A literatura romena entre a tradição e o cosmopolitismo

Fernando Couto e Santos | PDF

Várias interrogações se colocam a um novo país após o seu surgimento. A menor das quais não será seguramente a maneira como se poderá afirmar culturalmente perante os demais. As suas tradições constituem efectivamente uma das formas mais genuínas de um país se singularizar, mas como pode um país afirmar a sua especificidade num determinado domínio se essa tradição é recente e pouco conhecida?

O panorama da literatura romena antes da unificação dos principados da Valáquia e da Moldávia e o consequente nascimento da Roménia moderna, não era particularmente animador. A literatura romena anterior ao século XVIII não vai muito além de crónicas de índole histórica, escritos religiosos e a tradição oral de raiz popular, apesar de despontarem a espaços, timidamente, uma ou outra composição com algum valor estético.

O dealbar do século XIX marca o aparecimento de uma literatura mais madura que começa a esboçar um princípio de ruptura com a realidade cultural anterior, constituindo um ponto de viragem não só no sentido da formação de uma tradição nacional mas também de uma ocidentalização que permitisse a afirmação dessa nova tradição e aproximasse a nação romena das realidades vanguardistas da Europa ocidental, da qual se sente mais próxima por razões históricas e pela origem latina da sua língua do que da Europa oriental eslava onde se localiza geograficamente. No entanto, nesta época, a tradição nacional constitui-se essencialmente recuperando e exaltando o passado da nação romena e mormente as suas raízes rurais.

Em 1863,desencadeia-se uma pequena revolução nas letras romenas com a irrupção do movimento Junimea (Juventude), criado na cidade de Iasi por Titu Maiorescu que viria a apadrinhar, mormente através da fundação em 1867 da revista Corvorbiri Literare(Conversações Literárias),a carreira de futuros nomes importantes da literatura romena como o dramaturgo Ion Luca Caragiale, o contista Ion Creanga e sobretudo aquele que se tornaria no poeta nacional romeno: o grande Mihai Eminescu. Outros movimentos vão surgindo, ajudando a consolidar uma nova tradição, mas a prosa finissecular, ainda que renovando a linguagem, continua a retratar muito o quotidiano de uma sociedade rural num país em que a cultura urbana se encontra ainda num estado assaz embrionário. Aliás, o fim do mundo patriarcal e a difícil adaptação à nova realidade citadina são temas que não estão ausentes da literatura da época.

No século XX, a literatura romena descobre novos caminhos para a sua afirmação. Na poesia, alguns nomes importantes vão irrompendo na cena literária desde o início do século, como George Bacovia, Tudor Arghezi e, alguns anos mais tarde, Ion Barbu, poetas cuja reputação se vai cimentando ao longo de várias décadas.

Concomitantemente com a recente tradição nacional que traduz as preocupações de uma sociedade ruralizada, surge uma literatura que abre novas perspectivas e inaugura uma tradição de cosmopolitismo na literatura romena, cosmopolitismo pelos temas abordados, pelo destino de alguns dos seus escritores, pelos contactos internacionais, pelas vanguardas que alguns ajudam a criar ou integram e até em alguns casos pela escolha de uma outra língua, quase sempre o francês.

Contudo, as duas tradições nem sempre se incompatibilizam e vários escritores, a despeito da sua abertura ao mundo, não esquecem a tradição nacional à qual a sua formação intelectual não é, apesar de tudo, totalmente alheia. Nesta perspectiva podemos enquadrar a literatura daquele que é considerado o criador do romance romeno moderno: Liviu Rebreanu, nascido em 1885. Enquanto em Ion, obra realista
com influências naturalistas, é retratada a tragédia da vida na aldeia, em Pàdurea Spanzuratilor (A floresta dos enforcados), publicado em 1922, o autor abre a via ao romance psicológico. Romance de guerra, de amor e de morte, a intriga gravita em torno de Apostol Bologa, jovem romeno da Transilvânia que serve no exército austro – húngaro por ocasião da primeira guerra mundial e que se encontra, pelas suas origens, dividido entre dois campos opostos da contenda.

Outro nome importante da época, quase coetâneo de Liviu Rebreanu, é Lucian Blaga. Apesar da sua vivência cosmopolita, é a tradição rural e nacional associada à espiritualidade que marca a sua obra. Intelectual de fino recorte, dramaturgo, poeta, teólogo e filósofo, doutorado em Viena com uma tese intitulada Kultur und Erkenntnis (Cultura e Conhecimento), eminente diplomata (embaixador em Portugal entre 1938 e 1939), Lucian Blaga traduz, na sua poesia, um lirismo espiritualizado e um bucolismo melancólico. Na sua peça de teatro de 1927 Mesterului Manole (Mestre Manole), o autor inspira-se na lenda do mesmo nome – em que o referido mestre empareda a mulher como sacrifício humano – repensando o mito e investindo-o de significados filosóficos e em 1936 publica o seu ensaio Spatiul mioritic (O espaço miorítico) em que desenvolve a ideia que deu nome à obra e que remete para o espaço geográfico, espiritual e mítico dos romenos, inspirado pela balada rural de Mioritza.

São três autores da mesma geração de Liviu Rebreanu ou de Lucian Blaga que inauguram de certa forma a tradição cosmopolita na literatura romena, refiro-me a Panaït Istrati, Tristan Tzara e Benjamin Fondane, nascidos em 1884, 1896 e 1898 respectivamente. Todos abandonam cedo o seu país e adoptam o francês como língua literária. Panaït Istrati- o eterno vagabundo que deve a uma tentativa frustrada de suicídio em Nice o início da sua carreira literária graças a uma mão desconhecida que fez chegar a Romain Rolland o manuscrito de um dos seus textos – descreve nos seus contos e romances de uma riqueza pictórica ímpar não só a experiência transfigurada da sua vida aventureira e da sua infância no porto de Braila, cidade multicultural situada nas margens do Danúbio, mas também as façanhas dos «haïdoucs», bandidos cujo código de honra os levava a defender os pobres e os oprimidos. Os anos vinte da pretérita centúria são anos dourados para Panaït Istrati que um dia afirma que viera ao mundo cosmopolita e a quem alguns atribuem o epíteto de «Gorki dos Balcãs». No entanto, o seu sentido de justiça e o seu combate pela verdade, mesmo a mais incómoda, fazem-no cair em desgraça quando em 1929, após uma viagem à União Soviética na companhia do escritor grego Nikos Kazantzakis, publica as suas impressões com o título de Vers l´autre flamme(Em direcção à outra chama) e o subtítulo sugestivo de Confession pour
vaincus(Confissão para vencidos). Sete anos antes do Retour d´Urss (Regresso da Urss) de André Gide, Panaït Istrati manifesta o seu desencanto por ver desfigurado o seu ideal comunista, mas o mundo ainda não estava preparado para o ouvir. Abandonado pelos amigos, aviltado por muitos que não se coíbem de o apelidar de fascista, Panaït Istrati regressa ao seu país onde é vigiado pela Sigurantza, polícia política romena da época, por suspeita de promoção de acções subversivas de inspiração comunista. Tuberculoso e sem grandes recursos financeiros, morre em Bucareste em 1935 e só quarenta anos mais tarde viria a sercompletamente reabilitado.

Um percurso significativamente distinto foi o que seguiu Tristan Tzara, pseudónimo de Samuel Rosenstock, oriundo de uma família de origem judaica recenseada entre as 800 mil pessoas a quem o código civil da época proíbe a atribuição da cidadania romena. O seu «nom de plume» Tristan Tzara(Tristan em homenagem ao herói da ópera de Wagner e Tzara que significa terra ou país em romeno) é adoptado em 1915 e no ano seguinte o jovem poeta, buliçoso e revolucionário, funda em Zurique, a partir do Cabaret Voltaire, o movimento Dada, precursor do surrealismo e que enfatizando o ilógico e o absurdo se opõe a todo e qualquer tipo de equilíbrio, pugnando pela incoerência, a desordem e o caos. Em 1919, fixa residência em Paris onde se aproxima de André Breton e dos futuros surrealistas com os quais assume contudo uma querela em 1922 por ocasião do «Congresso pela determinação das directivas da defesa
do Espírito moderno». Devido a esta querela só em 1929 é que começamos a reconhecer textos de Tristan Tzara em publicações surrealistas.

O surrealismo chegou também a exercer algum fascínio sobre Benjamin Wechsler que escreve os seus primeiros poemas ainda em língua romena com o nome de Benjamin Fundoianu e mais tarde quando parte para França em Dezembro de 1923 decide afrancesar o seu nome e passa a assinar como Benjamin Fondane. A França representava «cela va sans dire» uma espécie de Meca literária para os romenos. Benjamin Fondane é, aliás, o autor de uma «boutade» sobre a importância quiçá desmesurada da pátria de Chateaubriand, de Voltaire ou de Victor Hugo na cultura romena quando escreve que partia para França porque já não suportava viver numa colónia francesa e era portanto preferível ir viver para a metrópole. A obra de Benjamin Fondane abarca vários géneros, a poesia, o teatro, o ensaio (neste registo a não perder o seu magnífico livro Baudelaire et l´expérience du gouffre, Baudelaire e a experência do abismo, em português) e a crítica de cinema. O cinema foi aliás uma das grandes paixões de Fondane. O autor chegou mesmo a realizar um pequeno filme – Tararira- durante a sua estada na Argentina, nos anos trinta. A poesia de Fondane em língua francesa – reunida sob o título Le mal des fantômes(O mal dos fantasmas) e disponível actualmente nas edições Verdier- é uma poesia de pendor existencialista, marcada pela obsessão do desastre de uma civilização capaz de transformar os indivíduos em fantasmas da história. Influenciada pela filosofia do judeu russo Léon Chestov, a poesia de Fondane reflecte também a errância e o naufrágio da condição judaica. Apesar de ter obtido a cidadania francesa em 1938, as suas origens judaicas ser-lhe-iam fatais quando em 1944 é detido pela polícia francesa do regime colaboracionista
de Vichy e enviado junto com a sua irmã Line, cidadã romena, para o campo de concentração de Drancy. Graças a várias diligências efectuadas por amigos, Fondane é autorizado a abandonar o campo, mas recusando-se a deixar sozinha a sua irmã, acaba por ser deportado juntamente com ela para o campo de extermínio de Auschwitz- Birkenau onde viria a ser assassinado nas câmaras de gás, presumivelmente a 2 ou 3 de Outubro de 1944.

A alucinação e a irrupção do sonho na realidade são características que podemos encontrar na obra de uma das vozes mais singulares da literatura romena da época, Max Blecher. A tuberculose associada ao mal de Pott ceifou demasiado cedo – com apenas vinte e oito anos de idade – a vida de um escritor que revelou qualidades indiscutíveis na sua prosa. Filho de um abastado comerciante judeu, Max Blecher estuda medicina em Paris, mas a sua doença obrigao a regressar à Roménia. A sua obra é saudada por André Breton e em 1935, dois anos antes da sua morte, publica o seu livro mais emblemático: Intâmplâri in Irealitatea imediata (Aventuras na irrealidade imediata). Vários especialistas da obra de Max Blecher
estabeleceram algum parentesco com outros nomes importantes da literatura europeia como Franz Kafka, Robert Walser e Bruno Schulz. De todos eles, aquele do qual Blecher estará mais próximo será Bruno Schulz: as recordações de infância, a atracção pelos labirintos escuros, as casas de longos corredores, os pátios judeus da Europa oriental ou o fascínio por pequenos objectos (estatuetas, figuras de cera vendidas em feiras, produtos de baixo preço) normalmente desvalorizados pelo comum dos mortais. Em Max Blecher, também não estão ausentes, a espaços, episódios de transfiguração do real, o que nos permite estabelecer dois parentescos curiosos, com o poeta português Cesário Verde (acode-me à mente em particular a transfiguração de frutos e legumes num belo corpo feminino, no poema Num bairro moderno) e com o contista e concertista uruguaio Felisberto Hernández.

Os anos trinta na Roménia – como em todo o continente europeu – foram turbulentos politicamente. A Roménia não foi poupada à hidra do fascismo, corporizado, entre outros movimentos, pela Guarda de Ferro da Legião do Arcanjo Miguel. No entanto, do ponto de vista cultural, foram anos de uma riqueza ímpar com o fervilhar de novas ideias e em que começam a afirmar-se alguns escritores que marcariam de forma indelével a literatura romena do século vinte, refiro-me essencialmente a Mircea Eliade, Eugène Ionesco e Emil Cioran. A estes três nomes poderíamos acrescentar seguramente o de um outro escritor que não fora a sua morte prematura seria talvez tão conhecido internacionalmente como os restantes, refiro-me a Mihail Sebastian.

Mircea Eliade, nascido em 1907, é hoje reconhecido como o fundador da história moderna das religiões. Em 1928 com apenas vinte e um anos parte para a Índia onde se dedica a vários trabalhos de índole filosófica sobre os mitos e a religião hindu. Quando regressa à Roménia em 1931, começa também – concomitantemente com a carreira universitária e de estudioso das religiões – a escrever romances, alguns deles como Maitreyi(A noite Bengali) ou Isabel si apele diavolului (Isabel e as águas do Diabo), inspirados na sua vivência da realidade indiana. Mircea Eliade também não esquece a tradição nacional e à semelhança de Lucian Blaga também se interessa pela lenda de Mestre Manole, no seu caso através de um ensaio intitulado: Comentarii la legenda Mesterului Manole( Comentários sobre a lenda de Mestre Manole).
Mircea Eliade é no entanto conhecido do povo português essencialmente pelas suas funções diplomáticas, pois aqui exerce o cargo de adido cultural entre 1941 e 1944. Da sua passagem por Portugal, ficam para a posteridade, entre outros escritos, dois registos importantes: Jornalul Portughez( Diário Português)e Salazar si revolutia în Portugalia(Salazar e a revoluçãoem Portugal) em que o autor não esconde a sua admiração pela figura de António de Oliveira Salazar. O seu fascínio pelo ditador português não surpreende se considerarmos que Mircea Eliade sempre foi tido como muito próximo dos círculos conservadores romenos e da extrema-direita.

Após o final da guerra e o advento do regime comunista, segue a sua carreira universitária, primeiro em Paris e depois em Chicago onde viria a falecer em 1986. Apesar de nunca ter abandonado a língua romena, escreve alguns trabalhos de investigação em francês e em inglês.

Eugène Ionesco, nascido em 1909, é o dramaturgo do absurdo. As suas peças reflectem a solidão do ser humano e a insignificância da sua existência. Le roi se meurt (o rei está a morrer), La cantatrice chauve (A cantora careca), La leçon(A lição), Les chaises(As cadeiras), Le  rhinocéros(O rinoceronte) são algumas das peças que ajudaram a consolidar a reputação de Ionesco. Como se verifica pelos títulos das peças, escreve em francês, língua materna de sua mãe e língua do país onde se fixa em 1938 ainda antes da segunda guerra mundial. No entanto, ainda na Roménia, entre o crepúsculo dos anos vinte e o dealbar dos anos trinta, Eugène Ionesco começou por ser um crítico literário particularmente cáustico. As suas críticas,
escritas naturalmente ainda em romeno, estão reunidas no livro Nu (Não) e revelam num estilo incisivo e contundente a clareza de espírito e o tom desassombrado com que se entrega à recensão literária.

Emil Cioran, do qual comemoramos este ano o centenário do nascimento, pois nasceu em 1911, é o filósofo do absurdo, da alienação, do desespero, da decadência e da tirania da História. Alguns dos seus títulos reflectem o seu pessimismo e o seu cepticismo como Pe culmile disperari(No cume do desespero), Îndreptar Patimas(Breviário dos vencidos), Précis de décomposition(Manual de decomposição), o seu primeiro livro escrito em francês, datado de 1949, Syllogismes de l´amertume(Silogismos da amargura) ou De l´inconvénient d´être né(Do inconveniente de ter nascido). Emil Cioran partiu para França em 1937 com uma bolsa do Instituto francês de Bucareste e na pátria das luzes viveria até à sua morte em 1995, com um
pequeno interregno traduzido num regresso ao país natal onde permaneceu de Novembro de 1940 a Fevereiro de 1941. Antes da sua partida para França e quiçá influenciado em parte pela sua estada em Berlim em 1933 com uma bolsa de estudo, Cioran escreve em 1936 o seu livro mais polémico Schimbarea la faţă a României(A transfiguração da Roménia), livro de inspiração anti-semita e claramente fascista de que o autor abjuraria mais tarde, envergonhado pelas opções políticas da sua juventude em que chegou inclusive a tecer loas a Mussolini e a Hitler. Uma atitude bem diferente da que adoptou Mircea Eliade que nunca fez propriamente um mea culpa pelas suas opções dos anos trinta e quarenta, o que, separando o
homem do escritor, não pode obviamente empanar o brilho da sua obra.

Mihail Sebastian, pseudónimo de Iosif Hechter, nascido em 1907, no mesmo ano pois de Mircea Eliade, é o marginal, o exilado, o típico intelectual judeu perseguido durante a guerra. Romancista e dramaturgo de superior qualidade, Mihail Sebastian é conhecido sobretudo pelos seus dois livros mais polémicos: Jurnal( Diário) e De doua mil de ani(Há dois mil anos). O Diário constitui um documento excepcional sobre os anos trinta na Roménia, um país onde as ideias fascistas ganhavam terreno e a perseguição aos judeus se tornara mais incisiva. Ao intelectual livre como Mihail Sebastian resta o combate da palavra pela liberdade e pela justiça nem que para isso, em último caso, seja necessário encerrar-se numa espécie de exílio interior. Este Diário seria publicado apenas em 1996, tornando-se no grande best-seller da Roménia pós-comunista.

No livro De doua mil de ani (Há dois mil anos) a polémica adveio da publicação do prefácio de Nae Ionescu, intelectual fascista e anti-semita, ideólogo da Guarda de Ferro. O prefácio é aliás de uma pobreza intelectual confrangedora, apesar de o autor ser um filósofo de reconhecido talento, malgrado as suas ideias repugnantes. Contudo, o que mais, ainda hoje, surpreende alguns especialistas é a razão que terá levado Mihail Sebastian a convidar Nae Ionescu – o orador de verbo fácil que fascinara por exemplo Mircea Eliade e Emil Cioran- a prefaciar a sua obra e posteriormente, conhecido o conteúdo do texto, a publicá-lo. Aquando do convite, talvez se ignorasse toda a extensão da argumentação extremista de Nae Ionescu, mas porque terá decidido Mihail Sebastian manter o prefácio? Segundo Alain Paruit, o tradutor francês do livro, a Mihail Sebastian, só restava uma «vingança» possível: a sua publicação, pois só ela acabaria por desacreditar Nae Ionescu.

Forçado a viver escondido, pela sua origem judaica, durante a segunda guerra, Mihail Sebastian acabaria por morrer num banal acidente em Maio de 1945, atropelado por um camião soviético, numa artéria de Bucareste.

Nascido em 1913 e atingindo a maturidade como escritor nos anos quarenta, Ghérasim Luca,
«nom de plume» do judeu Salman Locker, foi uma das vozes mais originais da literatura romena – ainda que, mais uma vez, de expressão francesa – da segunda metade do século vinte. Desiludido com o novo puritanismo que se instalava na Roménia sob a capa do realismo proletário, Ghérasim Luca parte para França, não sem antes passar – mercê da sua origem judaica – por Israel, único meio de poder chegar a terras gaulesas.

Um dia, o filósofo francês Gilles Deleuze afirmou que Ghérasim Luca era o maior poeta vivo de língua francesa. Não temos ecos das reacções que estas palavras possam ter suscitado, mas imagino a indignação que elas poderão ter criado nos defensores da pureza da língua francesa, língua da razão por excelência, pois a poesia de Ghérasim Luca é o pensamento triturado, a palavra estilhaçada, o amor sem limites, o desejo, a paixão. Ela é a um tempo desconstrução e recomposição da linguagem. Com incursões nas artes plásticas (desenhos, colagens, cubomanias), a poesia vive também da sua declamação e ouvir Ghérasim Luca dizer os seus próprios poemas é uma experiência única. Grande parte da sua poesia está reunida no livro Héros-Limite(Herói-Limite) na belíssima colecção – a um preço bastante acessível – Poésie da editora Gallimard, mas muitos títulos estão também disponíveis nas edições José Corti.

Em 9 de Fevereiro de 1994, desencantado com o mundo, Ghérasim Luca, suicida-se lançandose ao rio Sena, reproduzindo vinte e quatro anos depois o gesto do seu amigo, o grande poeta de língua alemã Paul Celan, curiosamente nascido em Czernowitz(Cernauti em romeno), na Bucovina do Norte, então território romeno.

Dos autores que abandonam a Roménia após a segunda guerra mundial, merecem também destaque dois escritores que a dado momento conseguem alguma projecção internacional antes de caírem no esquecimento, refiro-me a Vintila Horia e Virgil Gheorghiu. Ambos escreveram em romeno e em francês. Vintila Horia chega mesmo a ganhar o prémio Goncourt -comummente reconhecido como o mais prestigiado das letras francesas, a despeito da polémica que sempre rodeia a sua atribuição -que lhe é concedido em 1960 pelo seu romance Dieu est né en exil(Deus nasceu no exílio). No entanto, as revelações sobre o seu passado antisemita levam a Academia Goncourt a retirar-lhe ulteriormente o galardão. Quanto a Virgil Gheorghiu, padre ortodoxo, atinge a fama com o seu romance Ora 25 (Vigésima quinta hora) de 1949 em que o autor retrata a triste errância de um camponês romeno da Moldávia, Iohann Moritz, durante a segunda guerra mundial.

Os anos decorridos entre a segunda guerra mundial e a queda do comunismo em 1989 são anos sombrios para os escritores romenos. Alguns – poucos – terão procurado refúgio no misticismo, como Daniel Turcea, falecido com apenas trinta e quatro anos em 1979 e cuja poesia apresenta reminiscências de Angelius Silesius e Novalis. Outros, com uma singular mestria, utilizam a ironia, conseguindo não raro contornar a censura, aproveitando também algum abrandamento da vigilância nos anos 60, como o poeta, romancista e dramaturgo Marin Sorescu. A maioria vive um longo exílio interior. Mas como os poetas ou os escritores em geral são como os pássaros, não lhes podemos cortar as asas, como em tempos escrevi a propósito do poeta Dinu Flamand, muitos voaram assim que uma brecha se abriu, como o próprio Dinu Flamand, exilado em França ou o romancista Norman Manea que se radica nos Estados Unidos, entre outros.

Hoje, novos caminhos se abrem à literatura romena. Hertha Müller, oriunda da minoria de língua alemã do Banat é galardoada em 2009 com o Prémio Nobel da Literatura. Outros escritores, muitos dos quais, nascidos nos anos quarenta ou cinquenta, começam a sua carreira ainda no tempo da ditadura e afirmam-se na cena nacional e internacional como Ana Blandiana, Gabriela Adamesteanu, Mircea Cartarescu ou mais recentemente Florina Ilis, nascida em 1968. A todos estes nomes, poderíamos porventura acrescentar o de Dumitru Tsepeneag que, radicado em França, escrevendo em romeno e em francês, vence em 2008 o
prémio da União Latina. Este prémio tinha já sido atribuído em 2004 a um outro escritor romeno, Virgil Tanase, ex-aequo com o escritor argentino – que viria a falecer no ano seguinte –Juan José Saer.

A fragilidade das fronteiras na Europa de Leste e as suas sucessivas alterações e recomposições fizeram com que algumas regiões e cidades outrora romenas tenham sido igualmente local de nascimento de alguns escritores importantes como o supracitado Paul Celan,Gregor von Rezzori ou Aharon von Appelfeld, todos nascidos em Czernowitz(Cernauti em romeno), ou nos seus arredores, na região da Bucovina do Norte, hoje território da Ucrânia. Também em território romeno nasceu o escritor judeu e Prémio Nobel da Paz, Elie Wiesel. Todos estes escritores, à excepção de Gregor von Rezzori, tiveram em comum o facto de serem sobreviventes de campos de concentração nazis.

Como os meus preclaros ouvintes podem concluir após estes largos minutos em que expus a minha reflexão, dois aspectos ressaltam do panorama das letras romenas no século vinte: a origem judaica de alguns dos escritores (como acontece aliás com muitos intelectuais da Europa de Leste) e a condição de exilado ou de expatriado da maioria deles. Não raro como se fossem eles próprios condenados, recriando – ironicamente ou não – a história do judeu errante.

No entanto, muitos dos escritores que abandonaram a Roménia por exílio forçado ou voluntário, por razões económicas ou políticas, nunca deixaram de reflectir sobre o seu país, os seus mitos, as suas tradições. Como se a Roménia fosse pequena de mais e precisassem de um espaço mais amplo para aí afirmar a sua especificidade.

Seja como for, há uma verdade insofismável que brota desta análise: o contributo indesmentível da cultura romena para o património literário e cultural europeu.

Neste mundo globalizado em que paradoxalmente muitos querem fazer-nos crer que só as grandes línguas de comunicação têm direito de cidade, é imperioso não esquecer que a história da cultura europeia também se declina em romeno e em outras línguas supostamente minoritárias e que o futuro do velho continente se constrói com todos os países que o constituem e o enriquecem com a sua diversidade e a sua originalidade.

 

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