Traduções de Cioran são relançadas no Brasil

por Alexandre Soares Carneiro
Professor Assistente-Doutor
Universidade Estadual de Campinas, Unicamp

Uniletras, Ponta Grossa, v. 33, n. 1, p. 191-196, jan./jun. 2011 | PDF

“Gosto de ler como lê um porteiro de edifício: identificar-me ao autor e ao livro. Qualquer outra atitude me faz pensar no dissecador de cadáveres.” A frase de Emil Cioran (Rasinari, Romênia, 1911 – Paris, França, 1995) sugere, senão um modelo de leitura, ao menos uma estratégia de liberação para a leitura. Ela indica, de toda forma, o contágio entre leitor e autor como disposição válida para a abordagem de sua própria obra, ou senão da porção mais importante dela, produzida em francês por este romeno transplantado para Paris à altura da II Guerra Mundial. Trata-se de aceitar sem pejo um convite à identifi cação que ali se refaz a cada momento, e tirar as consequências desta interpretação “selvagem”. Pois à parte o incômodo moral que seu pessimismo radical provoca, ou justamente ao tirar um partido inteligente dele, sua voz sedutora, pessoal e humorada promove um encontro dos mais estimulantes, numa espécie de cinismo festivo, de desespero tônico, que qualquer esforço de análise fria ou especializada viria comprometer.

No mesmo sentido, ganha-se bastante ao ler suas entrevistas, diários e cartas, pouco a pouco editados desde seu falecimento em 1995. Acaba de sair na França, por exemplo, parte de sua correspondência com o poeta suíço Armel Guerne (Lettres, 1961-1978, Paris, Ed. L’Herne, 2011), e pode-se prever a continuidade da publicação de seus “diários” (Cahiers, 1957-1972, Paris, Ed. Gallimard, 1997), agora que novos cadernos foram encontrados, de forma um pouco surpreendente – por uma nova moradora do antigo apartamento em que viveu. Suas entrevistas (Entretiens, Gallimard, 1995) nos oferecem lúcidos exercícios de autocompreensão de sua obra e de sua personalidade. Indagar-se sobre o homem que nesses textos se mostra de modo mais espontâneo é, além de satisfazer uma curiosidade legítima, um modo de apurar o ouvido e reorientar a percepção para o tom autoral das obras publicadas em vida. Desta forma se pode avaliar melhor a fi nura estilística e o humour que a marcam, diapasão particular em que se combinam uma consciência aguda tanto da língua como da existência (“Dever de lucidez: alcançar um desespero correto, uma ferocidade apolínea.” In: Silogismos da amargura. 2. ed. Tradução de José Thomaz Brum. Rio de Janeiro: Rocco, 2011. p. 27).

Ora, essas obras estão marcadas justamente pela experiência do registro de si, do exercício do autoconhecimento, como indicam alguns dos títulos relançados em tradução no Brasil: Breviário de decomposição (sua estreia em língua francesa, e que originalmente se chamaria Exercícios negativos), Silogismos da amargura, Exercícios de admiração. Ficção literária, está certo, mas alheia à artifi cialidade dos jogos intelectuais, e avessa às explicações indiretas, portanto nulas. “Os filósofos escrevem para os professores, os pensadores, para os escritores” (Écartelement).

Não obstante, foi na fi gura de um professor universitário que Cioran encontrou no Brasil seu tradutor ideal: José Thomaz Brum, da Universidade Católica do Rio de Janeiro, que na França se dedicou a aprofundar seus estudos sobre Schopenhauer e Nietzsche (matrizes importantes do pensamento de Cioran) sob a orientação de Clément Rosset, autor ele próprio de um interessante texto sobre o escritor romeno (“O descontentamento de Cioran”. In: Alegria: a força maior. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 2000). Mais do que isto, Brum teve a oportunidade de trabalhar diretamente com o autor em alguns dos textos e depois cartear com ele. Essas traduções surgiram pela primeira vez no Brasil justamente em um momento de redescoberta europeia de Cioran, que tem seu pico no final dos anos 1980. Hoje, no mundo todo, volta-se a falar de Cioran, mesmo na Universidade, em que pesem as resistências naturais contra este antigo simpatizante do nazismo, depois convertido em uma espécie de cético atormentado – em última instância um contentor de toda forma de crença; o que tampouco contribuirá para sua assimilação em um ambiente onde a religiosidade sobrevive entre tipos diversos de engajamento militante, ampliando para as humanidades, e para os estudos literários em particular, os tentáculos daquele maçante “império do bem” sobre o qual discorria há alguns anos o ensaísta francês Phillippe Murray.

Aproveitando a ocasião do centenário de nascimento daquele que lamentou o inconveniente de ter vindo ao mundo, a Editora Rocco, do Rio de Janeiro, relança agora essas traduções (infelizmente sem uma revisão editorial mais completa, para além da atualização ortográfi ca). Aqui e ali podem surgir dúvidas sobre as traduções de Brum, publicadas no Brasil a partir de 1988 (e praticamente esgotadas), mas elas são em geral precisas, e preservam na medida do possível a fluência e a sutileza de tom da língua original. Os quatro títulos relançados (além daqueles acima mencionados, reedita-se também o importante ensaio História e utopia) oferecem ao leitor local um roteiro que resume bastante bem o itinerário existencial e literário do emigrado romeno em Paris. Mesmo que representem uma parcela no fundo pequena da obra francesa de Cioran (prestes a ser nobilitada, no seu país de adoção – ou na língua que passou a habitar, como talvez preferisse –, pela Bibliothèque de la Pléiade, a famosa coleção da Gallimard), eles cobrem, em um arco de quase quatro décadas, os subgêneros principais deste tipo de prosa poética que o tornou conhecido.

Assim, o leitor brasileiro poderá começar pelo Breviário de decomposição, de 1949, sua primeira obra em francês, já o dissemos, que o projetou como um representante contemporâneo, com toques de existencialismo, da venerável tradição dos moralistes. O sucesso literário e o prestígio que este livro de ensaios curtos lhe garante de imediato não devem fazer esquecer o fiasco inicial de sua segunda obra francesa (Silogismos da amargura, de 1952), volume de aforismos e fragmentos filosóficos cuja reedição em formato pocket, em 1987, foi decisiva para a popularidade tardia do autor, angariada sobretudo entre os jovens (como explicará em carta ao tradutor que podemos ler na edição brasileira); popularidade que já desistira de buscar, e sobre cuja dupla face – as oportunidades do fracasso, os desconfortos do sucesso – continuamente refletirá.

História e utopia (1960) é um ensaio de maior fôlego, dividido em partes semiautônomas. O volume abre com a famosa “Carta a um amigo longínquo”, onde expõe magnifi camente, a um antigo camarada romeno (o filósofo Constantin Noica, 1909-1987), as complexidades de sua “conversão” ao francês, para depois abordar, por um viés ao mesmo tempo político e pessoal, seu distanciamento do país natal (então sob uma daquelas sombrias ditaduras da “Cortina de Ferro”), num confronto lúcido com as condições de vida encontradas em uma democracia ocidental; democracia que vê “extenuada”, e onde de boa vontade se acomoda à situação de apátrida. Leem-se como um desenvolvimento natural desta comunicação entre amigos as passagens que conduzem até a resenha, empreendida mais à frente, de uma produção que execra: a literatura utópica. O conjunto se apresenta como um esforço de compreensão dos impulsos profundos que trabalharam um século de cujas quimeras sangrentas o autor se vê condenado a se desgarrar, uma vez intuídas as camadas submersas de rancor que animaram o ideário-mestre dos grandes entusiasmos, pessoais e coletivos, que conhecera com intimidade.

Essa espécie de ascese individual – o exílio, o distanciamento da família e do passado, o desengajamento do presente, a desilusão com o futuro; o cultivo da solidão, da ociosidade, da obscuridade e ao mesmo tempo a autoimposição delirante (mas bem-sucedida!) de rivalizar com os clássicos franceses – recebe uma infl exão ainda mais generosa (pois a tradição utópica, apesar das propriedades eméticas da literatura a ela associada, acaba merecendo como que um reconhecimento paradoxal) nos seus Exercícios de admiração, de 1986, penúltima obra publicada em vida. Trata-se de um conjunto de “Ensaios e Perfi s” em que revê seus encontros pessoais e espirituais com escritores como Valéry, Weininger, Michaux, Fondane, Beckett, Ceronetti, entre outros. São textos cálidos, e ao mesmo tempo contidos, em que o autor se revela em suas meditações de leitor intuitivo, capaz de associações originais e julgamentos agudos. E é num brilhante texto sobre Borges que sua utopia pessoal é finalmente confessada: “uma humanidade sem dogmas e sem sistemas”, em que cada um tomasse como modelo o escritor argentino, “um dos espíritos menos pesados que já existiram, o ‘último dos delicados’” (Exercícios de admiração, tradução de José Thomaz Brum, p. 103,).

Será este Cioran ensaísta, em certos aspectos identificável a Borges, que certamente mais interesse despertará entre os amateurs da literatura que possam ter sobrevivido à atual avalanche do discurso teórico, e mantido algum sentido de orientação em meio à tagarelice midiática contemporânea. Porém, o autor talvez permaneça mais conhecido pelos adeptos do aforismo aparentemente fácil, cujo tom de desencanto nem sempre se compreende bem (isto é, para além da banalidade das “teses” apresentadas) quando não se captura sua vertente espiritual (Marc Fumaroli, “Cioran ou la spiritualité de la décadence”. In: Commentaire, vol. III, n. 11, p. 472, 1980) e mesmo mística; além, naturalmente, de seu caráter de “jogo de linguagem”.

Aludimos a algumas dúvidas a respeito das traduções para o português. São opções estilísticas ou vocabulares que suscitam algumas interrogações, apenas isto. De se lamentar são alguns erros editoriais, tanto mais por surgirem em passagens decisivas para a apreensão do signifi cado geral do pensamento do autor. Citemos alguns daqueles que pudemos localizar.

– No Breviário de decomposição, em um texto chamado “Adeus à filosofia”, esta disciplina é estigmatizada como mera “inquietude impessoal, refúgio nas ideias anêmicas […] recurso de todos os que se esquivam à exuberância corruptora da vida”. Na página 69 da edição brasileira o “impessoal” tornou-se “pessoal”, nítido descuido de revisão que enfraquece a alusão a este dever extremo de autenticidade que o escritor Cioran se esforçará por afirmar ao longo de sua produção;

– Na versão brasileira dos Silogismos da amargura, um fragmento de espírito semelhante – uma diatribe cética contra o Professor (“Nunca se criticará demasiado o século XIX por haver favorecido essa corja de glosadores, essas máquinas de ler, essa malformação do espírito que encarna o Professor…”) – é indevidamente separado do parágrafo que o complementa (o trecho que começa com a frase “Ver tudo do exterior, sistematizar o inefável, não olhar nada de frente, fazer o inventário da visão dos outros!” (Oeuvres, Gallimard, p. 751);

– Finalmente, no importante texto de autointerpretação redigido em 1978 para uma reedição da versão alemã do Breviário de decomposição (traduzida em 1953 por Paul Celan), e reproduzido nos Exercícios de admiração (“Relendo…”), Cioran volta a fazer considerações sobre a língua francesa, e a descreve, a certa altura, como “un exercice d’ascèse ou plutôt comme un mélange de camisole de force et de salon” (Oeuvres, Gallimard, p. 1630). Na página 129 da tradução brasileira a última expressão é vertida como “mescla de camisa de força e camisa social”, o que elimina a alusão a esta instituição francesa – o salão – historicamente decisiva para a constituição de um ideal “clássico” de língua, mito central de uma sociabilidade mundana intuída pelo autor como escola de ceticismo e espetáculo cultural de frivolidade e esprit – sem o qual não se entende sua devoção quase maniqueísta ao idioma de La Rochefoucauld e de Chamfort.

Não se trata de sonhar, como o próprio Cioran, “com um mundo onde se morresse por uma vírgula”, ou de pensar, também com ele, que devemos tudo corrigir, “até os soluços” (Silogismos da amargura); trata-se apenas de incitar um diálogo com os leitores levando em conta a importância dos cuidados com a escrita, a tradução e a edição. De toda forma, em um país em que os profi ssionais do livro, do ensino e da “pesquisa” às vezes se revelam estranhamente desprovidos da consciência das palavras, a tradução em geral bem cuidada de José Thomaz Brum e o empenho da Editora Rocco em reeditar este pensador e asceta do verbo que foi Cioran merecem, antes de mais nada, nosso reconhecimento.

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