Nos cumes do desespero (resenha)

Blog Meia Palavra

Há um tipo de prática da filosofia que, na saturação de uma história de sistemas, polêmicas e disputas por versões universais da verdade, acaba salvando-se pelo deslizamento para um texto que poderíamos chamar de lírico. Foi esse o caminho percorrido por Schopenhauer, Nietzsche e também pelo romeno Emil Cioran (1911-1995), claro herdeiro dos outros dois, do qual agora recebemos a tradução direta de seu primeiro livro, Nos cumes do desespero, graças aos esforços de Fernando Klabin e da Editora Hedra. Deveríamos levar esse lirismo a sério, e não apenas como sinônimo de uma escrita baseada em “impressões”, mais “literária” ou “poética” – qualitativos que não querem dizer muita coisa. Ao menos nesse contexto. Como na definição clássica, a lírica está ligada à demonstração de um sentimento pessoal, premissa que atingirá uma hipérbole com o romantismo europeu, com a defesa de um “eu” na busca de uma enunciação expressiva máxima, e passará para uma curva descendente com a modernidade, estatelando-se contra o muro de pedra que irá se interpor a partir dos desastres das Grandes Guerras, depois do que, ao menos na Europa (o restante do mundo conheceu isso muito antes, ou mesmo nunca teve a oportunidade de conhecer outra coisa), fica patente que nem tudo pode ser posto em palavras e que o indivíduo já não é mais uma unidade possível a não ser como fantoche (o fantoche que aceitamos hoje como modelo). É entre esses dois momentos de massacre que Cioran, aos 22 anos, recém-formado em Filosofia pela Universidade de Bucareste e recém iniciado no hábito de detestar qualquer instituição de pensamento, escreve este seu début. Como os seus precursores, introduziu justamente esse “eu” que antes estava elíptico nos textos filosóficos – apenas para se debruçar sobre ele e vê-lo como um objeto em ruínas, ou melhor, uma ilusão que nunca consistiu em uma unidade.

Pode parecer paradoxal, mas o fato de que esses pensadores anti-sistemáticos tenham que passar por esse lirismo, apenas para quebrá-lo, apresenta talvez o maior indício da dependência da filosofia tradicional desse “eu” silencioso, mas absolutamente seguro, fora do palco da página e da letra. Aqui é a insegurança que vem, e que conhecemos pelo nome de loucura. Dirá Cioran:

Tornamo-nos líricos apenas em razão de uma lesão orgânica e total. A fonte do lirismo acidental está nas causas externas; uma vez desaparecidas, desaparece também, implicitamente, seu correspondente interior. Não há lirismo autêntico sem um grão de loucura interior. […] A loucura poderia constituir um paroxismo do lírico. Por isso nos contentamos em escrever o elogio do lirismo para não escrever um elogio da loucura. O estado lírico é um estado que transcende formas e sistemas […] Diante do refinamento de uma cultura aprisionada em formas e limites que mascaram tudo, o lirismo é uma expressão bárbara. Eis de fato o seu valor, o de ser bárbaro, ou seja, de ser só sangue, sinceridade e chamas (p.19).

Por onde então Cioran verá esse indivíduo ruir? Pela insônia, pela pura falta de sono que o acomete por esses anos e que o levará a pensar em publicar esse Nos cumes do desespero como a confissão póstuma de um suicida – o que já indica porque, por vezes, o livro se põe num lugar marginal, entre a confissão e a ficção. Aliás, essa é a definição da insônia: quando tais divisões já não existem mais, exibindo todas as fraturas do ser. Por isso ela é uma “lucidez vertiginosa”, capaz de transformar “o paraíso num centro de tortura”.

Na falta do sono, Cioran encontrará um pessimismo extremo, uma incapacidade de esquecer o crime da vida, que irá ecoar sempre o comentário de sua mãe: “Se soubesse que você seria tão infeliz, eu o teria abortado”. Irá negar toda a ilusão vital – do amor à própria noção de verdade e de História (palavra que odeia terrivelmente) – abraçando a aceitação do Vazio e do Caos como únicas fontes de felicidade. Fará isso sem abdicar da autoironia e do humor, algo que foi destacado por um ensaio do argentino Jorge Luis Borges, intitulado O último delicado. Anos mais tarde, irá dizer que a afirmação de sua mãe trouxe-lhe uma espécie de liberdade paradoxal, já que, se seu nascimento e sobrevivência foram obras do acaso, então não seria necessário levar nada tão a sério.

Mais pessoal que Breviário da decomposição e Silogismos da amargura, seus grandes livros posteriores (que escreveria em francês, depois de se instalar nesse país em 1937), Nos cumes do desespero é também seu livro mais propenso a um relato de época, sem que mencione “época” alguma. É no próprio falecimento do “eu” que o seu tempo (o tempo da existência, quando se acreditava em tal coisa) cai como uma guilhotina sombria sobre a filosofia e sobre a linguagem.

Nos cumes do desespero
Tradução de Fernando Klabin
154 páginas
Preço Sugerido: R$ 38,00

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