Paixão negativa, identidade negativa: Cioran e a Romênia

Em sua biografia crítica intitulada Searching for Cioran (“Em busca de Cioran”), a romena naturalizada americana Ilinca Zarifopol-Johnston, que conheceu o autor e tornou-se sua amiga, faz uma análise arrazoada do fenômeno fascista na Romênia da década de 30, situando o aparecimento de “Transfiguração” nesse contexto de tensão política do período entre guerras. Abaixo, um trecho do seu livro é bastante elucidativo sobre as circunstâncias envolvendo a gênese desse libelo político.

Paixão negativa, identidade negativa

Schimbarea la față a României foi publicado na primavera de 1936, quase ao mesmo tempo que Yoga, de Mircea Eliade. Numa carta a Cioran, que levava então uma vida infeliz como professor de um colégio em Braşov – tendo, para sua ainda maior infelicidade, servido ao exército do outono de 1935 à primaveira de 1936 -, Eliade menciona a iminente publicação dos seus respectivos livros, pede que Cioran lhe envie o exato título e dinheiro para a impressão, e relata uma situação bizarramente confusa de última hora: os dois conjuntos tipográficos haviam sido misturados. Felizmente, estava de prontidão na editora para consertar o erro. Eliade também comenta o aspecto político do livro de Cioran, elogiando o seu capítulo sobre “operários e judeus” e discordando dele a respeito de suas visões sobre a vida aldeã romena. Em 10 de junho de 1936, Cioran escreveu para Eliade de Sibiu, elogiando Yoga, que acabara de ser publicado. Ele nada disse sobre o seu próprio livro, mas, se este tivesse cumprido o cronograma, já era para ter sido publicado também.

A publicação de Transfiguração da Romênia, que seria reeditado em 1941, marca o ápice de um contexto político e cultural altamente carregado. De acordo com Zigu Ornea, que estudou o cenário cultural da Romênia nos anos 20 e 30 em dois volumosos livros, a “jovem geração” de intelectuais a que perteceram Cioran e Eliade passou por duas fases distintas: de 1928 a 1936 e de 1936 1940. Assim, para Ornea, 1936 é um ano crucial; com efeito, a publicação de Transfiguração pode muito bem tê-lo ajudado a demarcar a sua cronologia crítica. Mas enquanto a primeira fase foi louvada como o renascimento cultural romeno, o segundo foi caracterizado por uma politização crescente, o que teve início em 1933 com Nae Ionescu, o guru da geração, promovendo o movimento fascista da Guarda de Ferro nas páginas do seu jornal Cuvîntul (“A Palavra”).

A guinada política em termos de atitudes culturais dentre a “jovem geração” é evidente na carta de 1936 de Eliade a Cioran, a propósito da publicação de Transfiguração. Nela, Eliade fala no mesmo tom que o livro de Cioran (que ele enxerga como um tratado político) sobre a política na Romênia e sobre um projeto semanal, “de direita, político e em certo sentido cultural, também”, ao qual muitos dos membros da “jovem geração” haveriam de contribuir, e ele os identifica pelo nome: “você, eu, Ţuţea, Sorin Pavel, Golopenţia, Stahl, Noica, e alguns outros.”A política havia se tornado dominante; a cultura está presente apenas “em certo sentido”, de nome. Aludindo às intensas discussões políticas dentro do grupo, Eliade comenta: “Você e Ţuţea me deixaram louco, eu devo me tornar um político nas minhas horas de sono e delírio. Que coisa horrenda é a política na Romênia!”

Este processo de intensa politização da vida cultural romena, da qual a Transfiguração da Romênia é tanto um sintoma e um símbolo, reflete o clima político cada vez mais radical do país nos anos de 1930. A começar pelo assassinato do Primeiro Ministro I. G. Duca, por membros da Guarda de Ferro em dezembro de 1933, a Romênia gradualmente escorregou para longe de sua política liberal, em direção à extrema direita. Em 1935, a Guarda de Ferro, banida em 1931 e novamente em 1933, reapareceu como um partido legal após juntar-se a outro grupo de extrema direita sob o nome de “Tudo pela Pátria”. A popularidade do novo partido cresceu, devido à crise econômica e a incapacidade dos partidos tradicionais de remediar a situação que só se agravava. O medo da Rússia comunista, a força e o prestígio cada vez maiores da política de direita na Europa ocidental, e uma desconfiança em relação ao liberalismo ocidental – tudo isso contribuiu para a balança pender a favor de Hitler e a Alemanha. Em fevereiro de 1930, sob o pretexto de resolver a crise política da Romênia, o Rei Carol II pôs um fim ao governo democrático romeno e instituiu uma ditadura real.

Este é o contexto social amplo em que apareceu a Transfiguração da Romênia, mas muito embora ele ajude a compreender um pouco da reótica do livro, pouco contribui para explicar do que realmente se trata. Uma análise crítica do status da Romênia de uma “nação menor”, um longo, minucioso e impiedoso inventário das falhas nacionais, e uma proposta de reforma apresentada como uma “tentativa de colocar uma pedra na fundação de uma futura Romênia”, Transfiguração é em parte um ensaio filosófico, em parte um panfleto político, e em parte uma visão utópica. Porém, mais do que tudo, é o diário de uma crise de identidade, e a sua retórica violenta trai uma mente autoral em estado de ansiedade aguda, incansável, buscando, e desesperado para encontrar uma resposta ao seu questionamento obsessivo sobre o seu destino e o destino do seu país.

A “trama” central da Transfiguração é a busca quixotesca do jovem Cioran por uma identidade adequada, ou antes, por uma nação reformada que combinasse com a sua concepção ideal de si mesmo. Nele, o orgulho incomensurável luta com o seu auto-desprezo, o complexo de inferioridade obsessivo, a auto-consciência em relação a suas origens romenas, e ele preenche as páginas freneticamente com sonhos megalomaníacos e selvagens de uma Romênia “delirante”, “com a população da China e o destino da França.” No coração do livro está o grito de desespero de Cioran e o seu orgulho ferido: “Eu desejo outra nação!” A correlação entre ódio a si mesmo e orgulho desmesurado, característica deste texto cheio de juventude seria posteriormente reconsiderada por Cioran em um dos seus aforismos mais lapidares: “N’est pas humble celui qui se hait” [“Não é humilde aquele que se odeia”].

A Transfiguração da Romênia é, como o primeiro livro de Cioran, Nos Cumes do Desespero, o resultado de muitas noites de insônia. Cioran fala com a autoridade pessoal de quem “passou muitas noites a fio meditando sobre o destino da Romênia”. Este livro possui tanto a clareza especiosa e a intensidade pesadelesca daqueles pensamentos temíveis que nos assaltam nas primeiras horas da manhã. As perguntas que mantinham o jovem Cioran acordado eram questões que continuariam atormentando-o pelo resto de sua vida: quem sou eu? Que significa ser romeno? Ou, “como é possível ser romeno?”, conforme ele coloca anos depois em La tentation d’éxister, aludindo à pergunta de Montesquieu: “Como se pode ser persa?” A fina ironia da pergunta sublinha o absurdo, o caráter aberrante, de tudo o que é marginal quando visto do centro. A pergunta acertou como um espinho na carne de Cioran.

Na época em que escrevia Transfiguração da Romênia, no final de 1935 and começo de 1936, num estado de suspensão pessoal, o “hiato” entre os dois anos na Alemanha e a partida para a França, Cioran ainda não havia atingido a distância irônica de Montesquieu. “A ironia deriva de um apetite ingênuo, decepcionado, insaciável, e que, à força de fracassos, torna-se amargo e inflamado.”, escreveria muito depois. Mas o jovem Cioran ainda é ingênuo, esperançoso, ainda busca por uma resposta para o seu dilema insolúvel: como você pode ser romeno e ser você mesmo? Seu suplício havia apenas começado, e a Transfiguração da Romênia é um registro disso.

Alguém poderia se sentir naturalmente inclinado a perguntar: quem ele pensa que é? O que motiva esse orgulho excessivo? A Transfiguração da Romênia oferece uma resposta. O exacerbado senso de identidade (“sense of self”) de Cioran provém do seu senso de identidade enquanto escritor (“sense of himself-as-writer”). A criatividade para ele está inextricavelmente ligada ao eu soberano, no centro do universo, e daí para o orgulho incomensurável do criador:

O homem não pode criar a não ser na medida em que acredita ser o centro da história. Não me refiro aqui à cegueira do burguês, que vive como se ele fosse a únidca realidade, mas à grandeza do espírito que cresce a cada momento para o tamanho da eternidade. Se você não tem o sentimento de que tudo que te precede foi feito especialmente para você, e que você é uma encruzilhada única na história, se você não sente que a vida te quer e que o seu momento na história é absoluto, único e insubstituível, então você não passa de um inseto voando ao sol, um lampejo invisível, fogo fátuo. Você é um mundo em si mesmo apenas se o eixo deste mundo passar pelo meio do seu coração.

Soa como pura megalomania, mas é também admiravelmente corajoso, vindo de um homem tão inseguro em relação a suas origens, ainda que bastante convencido de sua inteligência e do seu potencial criativo.  A passagem acima revela uma forte tensão irônica entre suas ambições e sua real condição de marginalidade.

Cioran vive em dois mundos: um interior, a-histórico, em que ele (ou aquele que ele considera como o seu eu puro e profundo) é como um deus, se não Deus em pessoa; e um mundo exterior, histórico, no qual ele é um mendigo às margens da existência, e o seu eu oprimido e coitado, um mero acidente histórico. Em Transfiguração da Romênia os seus humores oscilam entre um senso se segurança proveniente de uma criatividade auto-centrada, e uma insegurança endêmica causada pela sua marginalidade auto-consciente. O drama pessoal de Cioran é o drama do criador ambicioso operando sob a maldição da marginalidade, escrevendo numa língua que ninguém conhece, debilitado por uma cultura da qual ninguém nunca ouviu falar.

A paixão pela Romênia não pode aceitar a sua condenação à mediocridade eterna. . .  A lucidez criminal a vê como um microcosmo desaparecendo, enquanto que a paixão a coloca no centro do coração, e assim no ritmo do mundo…  O orgulho de um homem nascido numa pequena cultura sempre será ferido. Não é fácil nascer num país de segunda categoria. A lucidez se torna tragédia. E se a nossa fúria messiânica não sufocar você, sua alma se afogará num oceano de desconsolo.

Ainda que a linguagem soe altamente generalizante, pode-se reconhecer claramente, nas últimas linhas, todo o acento pessoal e psicológico que vimos até aqui nas auto-descrições que Cioran faz, especialmente as oscilações entre a fúria e a epifania. Há a ferida no orgulho (o insulto de ser romeno) e aquilo que Cioran mais tarde chamaria “a ferida da vida” (o insulto metafísico de ter nascido, pura e simplesmente). Cioran se identifica com a sua nação, mas essa identificação é altamente instável e problemática, já que a Romênia é um país marginal, enquanto que a auto-percepção de Cioran é absolutamente centralizante e divinizante. Sua solução não é mudar a si mesmo, mas mudar – transfigurar – a sua nação.

A questão aparentemente paradoxal – “como é possível ser romeno e ser você mesmo?” – termina por modular-se na seguinte pergunta: “como se pode ser romeno e ainda assim ser criativo?” Tornar-se grande, bem-sucedido e criativo numa cultura insignificante e numa língua que ninguém conhece é, de fato, uma impossibilidade, uma contradição em termos, uma aberração. Ser romeno, portanto, representa para o jovem e ambicioso Cioran uma catástrofe de proporções cósmicas.

Mas Cioran cresceu na catástrofe e nas contradições. A “inconveniência” de ser romeno – que apenas tardiamente ele universalizou como o “inconveniente de ter nascido”— constitui a origem dos seus escritos. Cioran escreve sobre a Romênia porque não consegue separar o destino do seu país do seu próprio destino. No futuro da Romênia, a sua auto-percepção enquanto autor martirizado está em risco, mas é escrevendo sobre isso que ele alcançará, em última instância, a tão esperada separação. Então, ele escreve sobre a Romênia de modo a negá-la, e a sua auto-percepção enquanto escritor cresce, perversamente, a partir desta negação, desta tortura deliberadamente auto-infligida: um dilema que poderia facilmente ser interpretado em termos freudianos, sendo que a Romênia representaria, a uma só vez, o papel sufocador da mãe e da autoridade castradora do pai.

Por exemplo, no primeiro capítulo de Transfiguração da Romênia, “A tragédia das pequenas culturas”, ao discutir um dos temas centrais do livro, a saber, a dicotomia entre culturas grandes e pequenas, Cioran explica porque escolheu este tópico. Ele ressalta o ângulo subjetivo, a-científico, que adota sobre a questão das pequenas culturas e revela os perigos que corre numa tal discussão. Ele admite que está direta e apaixonadamente implicado nas questões que levanta, longe de ser um observador neutro. Ele deliberadamente escolhe enxergá-las não como um observador desapaixonado da história (até porque não acredita na existência de um tal observador), mas como um homem ressentido, que nascera “inconvenientemente” numa cultura pequena e insignificante, com a qual não pode conciliar-se. Eis aí, com efeito, a “inconveniência” que torna-o um autor, e que de imediato nos apresenta um retrato do escritor como um jovem homem ferido e torturado, dilacerado pela paixão negativa pela Romênia:

E no entanto, em última instância, para quem é dolorosa a questão das pequenas culturas? Certamente não para um historiador… É nos olhos do representante de uma pequena cultura que esta questão aparece sob uma luz subjetiva, e adquire uma vida própria que ultrapassa totalmente a esfera da objetividade histórica. Caso não tivéssemos um tão profundo sentimento em relação ao fenômeno que chamamos de Romênia, caso permanecêssemos objetivos em relação a ela, não nos importaria nem um pouco se teve ou não um papel na história. Então, o seu lugar junto a outras pequenas culturas teria parecido natural para nós, e o seu anonimato não nos teria afetado.

Cioran identifica aqui os dois extremos entre os quais ele encontra-se dividido no seu conflito irresoluto, que constituem os dois pólos da sua paixão negativa: por um lado, uma “paixão pela Romênia” (leia-se: paixão pelo eu) que irracionalmente “a posiciona no centro do mundo”, “com fúria messiânica” e “lucidez criminosa”, e, por outro lado, a condição de marginalidade, a consciência de não estar no centro, a partir da qual ele enxerga a Romênia (e a si mesmo) como “um microcosmo em extinção”, e que “afoga a sua alma num oceano de desconsolo.” O jovem autor admite que está direta e apaixonadamente implicado nas questões aparentemente generalizadas que ele coloca.

A óbvia contradição entre estes dois impulsos deve ter sido clara a Cioran, mas não era uma que poderia ser resolvida pelo simples senso comum: por exemplo, tornar-se mais nacionalistsa/patriótico, ou menos egoísta. Pelo contrário, para Cioran estes dois pólos de sua inspiração em Transfiguração da Romênia são exemplos claros do conceito de identidade negativa que Erik Erikson observou na auto-criação do jovem Martinho Lutero e, por implicação, em muitos casos análogos de individualismo criativo. A identidade negativa, na formulação de Erikson, é aquela identidade ou papel que um indivíduo foi alertado a evitar, uma auto-representação que é diametralmente oposta aos valores dominantes de sua criação, que não ele pode adotar senão de coração partido, mas que no entanto sente-se compelido a adotar, enquanto protesta do fundo do coração.

No póstumo Mon Pays (“Meu País”), cuja composição data provavelmente do começo dos anos 60, o francês Cioran saca da memória um retrato do jovem Cioran romeno. O reconhecimento, e mesmo a admiração pelo “louco selvagem” que ele fora um dia, é ali eclipsado por um senso de estranhamento. A distância temporal que separa os dois “eus”  é enfatizada, o jovem eu pode ser reconstruído apenas imaginativamente. Mas a paixão negativa do jovem homem pela Romênia é uma característica saliente que o tempo não apagou. É significativo que o velho Cioran francês ainda se lembra com vivacidade da ferida no orgulho de onde saiu a sua obra.

Eu havia escrito à época um livro sobre o meu país: pode muito bem ser que nenhuma outra pessoa tenha atacado o seu próprio país tão violentamente. Eram os desvarios de um louco selvagem. Mas em minhas negações havia tanto fogo que, com um distanciamento, posso apenas imaginá-lo como uma forma de amor ao contrário, idolatria ao avesso… Eu ansiava pelo inexorável. E, em certa medida, eu agradecia ao meu país por me proporcionar uma oportunidade tão maravilhosa de atormentar-me.  Aqueles foram os bons e velhos tempos: eu acreditava no prestígio das paixões infelizes. Eu amava o desafio, e o maior deles parecia ser aquele de ter nascido no meu país.

Cioran soa aqui, mais uma vez, como um personagem de Dostoievski. Ele cultiva o sofrimento e a infelicidade como as únicas estradas em direção ao autêntico “eu”. Como o homem do subsolo de Dostoievski, ele está mais vivo quando está mais sofrendo. E já que, como o mesmo personagem memorável, ele “acreditava no prestígio das paixões infelizes”, Cioran descobre, na sua pátria historicamente insignificante, uma “maravilhosa ocasião para o tormento”. Ele adquire consciência de si enquanto escritor, portanto, a partir de u ma perversa identidade com a nação que ama odiar; quanto mais identifica-se com as origens romenas, mais odeia a si mesmo. Ou, odeia tanto que o seu ódio torna-se “amor ao contrário, idolatria ao avesso”, penetrando como uma faca, impiedosamente, no seu orgulho ferido.

Assim, para escrever, Cioran necessita dessa ferida auto-infligida. Como notou Sorin Antohi, ao representar sua identidade romena como uma ferida, Cioran “oferece a imagem mais articulada da romenidade como um estigma… que cobre igualmente as marcas milagrosas de eleição divina (mediante a memória simbólica das chagas do Cristo), os atributos externos da doença e da deformidade, um signo seguro de justiça no corpo dos grandes delinqüentes, assim como o signo da reprovação pública contra pessoas que não se conformam à ‘normalidade’ específica de uma determinada comunidade.” Ou, novamente, em termos culturais mais amplos, podemos ver o mesmo padrão no jovem Lutero de Erikson, desta vez identificado por uma autoridade  histórica não menos importante que Kierkegaard: “uma paixão para expressar e descrever o próprio sofrimento”, criando um sentido de sofrimento aperfeiçoado sem necessidade de cura.

Extraído de: Searching for Cioran (Ilinca Zarifopol-Johnston)

Tradução do inglês: Rodrigo Menezes

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