Livro de Mircea Eliade traz concepção mitológica da história

Manuel da Costa Pinto – Folha de São Paulo, 10/02/2012 [original]

Historiador das religiões, Mircea Eliade (1907-1986) formou, com o “dramaturgo do absurdo” Eugène Ionesco e com o filósofo Emil Cioran, um célebre trio de intelectuais romenos radicado em Paris por volta da Segunda Guerra Mundial.

Com este último, ele compartilhou um passado nebuloso de simpatias pela Guarda de Ferro (grupo de extrema direita que chegou ao poder na Romênia em 1940). Mas, se a “conversão linguística” de Cioran ao francês marcou um momento de ceticismo e ironia em relação à mística nacionalista, Eliade conservou um fascínio pelo tempo circular das narrativas mitológicas, que se projeta não apenas sobre os estudos de religião comparada, mas também sobre parte menos conhecida de sua obra: a ficção.

Ilustração de Santiago Caruso para o romance gótico ‘Senhorita Christina’, do escritor romeno Mircea Eliade

“Senhorita Christina” parece, à primeira vista, um romance gótico. Afinal, a personagem que dá título a esse livro de 1936 é uma vampira ou morta-viva (segundo as possíveis versões do termo “strigoi” arroladas pelo tradutor Fernando Klabin) e sua trama inicial lembra “Drácula”, do irlandês Bram Stoker (baseado no folclore romeno).

Dois homens cultos e cosmopolitas -o pintor Ígor e o arqueólogo Nazarie- vão para a província, onde entram em contato com uma nobreza decadente e assolada por lendas populares. Enquanto o primeiro se apaixona pela filha de uma proprietária local, o segundo detecta em ambas os sinais perturbadores de um enfraquecimento que sugere vampirismo.

É o suficiente para que o fantasma de Christina (assassinada por capataz cúmplice de suas crueldades contra os camponeses e ciumento de sua devassidão) reapareça animado pela sobrinha caçula, que, aos nove anos, é dotada de demoníaca malícia.

Em nenhum momento descobrimos se os presságios e os pesadelos dos personagens masculinos são fenômeno sobrenatural ou efeito mórbido do erotismo feminino. Mas essa ambiguidade vai além da psicologia do romance gótico. Na mitologia literária de Eliade, não há lugar para os delírios do racionalismo burguês: os mortos-vivos eternizam as relações históricas entre os senhores e as hordas de camponeses, seus rituais vampirescos de exploração e massacre.

SENHORITA CHRISTINA
Autor: Mircea Eliade
Tradução: Fernando Klabin
Ilustrações: Santiago Caruso
Editora: Tordesilhas (184 págs., R$ 69,90)

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