Uma Romênia invisível

Publicado na plataforma Brazilia-Romania

Ignorada ou mal compreendida pelos demais, a vida destas nações é ainda mais intensa. Sua história, além de ser trágica, está como que transfigurada, poderíamos dizer, por uma permanente presença divina. Estes povos não conhecem o repouso, a serenidade, a alegria de criar no tempo. Constantemente atacados, só podem pensar em se defender. Sua história é mais que uma série de lutas pela independência ou pela honra: é uma guerra contínua, que dura séculos, pela própria existência. Em cada uma de suas batalhas, arriscam tudo: o direito à vida, sua religião, sua língua, sua cultura.[1]

Apaixonei-me pela Romênia fortuitamente, graças a um de seus célebres representantes, Emil Cioran. Nunca estive na Romênia, estou longe de ser fluente no idioma, e só conheço o país e sua cultura através de livros, filmes, música, pessoas que tive a oportunidade de conhecer. No entanto, apaixonei-me. Foi um amor que amadureceu aos poucos, não foi à primeira vista. Passei a me interessar pela Romênia conforme fui me apaixonando pela obra de Cioran – um autor que descobri através de seus livros escritos em francês – e descobrindo que ela estava intimamente ligada ao seu passado no enigmático país do Leste europeu de onde ele vinha. Emil Cioran: um romeno e, ainda por cima, da Transilvânia – região conhecida no Ocidente pela lenda do Conde Drácula, e que inspira no imaginário ocidental uma atmosfera sombria de florestas densas habitadas por seres mágicos e mistérios insondáveis.

As circunstâncias do meu encontro com Cioran também foram fortuitas: em 2003, ao ler a epígrafe de um livro sobre Pascal, chamou a minha atenção a grafia exótica (para mim) do sobrenome do autor, uma palavra de sonoridade agradável composta de 6 letras: C-I-O-R-A-N. Seu comentário sobre Pascal, somado à minha curiosidade, ao meu interesse em saber quem era aquele tal de “Cioran”, levaram-me ao encontro do Précis de Decomposition, traduzido no Brasil por José Thomaz Brum (1995).

Minha paixão por Cioran tornou-se ao mesmo tempo uma paixão pelo seu país. Para além dele, tudo o que vinha da Romênia passou a me interessar e, assim, fui aprendendo um pouco sobre a cultura e a história desse fascinante país. Porém, devo confessar que minha visão da Romênia sempre esteve (e ainda deve estar) muito influenciada pelo retrato que o meu romeno favorito pintou dela: uma nação cujo povo desenvolveu sua profundidade, sua fecundidade espiritual graças às derrotas e fracassos sofridos ao longo da história, que não teria sido nunca muito favorável aos romenos.

No começo, com a minha imaginação fértil e ao mesmo tempo limitada, era difícil imaginar o povo romeno. Para mim, Cioran era o arquétipo do romeno. Mas, ainda que ele carregue traços tipicamente romenos, como não poderia deixar de ser (ainda que no seu caso, devido à sua personalidade, eles possam se manifestar de maneira exagerada e mesmo distorcida), eu sabia que não podia generalizar, ainda mais em se tratando de um espírito idiossincrático como ele.

Imagino uma Romênia transbordante de espiritualidade, para além do cristianismo ortodoxo que é a sua religião oficial. Uma Romênia permeada de heresias e crenças populares subversivas, atravessada por um elã místico que remonta aos primórdios dos tempos – um país em que a ortodoxia encontra o bogomilismo. Uma Romênia cuja riqueza reside em sua fragmentação, em sua multiplicidade: um ponto de intersecção de povos e culturas tão antagônicos que o amálgama criado a partir desse encontro parece engendrar uma espiritualidade abismal e explosiva.

De acordo com Vasilica Cotofleac [2], filósofa romena que vive em Caracas, a visão de mundo do romeno primitivo “se define a partir de uma consonância com a Weltanschauung ancestral do povo, resumida, sob o termo de ‘cosmicismo’, como uma intuição da harmonia universal e um sentimento de participação na totalidade, a visão de um equilíbrio essencial entre natureza e espírito”. Cotofleac explica que o toposcultural e espiritual do povo romeno é marcado pela condição de ser-entre, devido a sua identidade étnico-cultural moldada, ao longo dos séculos, na intersecção de elementos étnico-culturais distintos. Os romenos teriam incorporado essas duas tradições (e tantas outras) sem, no entanto, unificá-las num único corpuspsicocultural, numa unidade identitária estável e harmônica. O resultado é que eles teriam desenvolvido uma consciência existencial agônica em cujo fundo está o conflito entre elementos culturais incongruentes, de onde o sentimento de uma indeterminação, de um vazio topológico essencial. Muito do misticismo de Cioran parece fincar raízes neste terreno movediço que é o universo espiritual romeno. Segundo Cotofleac, numa situação como a do romeno, “o homem deve conservar sua ‘verticalidade’ como em areia movediça, alcançar a estabilidade no… instável”. A Romênia é, para mim, uma geografia vertical, uma entidade espiritual e não histórica, uma nação voltada à eternidade, ao absoluto. Como descreveu Eliade, um país “transfigurado por uma permanente presença divina”.

Rodrigo I. R. S. Menezes, agosto de 2012

Baiano de Salvador vivendo em São Paulo desde os 9 anos, Rodrigo I. R. S. Menezes é bacharel em Filosofia, Mestre em Ciências da Religião e Doutorando pela PUC-SP. Desde o mestrado, seu projeto de pesquisa envolve a obra do pensador romeno radicado na França, Emil Cioran. 

Ilustração: “City in Transylvania”, desenho do artista holandês Stefan Bleekrode, retratando cidade imaginária parcialmente baseada na arquitetura das cidades transilvanas de Brasov, Sighisoara e Sibiu.


[1] ELIADE, M. Los rumanos. Bucareste, Meridiane, 1992, p. 27

[2] Cf. COTOFLEAC, V. Dimensiones espirituales. A Parte Rei. Revista de Filosofía.http://serbal.pntic.mec.es/~cmunoz11/vasilica40.pdf

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