Javé não é amor (Harold Bloom)

284615_detalhe1Na verdade, o cristianismo e o islamismo, bem como as religiões asiáticas, herdarão a Terra que restar, que sobreviver ao ataque ao meio-ambiente perpetrado pela plutocracia norte-americana. Sou levado a concluir que Javé partiu em exílio voluntário, abandonando a Antiga Aliança, e se encontra no espaço sideral, amargando o desamor.
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Não faz muito sentido dizer que “Javé é amor”, ou que devemos amar Javé. Ele não é, nunca foi e mais será amor. Muitos, se não a maioria, de nós, em algum momento, nos apaixonamos por alguém que não é capaz de aceitar amor, nem de retribui-lo, embora ele ou ela talvez exija amor, mesmo que somente como devoção ou respeito.
[…]
307072383_d2029dde8c_zSabemos que, para muito de nós, Javé continua a ser a resposta mais acertada para uma pergunta angustiante: “Quem é Deus?” Um budista, um hindu ou um taoísta não concordaria, tampouco muitos cristãos, muçulmanos e judeus, mas a minha resposta é a de um crítico literário, e se fundamenta na força e no poder da única personalidade literária que, tratando-se de vivacidade e notoriedade, ultrapassa até Hamlet, Falstaff, Iago, Lear e Cleópatra. Traduzindo a questão em termos religiosos, o Javé de “J” é a representação mais convincente de alteridade transcendental que já encontrei na vida. E, no entanto, Javé não é apenas “antropomórfico” (termo inútil!), mas é mesmo absolutamente humano, e não é, de maneira alguma, um sujeito agradável — e por que deveria sê-lo? Não pretende se candidatar a cargo político, não busca a fama nem almeja receber tratamento favorável por parte da mídia. Se o cristianismo insiste que Jesus Cristo é a boa nova (asserção tornada inválida pela brutalidade dos cristãos ao longo da história), então Javé é a “má nova” encarnada, e a Cabala nos diz que ele, com toda a certeza, tem um corpo, um corpo imenso. É algo terrível cair nas garras do Javé vivo.

(Harold BLOOM, Jesus e Javé – Os Nomes Divinos, São Paulo: Objetiva, 2006)

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