Resenha: “A Grande Travessia”, de Lucian Blaga

http://perspectivabr.wordpress.com/2007/08/30/lucian-blaga/

A palavra “Romênia” não diz muito aos brasileiros. No máximo, chama a atenção pela raiz “Rom”, indicativo de uma ligação ancestral com o Império Romano e, conseqüentemente, com a cultura latina da qual também descendemos. Uma olhada no mapa nos mostra que é também o único de sua região, os Bálcãs, a falar um idioma neolatino e, ao consultar o almanaque, nos chama a atenção o fato de que a Romênia foi invadida por todos os seus vizinhos. É curioso; mas, como toda curiosidade calcada em superficialidades, ela tende a esmorecer. Assim, deixamos de lado a Romênia com suas curiosidades, sua língua e, também, seus grandes valores.

E são muitos, os valores deste país latino encravado entre eslavos, germânicos e turcos. Se no Brasil conhecemos pouco a Emil Cioran ou Eugene Ionesco ou se praticamente ignoramos Constantin Noica e Virghil Gheorgiu, quem perde somos nós. A obra de Lucian Blaga (1899-1961), por exemplo, está entre as mais importantes da poesia européia no século passado e, até agora, nunca havia sido publicada por aqui, carência que a coletânea A Grande Travessia, editada pela Universidade de Brasília (112 páginas, R$ 16,50) vem suprir. Filósofo e diplomata, Blaga cultivou praticamente todos os gêneros literários e destacou-se na poesia, onde aliou vasta erudição e as formas da poesia popular romena. Seus temas principais estão ligados ao conflito entre a razão e o misticismo, entre a filosofia e a mentalidade religiosa de sua pátria.

A seguir, o poema que dá título ao livro:  

NA GRANDE TRAVESSIA 

O sol no zênite sustém a balança do dia.
O céu se concede às águas embaixo.
Com olhos ajuizados as bestas na travessia
Observam sem medo suas sombras no leito.
A folhagem se arca profundamente
na direção de toda uma lenda. Nada, do que é, tenta ser diferente.
Somente meu sangue grita pelos campos
atrás de sua infância longínqua,
como um velho cervo
atrás de sua corça perdida na morte.Talvez tenha perecido sob os rochedos.
Talvez tenha mergulhado na terra.
Em vão espero notícias suas,
somente ressoam as cavernas,
riachos buscam as profundezas.Sangue sem resposta,
ah, houvesse silêncio, quão bem se ouviria
a corça calcando a morte.Ainda mais longe cambaleio pela trilha —
e, como um assassino que sela com um lenço
uma boca vencida,
fecho com o punho todas as fontes.
Que se calem para sempre
para sempre.  

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