O segundo nascimento de Cioran

Primeiro livro em francês e “História e Utopia” celebram centenário do pensador romeno

Manuel da Costa Pinto – Fique em Casa, Folha de São Paulo, 29/05/2011

http://www1.folha.uol.com.br/revista/saopaulo/sp2905201144.htm

O dia 8 de abril marcou os cem anos de nascimento de Emil Cioran. Os dois relançamentos que comemoram a data, porém, sugerem que o filósofo romeno, morto em 1995, teve um segundo nascimento, ao trocar a língua materna pelo idioma do qual costuma ser traduzido.

“Breviário de Decomposição”, de 1949, foi seu primeiro livro escrito em francês e o fato de ter recebido o prêmio Rivarol por esse ensaio de metafísica negativa, que degrada as pretensões de nosso ser destinado ao nada, poderia ser interpretado como tentativa bem-sucedida de ultrapassar o exílio linguístico do romeno.

Mais tarde, porém, em “História e Utopia” (1960), ele lamenta a camisa de força representada por esse “idioma emprestado, com todas as suas palavras pensadas e repensadas, refinadas, sutis até a inexistência, transtornadas pelos rigores da nuança, inexpressivas por haver exprimido tudo, de precisão assustadora, carregadas de fadiga e pudor, discretas até na vulgaridade”.

É sintomático que, num livro que identifica a pulsão destrutiva das utopias políticas, ele sinta nostalgia do “vestígio de terra, de sangue, de alma” associada ao romeno -mas persista na “elegância extenuada” e na “dignidade cadavérica” da sintaxe francesa.

De certo modo, Cioran realizou a passagem de uma língua de cultura para uma língua de civilização (conforme a dicotomia do sociólogo Norbert Elias). Ou seja, abandonou a busca por uma autenticidade vital, baseada em atavismos culturais, e passou a cultivar o espírito de ironia, a desconstrução racionalista de ímpetos irracionalistas e furores místicos.

Por trás dessa conversão paira a sombra de sua fase romena, em que comungou ideologias de extrema direita e chegou a expressar admiração por Hitler, como revelado pelo biógrafo Patrice Bollon em “Cioran, o Herético”.

O violento ceticismo de Cioran é uma purgação de culpa; seu cinismo, um mecanismo de resistência às tentações totalitárias. Ao adotar o artificialismo de uma língua que representa o processo civilizatório, Cioran transformou utopias de pureza em pura negatividade.

Daí o sarcástico bilhete que enviou a seu editor francês, sobre o interesse de uma universidade americana em comprar exemplares de “Breviário de Decomposição”: “Não seria uma pena perder tão bela oportunidade de perverter a juventude ianque?”

HISTÓRIA E UTOPIA ****
(128 págs., R$ 20)

BREVIÁRIO DE DECOMPOSIÇÃO ***
(224 págs., R$ 30)
AUTOR: Emil Cioran
TRADUÇÃO: José Thomaz Brum
EDITORA: Rocco

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