Experiências da juventude: os ensaios de Herta Müller

Livro da ganhadora do Nobel expõe traumas pessoais que reverberam em sua ficção

*Por Marcelo Backes, O Globo, 26/05/2012

“Sempre a mesma neve e sempre o mesmo tio”, de Herta Müller. Tradução de Claudia Abeling. Editora Biblioteca Azul, 248 páginas. R$ 34,90

Herta Müller ganhou o Nobel de Literatura em 2009, e sua obra, aos poucos, tem chegado ao Brasil. Depois do romance “O compromisso” (Globo Editora), publicado antes ainda da láurea, em 2011 apareceu “Tudo o que tenho levo comigo” (Companhia das Letras), seu romance mais recente. Em 2010 havia saído “Depressões” (Globo Editora), e eis que agora chega uma obra não ficcional, essencial para a compreensão do trabalho poético da autora.

Nos ensaios de “Sempre a mesma neve e sempre o mesmo tio”, Herta Müller conta de sua infância e de sua juventude, revelando experiências que a municiaram e moldaram suas personagens. O livro permite um olhar à oficina da autora e mostra o parentesco íntimo entre ficção e ensaio, revelando como bebe da realidade em suas narrativas.

Romênia é definida como “país do fracasso universal” 

No acesso autoral à obra, a Securitate, polícia secreta de Ceausescu, continua sendo o zahir borgiano de Herta, o assunto que ela não consegue abandonar. O tom dos ensaios é pessoal, tanto ao comentar o poeta alemão Heinrich Heine quanto ao retratar amigos e autores desconhecidos no Brasil, como o poeta judeu vienense Theodor Kramer — que nem na Alemanha é conhecido — ou a cantora romena Maria Tanase.

Se convida a reler “Massa e poder”, de Elias Canetti, Herta também conta um interessante encontro com o filósofo Emil Cioran, romeno como ela, que flertou com o fascismo e depois se distanciou do convívio humano no exílio de Paris, largando inclusive a própria língua. No breve ensaio, a Romênia é definida como o “país do fracasso universal”, e, quando Cioran vai procurar Herta, cai e esfola o joelho, para em seguida dizer: “Eu a procuro e já caio, logo sou romeno.” Cioran, cético, defende o absurdo de toda e qualquer ação e, velho, se pergunta como poderá lutar, na condição de “mero” espírito que é, contra o corpo, para que os órgãos não abdiquem da vida.

Um dos ensaios mostra, inclusive, como nasceu “Tudo o que tenho levo comigo” e o trabalho com o poeta Oskar Pastior, que inspirou o personagem central do romance, assim como o perdão que a autora lhe concede depois de descobrir que também ele foi espião. Ela o julga e não condena, benévola, enquanto Mircea Dinescu, poeta romeno igualmente prejudicado pela Securitate, defendeu Pastior desde o início, chegando a dizer que era bom que ele estivesse morto para não vivenciar seu desmascaramento.

A coletânea apresenta um passeio pelos traumas pessoais da autora (o pai que serviu à SS, e a revelação de que só começa a escrever depois da morte dele), diretamente vinculados aos traumas romenos no século XX. As armadilhas da Securitate para cooptar espiões com as piores violências morais aparecem sobretudo em “Cristina e seu simulacro”, o mais longo dos ensaios do livro. Ali vê-se que a polícia secreta continua viva bem depois do fim da ditadura de Ceausescu e que Herta encara seus próprios autos como um texto surrealista, se perguntando quanta coisa perigosa foi destruída nos dez anos de discussão antes do começo da investigação de um Estado em que quase todos eram espiões. Há gavetas que continuam trancadas, gavetas que ninguém quer abrir, gavetas que precisam ser abertas, os brasileiros também deviam sabê-lo.

O ensaio que abre o volume é o discurso de Herta em agradecimento ao Prêmio Nobel. Ele já mostra o amor da autora às palavras, que desde o princípio significam um refúgio redentor ante a dureza da realidade. Em uma frase genial, na qual se refere aos colegas de trabalho, animais de rebanho, Herta diz: “No fundo, eles me puniam porque eu os poupava.” O espaço para o lirismo está presente até nos títulos dos ensaios: “Na beirada da poça cada gato tem um jeito diferente de pular”.

Marcada pelo medo e pelo dilema entre ficar e partir

Mas a poesia também sabe ser terrível, por exemplo quando a neve registra passos que não podem mais ser apagados e o esconderijo da mãe é descoberto, levando-a aos campos de trabalho forçado da União Soviética junto com Pastior — afinal, ambos eram descendentes de alemães e, portanto, perigosos. Tanto a mãe quanto o poeta sobrevivem, mas marcados para sempre. Quando Herta deixa o país, a mãe, que merece vários monumentos mínimos na obra, inclusive percebe que é “sempre a mesma neve”, e esboça o conceito de “Schneeverrat”, a “traição da neve” desvendada numa única palavra. 


O tio espiando na esquina também parece sempre o mesmo, e a coletânea traça o caminho que levou a pastorinha de vacas num vale do interior romeno a chegar ao mundo, constituindo um inventário do trauma e da formação. A escola do medo encarada na infância marcou a autora para sempre, assim como o eterno dilema entre ficar e partir, e a dificuldade de chegar quando a fuga se tornou necessária. Herta jamais mostrou pruridos diante de si mesma, sempre se indigna poeticamente, e em seus ensaios mostra a mesma confiança tocante no vigor da palavra, deixando claro que toda a dignidade, toda a ternura do mundo podem dormir num simples lenço, a metáfora mais perfeita da solidão humana. 

*Marcelo Backes é escritor, professor, tradutor e ensaísta; doutor em germanística e romanística pela Universidade de Freiburg (Alemanha); autor de “Estilhaços” (2006), “maisquememória” (2007) e “Três traidores e uns outros” (2010)

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