante sua detenção ou após a liberação. Amigos de escola, escritores ou jornalistas do pré-guerra, eles também estavam a serviço da Securitate. Uma parte destes emissários enviados a Paris era simplesmente composta de oficiais de informação sob diversos disfarces: jornalistas, funcionários, etc. Os meios empregados por Bucareste para esta operação foram superdimensionados, testemunhando todo o interesse que apresentava o “suspeito” aos olhos das autoridades comunistas conforme a paranoia de Ceauşescu aumentava e a Securitate amplificava suas ações referentes a Cioran. Cumpre notar que as opiniões de Cioran a respeito do regime variam. Nos anos 60 – no período de sua dita “liberalização” – elas foram mais tolerantes. A anistia de presos políticos em 1964, a publicação de alguns escritores antes proibidos, a relativa abertura do acesso aos passaportes, que permite a alguns de seus amigos de antes da guerra, além de parentes, virem visitá-lo em Paris, temperam suas opiniões. Elas voltam a ser críticas após a guinada neosstalinista do regime em 1971. E até sua queda em 1989, seus julgamentos se radicalizam. Envelhecendo, Cioran se isolaria progressivamente da emigração romena em Paris; exceções feitas a Sanda Stolojan, Georges Banu, Constantin Tacou, os quais Cioran via com frequência; ou ainda ao casal Monica Lovinescu e Virgilç Ierunca, o círculo de suas relações romenas se restringiria cada vez mais durante os anos 80. Ele permaneceu em contato com Eugène Ionesco, que não era um amigo de juventude (sendo Ionesco de esquerda, isso seria impossível), e com Mircea Eliade, que tinha pertencido à extrema-direita nos anos 30, no início de sua amizade. Todos os três estiveram unidos em seu exílio ocidental por sua origem comum e por um estatuto que eles haviam obtido aqui: a celebridade. Nenhum deles retornou à Romênia, apesar de todas as maquinações feitas para atraí-los a Bucareste. A julgar pelos três, a operação lançada pela Securitate com o nome de “Recuperação” foi um fracasso.

Os documentos de arquivos reproduzidos nas páginas que se seguem são apenas uma ínfima parte do fundo existente. Eles provêm de arquivos da CNSAS (Conselho Nacional de Estudo dos Arquivos da Securitate) e do SRI (Serviço Romeno de Informação). Estas páginas revelam ao leitor aspectos desconhecidos do “personagem” contrastado que foi Emil Cioran, e do contexto histórico no qual ele evoluiu.


[1] Onde cumpriu trabalho forçado.

[2] Nouvelle Révue Française.

[3] “Carta a um amigo distante”, carta de Emil Cioran a Constantin Nöica que se tornaria o primeiro capítulo de História e Utopia (1960).

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