Poemas de Lucian Blaga

Caros amigos,

Esta é a segunda vez que um poeta do Leste Europeu ganha destaque neste boletim. Primeiro, foi o polonês Czeslaw Milosz. Agora, vem o romeno Lucian Blaga (1895-1961). Poeta, filósofo, tradutor, romancista, Blaga é um dos principais nomes da literatura romena no século XX. Com quase quarenta livros publicados, ele era de fato um filósofo. Escreveu mais de uma dezena de livros de filosofia, mas o principal de seu trabalho nessa área está reunido em três trilogias: Trilogia do Conhecimento, de 1943; Trilogia da Cultura, de 1944; e Trilogia dos Valores, de 1946.

Embora para nós a língua romena pareça bastante estranha, trata-se de um idioma parente do português e também originário do latim. Embaixador em Lisboa durante um ano, Blaga percebeu esse parentesco e falou sobre ele em alguns poemas. É verdade que a influência turca, eslava e magiar sobre o romeno deram à língua um jeito que a distancia dos primos mais conhecidos: italiano, francês, espanhol. Mas há frases bem reconhecíveis. O título do poema “A Luz de Ontem”, transcrito ao lado, é algo inteligível: “Lumina de Ieri”.

Uma curiosidade sobre a língua natal de Lucian Blaga é que ela também tem a palavra saudade. E em romeno saudade é dor. Mas não confundam: dor é saudade mesmo. Há outra palavra para dor, que é durere. Outro traço interessante do idioma é que ele herdou declinações do latim. Assim, palavras masculinas recebem o artigo ul no final, como um sufixo. A expressão “A Saudade”, por exemplo, título de outro poema de Blaga, corresponde a “Dorul”. Também é curioso notar que os pronomes eu e tu, em romeno, são idênticos à sua forma em português. Para dar uma idéia do idioma, ao transcrever o poema “A Saudade”, incluí também o texto original.

Colhi todas essas informações sobre o poeta e seu idioma, assim como os textos da miniantologia ao lado, no volume A Grande Travessia, de Lucian Blaga (UnB, 2005). Esse livro reúne poemas traduzidos e apresentados por Caetano Waldrigues Galindo, professor de lingüística da Universidade Federal do Paraná. Entre os feitos tradutórios de Galindo há nada menos que uma versão inédita do Ulysses, de James Joyce.

Lucian Blaga foi diplomata a partir dos anos 20. Em 1948, já na vigência do regime pró-soviético na Romênia, ele foi demitido de sua posição de professor universitário e “encostado” como bibliotecário do instituto histórico. Até 1960, ele só pôde publicar traduções — eram proibidos títulos de sua própria lavra. Em 1956, foi apontado como concorrente ao Prêmio Nobel, mas o governo comunista romeno jogou pesado para descandidatá-lo. Não consegui apurar se ele não ganhou o prêmio por outros motivos ou se os protestos do governo romeno falaram mais alto.

A poesia de Blaga conquistou respeito desde muito cedo. Seu livro de estréia, Os Poemas da Luz, saiu em 1919. Seguiu-se Os Passos do Profeta, de 1921. Já em 1922 o respeitado crítico Eugen Lovinescu publicava a seguinte apreciação:

“Lucian Blaga é talvez o mais original criador de imagens da literatura romena: imagens inesperadas e profundamente poéticas. Para dar a impressão do silêncio, ele primeiro ouve o barulho dos raios de luar batendo nas janelas. A imagem não é simplesmente um dos elementos da poesia da Lucian Blaga, mas parece ser a própria poesia”.

Convenhamos: não é pouco para um poeta iniciante.

http://www.algumapoesia.com.br/poesia2/poesianet156.htm

AOS LEITORES

Aqui é minha casa. Ali ficam o sol e o jardim
[ com colméias.
Vocês vêm pela trilha, olham da porta por entre
[ as grades
e esperam que eu fale. … Por onde começar?
Creiam em mim, creiam em mim,
sobre seja o que for pode-se falar quanto se
[ queira:
sobre o destino e sobre a serpente do bem,
sobre os arcanjos que lavram com o arado
os jardins do homem,
sobre o céu para onde crescemos,
sobre o ódio e a queda, tristezas e crucifixões
e acima de tudo sobre a grande travessia.
Mas as palavras são as lágrimas de quem teria
[ desejado
tanto chorar e não pôde.
São tão amargas as palavras todas,
por isso… deixem-me
passar mudo por entre vocês,
sair à rua de olhos fechados.

• De Îm Marea Trecere (“A Grande Travessia”), 1924

DE PROFUNDIS

Mais um ano, um dia, um instante —
e as vias que via adiante
Somem, de sob meu passo errante.
Mais um ano, um sonho, outro sono —
e sob a terra serei dono
dos ossos que dormem em torno.

• De Poezii (“Poemas”), 1962

MELANCOLIA

Um vento só seca suas lágrimas frias
nas janelas. Chove.
Tristezas vagas me assolam, porém toda
a dor,
que sinto, não sinto, em mim,
no coração,
no peito,
mas sim nas gotas de chuva que escorrem.
E enxertado com minha vida o mundo imenso
com seu outono e sua noite
dói em mim como uma chaga.
Para os montes passam nuvens com úberes
[ cheios.
E chove.

• De Poemele Luminii (“Os Poemas da Luz”), 1919

NA GRANDE TRAVESSIA

O sol no zênite sustém a balança do dia.
O céu se concede às águas embaixo.
Com olhos ajuizados as bestas na travessia
Observam sem medo suas sombras no leito.
A folhagem se arca profundamente
na direção de toda uma lenda.

Nada, do que é, tenta ser diferente.
Somente meu sangue grita pelos campos
atrás de sua infância longínqua,
como um velho cervo
atrás de sua corça perdida na morte.

Talvez tenha perecido sob os rochedos.
Talvez tenha mergulhado na terra.
Em vão espero notícias suas,
somente ressoam as cavernas,
riachos buscam as profundezas.

Sangue sem resposta,
ah, houvesse silêncio, quão bem se ouviria
a corça calcando a morte.

Ainda mais longe cambaleio pela trilha —
e, como um assassino que sela com um lenço
uma boca vencida,
fecho com o punho todas as fontes.
Que se calem para sempre
para sempre.

• De Îm Marea Trecere (“A Grande Travessia”), 1924

A LUZ DE ONTEM

Procuro, não sei o que procuro. Procuro
um céu passado, a véspera extinta. Meu rosto
vai tão baixo, que antes nos céus ia posto!

Procuro, não sei o que procuro. Procuro
auroras idas, que jorravam, inflamadas
fontes — hoje com águas presas derrotadas.

Procuro, não sei o que procuro. Procuro
a grande hora que em mim restou sem figura
como em um cântaro morto um fim de abertura.

Procuro, não sei o que procuro. Sob estrelas de
[ ontem,
sob as que passaram, procuro
a luz apagada que ainda enalteço.

• De La cumpăna apelor (“No Divisor de Águas”), 1933

A SAUDADE

Sedento bebo teu perfume e seguro teu rosto
com ambas as mãos, como quem segura
na alma um milagre.
Queima-nos a proximidade, olhos nos olhos,
[ como estamos.
E contudo me sussurras: “Tenho tanta saudade
[ de ti!”
Falas tão misteriosa e desejosa, como se eu
[ estivesse
exilado em outro mundo.

Mulher,
que mares levas no peito, e quem és?
Canta ainda uma vez mais tua saudade,
por que te ouça
e os instantes me pareçam botões prenhes
de que florescessem de fato… eternidades.

• De Poemele Luminii (“Os Poemas da Luz”), 1919

DORUL

Seţos iţi beau mirasma şi-ţi cuprind obrajii
cu palmele-amândouă, cum cuprinzi
în suflet o minune.
Ne arde-apropierea, ochi în ochi cum stăm.
Şi totuşi tu-mi şopteşti: “Mi-aşa de dor de tine!”
Aşa de tainic tu mi-o spui şi dornic, parc-aş fi
pribeag pe-un alt pământ.

Femeie,
ce mare porţi în inimă şi cine eşti?
Mai cântă-mi înc-o dată dorul tău,
să te ascult
şi clipele să-mi pară nişte muguri plini,
din care înfloresc aievea — veşnicii.

Lucian Blaga
In A Grande Travessia
Seleção, tradução e introdução de
Caetano Waldrigues Galindo
Editora UnB, Brasília, 2005

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