O “cemitério feliz” da Romênia

Por Rodrigo Menezes, 27/08/2012

“Trácios e bogomilos: não posso me esquecer que habitei suas paragens, que uns choravam pelos recém-nascidos e os outros, para inocentar a Deus, acusavam Satã pela infâmia da Criação” (Cioran, De l’inconvenient d’être né). Sobre os primeiros, costuma-se dizer que, além de “chorar pelos recém-nascidos”, eles também viam a morte com alegria, como a libertação da alma e sua ida “desta para uma melhor”, como se costuma dizer em bom português.

A concepção platônica da alma — imortal, divina, superior ao corpo e separada dele —  não teria podido se desenvolver sem o concurso de elementos culturais estrangeiros, oriundos da Ásia e do Leste Europeu (especialmente da Trácia). Nossa concepção ocidental de alma é herdeira da concepção platônica que, por sua vez, é herdeira,entre outras fontes, das doutrinas órfico-pitagóricas. Cumpre lembrar que Dioniso está intimamente ligado a Zalmoxis (mencionado por Platão e Heródoto), divindade trácia da vida imortal. Heródoto afirmou que “os trácios acreditam que não morrem mas que, quando suas almas partem, elas retornam a Zalmoxis”.

No vilarejo de Săpânța, na província de Maramureș, ao norte da Romênia (na região da Transilvânia onde nasceu Cioran), encontra-se o chamado “Cemitério Feliz” (Cimitirul Vesel), que nos faz pensar nas antigas crenças trácias sobre a vida e a morte. O motivo do nome (tão paradoxal à nossa visão de mundo cristã) fica evidente pelas imagens do cemitério, que falam por si só: lápides alegremente coloridas e enfeitadas, onde se leem mensagens graciosas e brincalhonas sobre as pessoas que ali jazem (suas profissões, anedotas sobre suas vidas, etc.). É interessante perceber como a percepção da morte em questão contrasta com a gravidade solene com que nós, ocidentais, nos relacionamos com a morte.

Abaixo, a transcrição de duas lápides do cemitério:

 De cu tînăr copilaş
Io am fost Stan Ion Pătraş
Să mă ascultaţ oameni buni
Ce voi spune nu-s minciuni
Cîte zile am trăit
Rău la nime n-am dorit
Dar bine cît-am putut
Orişicine mia cerut
Vai săraca lumea mea
Că greu am trăit în easdSub aceasta cruce grea
Zace biata soacra-mea
Trei zile de mai traia
Zaceam eu si cetea ea.
Voi care treceti pa aici
Incercati sa n-o treziti
Ca acasa daca vine
Iarai cu gura pa mine
Da asa eu m-oi purta
Ca-napoi n-a inturna
Stai aicea draga soacra-mea
Desde que eu era um garoto
Era conhecido como Stan Ioan Pătraş
Escutem-me, companheiros
Não há mentiras no que vou dizer
Minha vida inteira
Não desejei mal a ninguém
Mas fiz o bem tanto quanto pude
A qualquer um que pedisse
Ó, meu pobre mundo
Pois foi duro viver nele.sdSob esta pesada cruz
Jaz minha sogra
Três dias mais ela teria vivido
Eu inclinaria, e ela leria (esta cruz).
Você, que aqui está passando
Não acordá-la por favor tente
Pois se ela voltar para casa
Vai me criticar mais.
Mas me comportarei tão bem
Que ela naõ retornará do inferno.
Fica aqui, minha querida sogra!
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