“Da Sensação de Elasticidade quando se Marcha sobre Cadáveres” (Matéi Visniec)

Da Sensação de ElasticidadeÉ Realizações, Coleção Matéi Visniec, 2012 (site oficial da editora)

Tradução: Luiza Jatobá

Número de Páginas: 168

É possível colocar os artistas e os poetas na prisão; mas, independentemente do que seja feito, não se pode silenciar sua capacidade de transcender às proibições para recuperar-se, à sua maneira, da enorme incongruência da situação.

Numa Romênia comunista em que o absurdo cotidiano competia com o teatro do absurdo, as prisões do stalinismo à maneira romena não fugiram à regra.

Matéi Visniec quer homenagear aqui um dos seus mentores, que lhe mostrou, sem saber, a liberdade absoluta de escrever e um antídoto contra o medo. Mais que qualquer sistema filosófico ou livro de sabedoria, foi Eugène Ionesco quem o ajudou a compreender o homem e suas contradições, a alma humana, a vida e o mundo.

Trecho do livro:

Era uma vez um rei de um país que não tinha nome. O reizinho também não tinha nome. E o rei, como era baixinho, não suportava que seus súditos fossem maiores do que ele. Então, quando o rei passeava pelas ruas, as pessoas tinham que andar pelas valetas, pois assim o rei parecia maior.

Mas o problema é que o rei estava encurtando. Cada dia que passava, diminuía um milímetro. Não era muito, mas nem por isso deixava de aborrecer. E o povo da cidade era obrigado a cavar valetas ainda mais profundas ao longo das ruas para poder andar sem se fazer decapitar.

Logo o rei se tornou bem pequenininho e as valetas, valas muito fundas. Quando o rei passeava pela cidade, ele praticamente não via mais seus súditos, já completamente engolidos pela profundidade dos canais. Assim estava feliz. Como não podia mais comparar seu tamanho com o de seus súditos, ele não via mais a que ponto ele tinha ficado minúsculo. Assim diminuto, um dia uma gota de chuva caiu por acaso exatamente sobre a cabeça do rei e esmagou-a. O rei não existia mais, mas os súditos continuaram a viver em valas profundas. Por que, não saberia dizer, minha criança.

(Matéi Visniec, “Da Sensação de Elasticidade Quando se Marcha sobre Cadáveres”)

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