Post-Scriptum: o descontentamento de Cioran (C. Rosset)

– Nada tens a declarar?
– Sim, senhor, tenho a declarar… que estou longe de estar satisfeito!
Christophe, A ideia fixa do sábio Cosimus

O que chamo de o descontentamento de Cioran, na falta de um vocábulo melhor que poderia ser “in-contentamento”, se tal palavra existisse, é alheio a qualquer ressentimento, a qualquer razão de querer mal a alguma pessoa ou ser particulares. Ele tem por objeto a existência em geral e designa uma dificuldade aparentemente insuperável em aclimatar-se a ela – em filiar-se a ela, captar seu tom, sua dobra, para retomar os termos do próprio Cioran, cuia escritura sabiamente colorida diz sempre e necessariamente mais dela, no vivo dos pontos sensíveis, do que uma análise abstrata pode relatar. Definirei sumariamente esse descontentamento como o sentimento da insignificância, o pensamento permanente – pensamento que se esquece às vezes, mas que nunca se expulsa nunca, pois ele volta, invariavelmente, a se insinuar para a consciência no momento em que se estaria tentado a se deixar conquistar por urna alegria do mundo – da igual e morna insignificância de qualquer coisa… [+]

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