Resenha: “Nos Cumes do Desespero”

Por Rodrigo Menezes
(Doutorando em Filosofia pela PUC-SP)

É evidente que, diante de questões puramente formais, por mais difíceis que sejam, não se pode exigir uma seriedade infinita, pois elas são exclusivamente produzidas por incertezas da inteligência, sem despontar da estrutura orgânica total do nosso ser. Só o pensador orgânico e existencial é capaz desse tipo de seriedade, pois só para ele as verdades são vivas, frutos mais de uma tortura íntima e de uma afecção orgânica que de uma especulação inútil e gratuita. Diante do homem abstrato, que pensa pelo prazer de pensar, surge o homem orgânico, que pensa sob a determinação de um desequilíbrio vital que está além da ciência e além da arte. (Emil Cioran, Nos Cumes do Desespero, trad. de Fernando Klabin, Hedra, 2012)

A editora Hedra lançou, este ano, Nos Cumes do Desespero, de Emil Cioran (1911-1995). A passagem do livro ilustra bem aquela que será, desde este primeiro até o último o livro (“Aveux et Anathèmes”, escrito em francês e publicado em 1987, na França, aonde se mudaria em 1937), a divisa existencial e filósófica de Cioran, escritor romeno exilado em Paris que se tornou conhecido por seus livros franceses de aforismos e ensaios.

Nos Cumes do Desespero (Pe Culmile Disperǎrii, 1934) é o primeiro destes livros, escrito ainda em romeno por um jovem estudante de filosofia devastado pela insônia. É a partir desta experiência, com efeito, que Cioran dará “Adeus à Filosofia” (conforme o aforismo de um de seus livros franceses): mais precisamente, à filosofia acadêmica, profissional, “séria”, com seu universo abstrato de conceitos e sistemas; é em meio às horas intermináveis das noites de insônia que Cioran assumirá, também, a postura do “pensador orgânico e existencial”, que muito se assemelha ao “homem de carne e osso” de Miguel de Unamuno (O Sentimento Trágico da Vida), uma das leituras do jovem insone.

Influenciado pela filosofia vitalista alemã do final do século XIX, com todo o seu antirracionalismo, e marcado por um lirismo místico transbordante, Nos Cumes do Desespero é o testemunho de um espírito ao mesmo tempo condenado e liberto pelos efeitos clarividentes das noites em branco. O livro é um confronto consigo mesmo, uma forma de exorcizar os demônios que o atormentam em suas vigílias. “Uma espécie de liberação, de explosão salutar. Se eu não o tivesse escrito, teria seguramente posto um término às minhas noites”:

“Eu errava durante horas pelas ruas como uma espécie de fantasma, e tudo o que escrevi posteriormente foi elaborado naquelas noites. Meu primeiro livro, Pe Culmile Disperării, remonta a essa época. É um livro que escrevi aos vinte e dois anos, como uma espécie de testamento, pois eu pensava que depois me suicidaria. Mas sobrevivi”. (Entrevistas)

Segundo o filósofo José Thomaz Brum (PUC-RJ), tradutor dos livros franceses de Cioran no Brasil, “Nos Cumes do Desespero revela a notável continuidade do pensamento de Emil Cioran”. Continuidade esta que se mostra na recorrência de temas e obsessões aos quais o autor retorna de livro em livro (seja em francês ou em romeno), como se fossem variações sobre o(s) mesmo(s) tema(s): a morte, o sofrimento, a solidão, a loucura, o tédio, o amor, o absurdo, a música, o êxtase, entre  outros. Entre Nos Cumes do Desespero e o Breviário de Decomposição (o primeiro em romeno e o primeiro em francês), por exemplo, há muitas ressonâncias e continuidades e, ao mesmo tempo, rupturas e diferenças significativas. De fato, há um divisor de águas na obra de Emil Cioran, a saber, sua conversão ao francês como idioma oficial de expressão, após 10 anos residindo em Paris e ainda escrevendo na língua materna. O câmbio de idioma lhe deverá impor toda uma reconfiguração interior,  uma reformulação radical das ideias e dos sentimentos que habitam seu espírito.

Curiosidade: o título do livro teria sido inspirado nas manchetes de jornais sensacionalistas da época, que anunciavam que “fulano se suicidou nos cumes do desespero” — além de fazer notar a influência da filosofia de Kierkegaard, o autor de Desespero, a doença mortal, no pensamento de Cioran. Enfim, este é um livro desesperadamente sincero, apaixonado e visceral, um manancial lírico e explosivo de contradições, tormentos, paradoxos e êxtases. O testemunho de um espírito alçado aos cumes do desespero, de onde não poderia retornar o mesmo. Aqui, as noites de vigília dão o tom, o que repercutirá, ademais, até o último dos seus livros na forma de uma lucidez implacável que impõe como problemas filosóficos capitais estas duas perguntas: “Como suportar a vida?” E “como suportar a si mesmo”? À seriedade da filosofia, Cioran opõe a “seriedade infinita” daquele que se volta aos próprios abismos para aí meditar sobre o Insolúvel.

Filosofia? Literatura? A verdade é que parece impossível, a rigor, classificar a natureza da obra cioraniana sob alguma categoria discursiva pré-estabelecida. Demasiado poeta para ser filósofo, demasiado filósofo para ser poeta, Cioran depurou suas contradições até a exaustão, aspirando a uma só coisa: “Não fazer distinção entre o drama da carne e o drama do intelecto. Haver introduzido o sangue na lógica…”

(Emil Cioran faleceu em Paris, em 1995, acometido de Alzheimer. Um destino irônico, em se tratando de um autor que viveu denunciando a maldição da consciência e exaltando as virtudes do esquecimento. Na França, escreveu livros como Précis de Decomposition (“Breviário de Decomposição”), Syllogismes de l’Amertume (“Silogismos da Amargura”), Histoire et Utopie (“História e Utopia”), La Chute dans le Temps, Le Mauvais Demiurge e De l’Inconvenient d’Être Né. No Brasil, estão publicados 5 livros seus (4 deles pela Rocco), incluindo a mais recente edição deste Nos Cumes do Desespero, lançado em 2012 pela Hedra, com tradução direta do romeno de Fernando Klabin.)

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