“Esse maldito, esse esplêndido paraíso da infância…”, por Patrice Bollon (I)

É um clichê de biógrafo evocar, a propósito de um personagem, o “continente da infância”. A expressão convém, no entanto, maravilhosamente no caso de Cioran. Pois se existe nele uma “Rosebud” a explicar não tudo, mas o essencial, a formação do seu caráter e os grandes eixos de sua vida, não há dúvida de que devemos buscá-la em seus primeiros anos de vida.

Emil Cioran (que jamais teve os nomes Mihai ou Michel, salvo… para os dicionários) nasceu em 8 de abril de 1911 em Raşinari, um grande vilarejo de camponeses, lenhadores e pastores, situado a doze quilômetros a sudoeste de Subiu, no rodapé dos Alpes transilvanos, na parte meridional do vasto arco de um círculo desenhado pelos Cárpatos. Emilian, seu pai, um homem íntegro e de expressão severa, sublinhada por um fino colar de barba bem cuidada que manifesta significativamente em todos os retratos que se tem dele uma expressão um pouco ausente, com se sua autoridade fosse inquestionável, é o padre local. Seu próprio pai, Şerban, aí ocupou antes dele a função de economista da comunidade ortodoxa, encarregado de administrar o estado civil-religioso de seus membros, de gerar, além daqueles próprios à igreja, os bens comuns e de organizar em caso de necessidade a solidariedade entre eles. Sem pertencer à hierarquia religiosa ainda que comprometido com um dever de piedade, Şerban, o avô de Cioran, era portanto já um funcionário que, sabendo ler e escrever perfeitamente, cumpria um papel informal bastante importante em Raşinari. Uma vez que os aldeões eram em sua grande maioria, apesar da presença de uma igreja unitarista romena, ortodoxos orientais, ele fazia o papel de representante oficial face à administração húngara. Pois, do mesmo modo que  o catolicismo fornecia na França pré-Revolução o quadro de primeira organização social de proximidade, a Igreja ortodoxa e suas engrenagens anexas estruturavam na Transilvânia e na Bucovina as populações de origem romena, majoritárias na maior parte das vilas, e faziam a intermediação entre elas e os funcionários encarregados por Budapeste ou por Viena, que em geral não falavam uma palavra em romeno e inclusive se recusavam a tal.

Que o seu filho Emilian tenha se tornado pope representava ademais para Şerban um grande motivo de contentamento. Do poder temporal a família passava assim ao mais alto dos cargos, aquele das almas – o que significava também uma promoção intelectual considerável. Escolhido entre a parte mais educada da população e constituindo, pois, num sistema colonizador particularmente fechado uma das raras profissões disponíveis a seus letrados, o clero ortodoxo formava então a intelligentsia da “minoria” romena, essencialmente rural, da Transilvânia. Muitos popes eram apenas, contudo, relativamente “religiosos”. Cioran pôde assim dizer a propósito de seu pai que se ele tinha fé, esta não derivava de modo algum de um engajamento “fanático”, e que ele considerava o sacerdócio como “un métier”.

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A mãe de Cioran, Elvira, nascida Comaniciu, é proveniente de um meio quase idêntico, sem dúvida um pouco superior socialmente, mas civil. Vinda de Veneţia de Jos, um pequeno vilarejo do massivo de Fagaraş, entre Sibiu e Braşov, ela é a filha do notário público do cantão, Gheorghe Comaniciu, que a administração de Budapeste, fiel a sua política de “magiarização”, de assimilação das elites locais (transformava-se em geral, assim, nessa ocasião, os nomes próprios de origem latina por patrônimos de consonância húngara), tinha elevado à dignidade de barão. Tendo ambos estudo numa escola húngara, os pais de Cioran falavam frequentemente, ademais, essa língua entre eles em casa, usando o romeno para seus contatos cotidianos com os aldeões e na educação das crianças.

Ainda que Cioran pudesse às vezes se atribuir por tal razão uma vaga “ascendência húngara”, suas duas famílias, tanto a paterna quanto a materna, parecem não obstante, sem dúvida nenhuma, pertencer ao mais profundo povoamento romeno da Transilvânia. Uma origem que confirma aparentemente o caráter eminentemente latino dos ambos os patronímicos é o fato de que, segundo a historiografia local, Raşinari, vilarejo quase cem por cento romeno e do qual se encontra a primeira menção histórica em um documento de 1204, teria sido fundada pelos Hunos durante o reinado de Atila, no começo do século V. Tratava-se então de uma zona de povoamento autóctone muito antiga, não havia sido afetada pela mistura de populações de vilarejos como Sibiu, onde coexistiam alemães, húngaros e romenos, e que era tida por um dos bastiões da consciência nacional romena na região. O pai de Cioran não fazia, aliás, nenhum mistério do seu nacionalismo. Os nomes ultrajantemente latinos dos seus três filhos – Virginia, chamada de “Gica”, a mais velha, nascida em 1908, Emil e Aurel, o caçula, de 1913 – atestam suas convicções. E, durante a Primeira Guerra mundial, os húngaros deportariam Emilian preventivamente por essa razão a Sopron, na extremidade oriental da Hungria, na fronteira com a Áustria, onde permaneceu encarcerado até 1918.

Para melhor compreender as origens de Cioran e o que ele deveria a elas posteriormente, é preciso ademais voltar-nos brevemente à história extremamente complicada e, em diversos pontos, ainda misteriosa dessa região. Teriam sido os húngaros católicos os primeiros ocupantes organizados da Transilvânia, segundo a etimologia o “país para além das florestas” – uma região virgem ou quase, antes de seu estabelecimento em Panônia ao fim do século IX? Ou teriam eles a anexado em detrimento de um povoamento anterior muito mais antigo, de língua romena, herdeiros dos Dácios ou “Getas”, como os chamavam os gregos da Antiguidade, e outros Trácios de antes da colonização romana de Trajano no começo do século II a.C.?

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Profundamente romanizados, sendo na verdade um com seus antigos mestres, os ancestrais dos romenos atuais teriam recuado com as legiões romanas, após Aureliano ter ordenado a estas para evacuar totalmente a Dácia em direção à Valáquia, a planície situada entre os Cárpatos orientais e o Danúbio onde se encontra atualmente Bucareste? Teriam eles lá vivido durante vários séculos, fundindo-se progressivamente com os povos eslavos? Então, desde lá, teriam eles retornado à Transilvânia, mas – o que é a tese húngara – apenas depois que esta havia passado definitivamente, no começo do século XII, ao controle da Coroa de Saint-Etienne? Ou então, ao contrário – tese romena –, teriam eles permanecido todo esse tempo na Transilvânia, mas no interior do país, vivendo em pequenas comunidades rurais autárquicas prudentemente situadas nas montanhas circundantes, notadamente nos Cárpatos meridionais de onde haviam saído, como vimos, as famílias Cioran e Comaniciu? Protegendo-se assim contras as inúmeras invasões, dos Gépidas, dos Hunos, dos Ávaros, dos Búlgaros, dos Pechenegues e dos Kiptchaks, entre outros, aos quais essa religião de passagem por excelência havia sido sucessivamente submetida, teriam eles se contentado em deixar passar a tempestade, para descer novamente aos vales, uma vez a situação tendo sido pacificada pelos húngaros? A resposta a essa questões vitais – pois elas não levantam nada menos que o espinhoso problema da “propriedade” da região – permanece, e sem dúvida permanecerá para sempre, no domínio das conjecturas, oferecendo assim tanto aos romenos quanto aos húngaros a latitude de reivindicar como historicamente sua a Transilvânia.

Ao mesmo tempo que os húngaros, instalam-se na Transilvânia no século XII os francos da Mosela, da Renânia e do Luxemburgo, assim como os Saxões do Hanôver, encarregados pelo imperador da Alemanha de se apropriar das terras e de fundar colônias aptas a defender as fronteiras sul-orientais da “civilização” contra as incursões bárbaras vindas da Ásia central. Daí nascem as cidades de Braşov, Sibiu, Cluj e Sighişoara, que eram no início cidades fortificadas, nomeadas respectivamente Kronstadt, a “cidade da Coroa”, Hermannsdorf e em seguida Hermannstadt, Klausenburg e Schlossburg, a “cidade do castelo”. Desde então, ou seja, seja enquanto parte integrante do reino magiar, estado vassalo de Solimão, o Magnífico, principado semi-independente que praticava um jogo de equilíbrio sutil entre os Habsburgo e os Otomanos, ou simplesmente enquanto possessão austríaca, a Transilvânia havia sido de fato administrada pelos húngaros, que sempre trataram os romenos como cidadãos de segunda classe, ou antes, como se eles não existissem, pura e simplesmente.

(“Ce maudit, ce splendide paradis d’enfance”, in: Cioran l’hérétique, de Patrice Bollon)

Tradução: Rodrigo Menezes

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