A frivolidade de um apóstolo da desilusão

Cioran une petulância e melancolia nos textos de “Exercícios de Admiração”, que analisa autores como Valéry e Beckett

Caderno Mais!, Folha de São Paulo, 26 de novembro de 2000 [original]

Marcelo Coelho, do Conselho Editorial

Em qualquer tempo e em qualquer lugar há motivos de sobra para o pessimismo. Existem épocas, entretanto, em que essa atitude se torna especialmente charmosa e original. A primeira edição brasileira dessa coletânea de ensaios data de 1988. Um ano antes da queda do Muro de Berlim, já era grande a tendência para julgar as idéias socialistas e as esperanças de redenção social da humanidade como algo absolutamente fora de moda. A obra do pensador romeno de expressão francesa Emil Cioran (1911-1995) ia-se divulgando com sucesso no Brasil: “Breviário de Decomposição” e “Silogismos da Amargura” (ambos pela ed. Rocco), seus dois mais conhecidos livros de aforismos, seguiram-se com rapidez a estes “Exercícios de Admiração”. A concisão do estilo, a convicção anti-utópica, uma certa mistura de petulância e melancolia, uma versão estranhamente inquieta e vibrátil do tédio clássico, tudo ajudava a tornar “cult” um autor que sempre pareceu gostar de ser antipático, flertar com a impopularidade. O primeiro, e mais longo, texto de “Exercícios de Admiração” analisa a obra de Joseph de Maistre (1753-1821), o arqui-reacionário apologeta do papado e da Inquisição. Cioran não esconde muito sua inveja diante do talento provocador desse “espírito desmedido que, não se dignando a convencer o adversário, aniquila-o logo de saída pelo adjetivo”. Para Cioran, não se trata de fazer a defesa do extremismo católico de direita, mas de ressaltar as analogias entre esse tipo de pensamento e as idéias marxistas. Aquilo que, em autores como De Maistre ou Bossuet, era fruto da “providência divina”, se tornou, na esquerda, determinismo histórico, fatalidade da revolução proletária.

Talento aforístico
A direita autoritária defende a ordem, a repressão, o caráter “sagrado” da violência de Estado. Mas, observa Cioran, “os “democratas” se escandalizam com isso, percebendo que a “reação” traduz muitas vezes suas segundas intenções e dá expressão a algumas de suas desilusões secretas, a muitas certezas amargas que não podem assumir publicamente. Acossados por seu programa “generoso”, não lhes será permitido demonstrar o menor desprezo pelo “povo” e nem mesmo pela natureza humana (…) O desespero do homem de esquerda é combater em nome de princípios que lhe proíbem o cinismo”. A última frase é exemplo do talento aforístico de Cioran e do tom quase triunfalista que ele assume quando chega a alguma conclusão sombria. Não sei até que ponto, passados 12 anos da primeira edição brasileira e mais de 40 depois de o texto ter sido escrito, se mantém o efeito de provocação pretendido por Cioran. Parte disso certamente se perdeu. Alguns trechos resvalam na banalidade: “Não há anarquista que não esconda, no mais fundo de suas revoltas, um reacionário que espera sua hora, a hora da tomada do poder (…)”. O ensaio seguinte busca o escândalo com mais sucesso, mas num âmbito de menor amplitude. É o poeta Paul Valéry (1871-1945) que se vê objeto de uma análise desapiedada, ao mesmo tempo certeira e injusta, por parte de Cioran. “O culto de Valéry pelo rigor”, diz Cioran, “não vai além da propriedade dos termos e do empenho consciente por um brilho abstrato da frase (…); essa vontade de expressão levada a tais extremos (…) se transforma em obstinação por bagatelas, em procura exaustiva da precisão infinitesimal”. Criticando as ilusões da metafísica, Valéry não poderia ir longe demais; “uma desilusão completa teria destruído nele não apenas o “homem de pensamento”, como ele se chamava às vezes, mas, perda mais grave, o prestidigitador, o histrião do vocábulo.”

Histrionismo
Nesse brilhante exercício de antipatia, bem mais do que de admiração, podemos ver, quem sabe, o fantasma contra o qual Cioran está lutando sem cessar. Provavelmente Valéry, se se desiludisse completamente, perderia mesmo seu “charlatanismo” (o termo é de Claudel, que Cioran cita com aprovação), seu lado de “histrião do vocábulo”. Mas a frase denuncia, nesse apóstolo da desilusão completa que é Cioran, o quanto essa atitude também pode ter de histriônica; um histrionismo de idéias, uma espécie de coqueteria do desespero, de frivolidade abissal.
O azedume de Cioran se ameniza no belo estudo sobre outro poeta, Saint-John Perse, e nas amáveis reminiscências que faz de Beckett, Mircea Eliade ou Henri Michaux. Mas, certamente, o melhor de Cioran está nas suas páginas mais ácidas e depreciativas.
A antipatia do autor, de certo modo, contaminou esta resenha. É sempre mais interessante falar mal do que falar bem de alguma pessoa; mesmo que para isso seja necessário reduzi-la às nossas próprias dimensões. Miniaturizar o adversário, marcar de um traço seus defeitos, muitas vezes dá a impressão de que se está escrevendo com muita precisão.

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