Resenha: “O Deus exilado: breve história de uma heresia”

Resenha:
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FIORILLO, Marilia. O Deus Exilado – Breve História de uma Heresia. São Paulo: Civilização Brasileira, 2008. ISBN: 978-85-200-0832-4, 288 pags.
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por Rodrigo Menezes (publicado na REVER em março de 2009)

http://www.pucsp.br/rever/rv1_2009/r_inacio.htm

Se admitirmos que o Novo Testamento não é uma carta-patente celestial, e que a doutrina cristã era, e é, plural, por que não entender os textos ditos heréticos em seus próprios termos, em vez de usar a lente de seus detratores? […] A verdade dinástica dos padres da Igreja não coincide com a das comunidades sobre as quais eles escreveram. Longe de constituir um “dejeto” […], a heresia foi, em alguns locais, uma respeitável e folgada maioria que dominava, e desdenhava dos ortodoxos como “falsos crentes”. (FIORILLO 2008: 188-9)

Primeiro livro publicado no Brasil sobre o delicado tema do gnosticismo, O Deus Exilado – Breve História de uma Heresia aborda este que é objeto de grande controvérsia entre teólogos, filósofos, historiadores e sociólogos. Envolto por uma densa névoa de ocultações, distorções e falsificações por parte de seus “detratores”, aquilo que se convencionou chamar de “heresia gnóstica” é um elemento indissociável da história do Cristianismo.

O ceticismo é a tônica do livro, que, segundo a autora, destina-se aos leitores “desconfiados”: todos aqueles que suspeitam de absolutos institucionalizados, que recusam as certezas oriundas da inércia e que consideram o questionamento sistemático das verdades estabelecidas uma inestimável virtude – intelectual e moral. Por isso, O Deus Exilado apresenta-se como uma espécie de antídoto contra dogmatismos e absolutismos afins, oferecendo um valioso instrumental histórico-crítico para se pensar questões tão atuais quanto urgentes como o avanço preocupante dos fundamentalismos diversos e as consequências nefastas que deles resultam. Ademais, falar de gnosticismo é falar de uma religiosidade sui generis que não se pauta pela fé, pela submissão a dogmas inquestionáveis, mas pela autonomia do indivíduo que busca, pessoalmente, conhecer a si mesmo, Deus e o mundo, e que afirma sua experiência íntima e intransferível como critério último de verdade.

“Poucas épocas foram tão felizes para a delicada causa das heresias como o século XX. A descoberta casual de inúmeros manuscritos antigos, no deserto do Egito, na Palestina ou em Turfan, no Turquestão chinês, tirou do exílio vários grupos que haviam sido condenados ao silêncio e ao esquecimento” (FIORILLO 2008: 31). Partindo dessas providenciais descobertas, em especial a da Biblioteca de Nag Hammadi (feita em 1945, na região egípcia homônima), Marilia Fiorillo empreende uma desafiadora revisão histórica do Cristianismo, apresentando como antítese à versão oficial do lado vitorioso, o testemunho gnóstico, resgatado do silêncio e do esquecimento, conforme se faz ouvir através de textos como o Evangelho da Verdade, o Evangelho de Tomé, o Evangelho de Maria, o Evangelho dos Egípcios, entre dezenas de outros. O objetivo é repensar a natureza originária da religião cristã, bem como os fatores implicados em sua consolidação na forma da Igreja que hoje conhecemos.

No início, eram muitos os Cristianismos, quase tão numerosas as interpretações da mensagem de Jesus quanto os indivíduos que se diziam seus seguidores, cada comunidade defendendo sua autenticidade e o seu direito de existir, tão equilibradas entre si que sequer era possível uma distinção entre o ortodoxo e o herético, o verdadeiro e o falso. Questiona-se, assim, a suposta unidade originária da religião cristã, mediante as evidências de que, por mais variados que sejam os Cristianismos do mundo atual (católico, luterano, anglicano, neopentecostal, etc.), as diferenças são ínfimas se comparadas àquelas que distinguiam os numerosos grupos cristãos dos primeiros séculos.

Mas o que é, afinal, o gnosticismo? Quem são, ou foram, os gnósticos? No capítulo em que se propõe a decifrar o – tão complexo – “Enigma Gnóstico”, Fiorillo desvenda as obscuridades, as sutilezas e os traços distintivos da espiritualidade gnóstica, expondo os principais pontos de divergência entre cristãos heterodoxos e ortodoxos:

Os gnósticos se opõem aos crentes habituais porque consideram a fé um atalho errado para chegar a Deus – o único caminho, insistem, é o do conhecimento, como, aliás, diz a palavra grega gnosis, “conhecimento pela via da experiência”. […] Para eles, o contato com a divindade é um assunto pessoal, direto e intransferível; isto é, não se precisa nem nunca se precisou da intermediação de uma casta sacerdotal. […] O pensamento gnóstico é de um pessimismo congênito, porque seu dilema central é o velho unde malum?, isto é, a interrogação sobre a causa do sofrimento no mundo, que tanto a teologia como a filosofia nunca responderam satisfatoriamente. (FIORILLO 2008:34-5).

Divergências que não são exclusivamente doutrinárias, mas também políticas, assim como os fatores implicados no desenrolar da história. A habilidade política dos ortodoxos foi determinante para o seu triunfo: no século IV, eles haviam consolidado uma rigorosa estrutura eclesiástica, organizada com base em uma rigorosa hierarquia administrativa. Fiorillo explica que “foi essa nova burocracia episcopal, alçada às funções de nomear ou exilar prelados, excomungar fiéis, expatriar e confiscar, e muitas vezes administrar localidades, que ganhou a simpatia dos imperadores.” Ao mesmo tempo, é inegável que as promessas ortodoxas de conforto e salvação estavam fadadas ao sucesso no contexto de um império que começava a se deteriorar a partir do século III, culminando na profunda miséria que assolaria a população no século IV.

No capítulo “O Sucesso de Uma Superstição” é analisado o processo através do qual o Cristianismo promoveu-se de seita marginal (entre tantas outras, ora ignorada, ora repudiada pela elite romana) à condição de religião oficial do império. A transição foi lenta e gradual: “no século I eles eram carpinteiros e pescadores; no IV, eram também a elite romana. No século II e no início do III não eram nem particularmente reconhecidos, nem perseguidos sistematicamente. No IV, tornaram-se os donos da religião oficial” (FIORILLO 2008: 179). Até que isso acontecesse, no entanto, sofreriam uma grande dose de intolerância por parte dos imperadores pagãos (de Nero a Diocleciano, entre outros), até que Constantino, simpático ao novo culto, preparasse o terreno para que Teodósio finalmente decretasse o Cristianismo de corte Católico como religião oficial do império (379), proibindo todas as demais práticas religiosas, cristãs e pagãs.

Uma vez estabelecidos no poder, os ortodoxos podiam começar a pensar não apenas no futuro, mas também no passado. Reescrever a história fazia-se um imperativo, de modo a estabelecer a versão oficial da doutrina cristã. Era preciso redefinir quem foi Jesus e quem são seus verdadeiros seguidores – enfim, qual o verdadeiro Cristianismo (ortodoxo). Os ortodoxos teriam lançado mão dos mais variados estratagemas, como ocultações, distorções e reinterpretações, para legitimar a sua doutrina e desautorizar a dos rivais. A autora cita o brilhante argumento da “sucessão apostólica”, pedra de toque da chamada “monarquia episcopal”, que reza que “só são autênticos os bispos cujos antecessores haviam tido contato direto com um apóstolo” (FIORILLO 2008: 182).

Outras falácias empregadas na campanha ortodoxa incluem (1) “o argumento de uma única verdade num único texto, incólume a revisões daqueles que a propagaram”, e (2) “o argumento de que toda heresia é posterior, nunca um pensamento original, anterior ou contemporâneo à ortodoxia” (FIORILLO 2008: 191-2). Primeiramente, é sabido que cada comunidade cristã adotava os evangelhos de acordo com o discípulo de sua preferência (os “de Tomé”, os “de Marcos”, os “de Maria”, etc., cada um proclamando a sua “verdade”), e que todos eles – canônicos inclusos – eram textos nascidos da tradição oral, reescritos e revisados inúmeras vezes até alcançar sua forma final; em segundo lugar, uma das teses do livro (consoante ao estado atual da questão) é de que, em lugares como Edessa, Antioquia e Alexandria, a “heresia” era precedente e prevalente. Ademais, alguns dos evangelhos gnósticos da Biblioteca de Nag Hammadi são tão antigos quanto, ou até mais que, os canônicos. O Evangelho de Tomé, em particular, é considerado um dos primeiros evangelhos cristãos escritos e aquele cuja data de redação estaria mais próxima da controversa existência histórica de Jesus.

Sobre a controvérsia do Jesus histórico, aliás, Fiorillo considera mais importante esclarecer quem ele não foi: “Jesus, quem quer que tenha sido, nunca se arrogou o papel de Deus (e muito menos de Segunda Pessoa da Trindade ou algo do gênero)”; além disso, “fosse quem fosse, ele jamais pretendeu fundar uma Igreja à parte – e, muitíssimo menos designar sucessores ou apóstolos” (FIORILLO, 2008: 156). Por fim, tendo como prerrogativa as variadas (e, no entanto, afinadas) vozes gnósticas resgatadas do esquecimento, a autora reconsidera a história da religião cristã, explorando as contradições, manobras, controvérsias e embates envolvidos no seu desdobramento em direção ao triunfo católico. Desconstrói, assim, o paradigma estabelecido de uma igreja vitoriosa graças a uma suposta investidura divina, tendo sido um coro de vozes uníssonas desde sempre.

O livro parte do presente, mergulha no passado, e ao presente retorna. O capítulo inicial é uma visita à comunidade dos mandeanos, herdeiros do antigo gnosticismo sobrevivendo, em pleno século XXI, num Iraque marcado pela tensão e pela violência contra minorias étnicas e religiosas. Após uma incursão na Antiguidade e na Idade Média, quando o espírito gnóstico é reavivado pelos cátaros e outras heresias, retornamos à atualidade, dirigindo-nos à realidade obscura de Uganda, país dilacerado pelo Exército dos Combatentes de Deus, um sanguinário grupo rebelde cujo líder, Joseph Kony, se diz a encarnação do Espírito Santo.

Tendo em vista as consequências políticas do Cristianismo traduzido na história, Fiorillo nos deixa com a questão sobre em que medida as verdades religiosas são compatíveis com um humanismo secular, e em que medida não comprometem a igualdade, a liberdade e a fraternidade universais. Ela nos apresenta, muito a propósito, o exemplo de um tipo de Cristianismo antigo (entre tantos outros apagados dos registros oficiais da história) que parece, em certo sentido, uma espécie de humanismo religioso avant la lettre. Um Cristianismo genuíno, pois, que preconiza a busca individual e o conhecimento como caminho em direção a Deus. Um salutar recurso contra dogmatismos e absolutismos diversos.

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