A alegria inaudita de Cioran (José Thomaz Brum)

JOSÉ THOMAZ BRUM – ESPECIAL PARA A FOLHA

Folha de S. Paulo, Caderno Mais!, domingo, 2 de julho de 1995

Rue Garancière, rue Saint-Sulpice, rue de l’Odéon -quantas vezes não rememorei este trajeto que tanto significou para mim? Era 1990, fevereiro, estávamos- eu e Katia (Muricy) em Paris, rue de Vaugirard. A chegada fora tumultuada e trouxera um problema inesperado: Katia perdera a sua mala, aquela com todas as roupas e documentos importantes.

O estado de espírito não era lá muito animador. Tensão, nervosismo, comprometiam o início daquela temporada parisiense. Inscrito em Nice para um doutorado, resolvera residir em Paris, perto daquele a quem considerava um “amigo longínquo” e de quem já traduzira duas obras, “Exercícios de Admiração” e “Breviário de Decomposição”.
Uma tarde em que saíra para tentar resolver a questão da mala, Katia recebe um telefonema, o primeiro nosso em Paris; Cioran, o próprio, com a solicitude e afeto que ainda desconhecíamos, nos intimava a jantar em sua mansarda naquela noite mesma. Por razões diversas, não pudemos ir. Mas, na noite seguinte, seguindo suas instruções (código de porta etc.) subimos as escadas daquele prédio antigo, mais ou menos às oito da noite. No quinto andar, de braços abertos e expressão luminosa, Cioran nos aguardava.

Seguiu-se uma cena inesperada: Cioran, sabendo de nossa mala extraviada, nos deu roupas e um jantar digno de um príncipe. Em sua mansarda diminuta, Cioran e Simone Boné (sua companheiro há mais de 40 anos) recebiam como em um palácio. Despojados, altivos e cheios de cumplicidade com o casal de estrangeiros recém-chegado. Este momento -isento de formalidades, repleto de um calor gratuito- marcou todos os dias de nossa relação em Paris.

A editora Rocco, do Rio de Janeiro, havia comprado os direitos dos “Silogismos da Amargura”. Aproveitei esta estada em Paris para traduzi-los juntamente com Cioran. Os encontros -regados a “jus de pomme- eram geralmente sexta-feira à tarde. Traduzia em casa duas ou três páginas e depois ia para a mansarda ler em voz alta minha versão e discutir as nuances e o peso de cada adjetivo ou expressão.

Cioran, com uma generosidade e interesse autênticos, falou de sua admiração por Antero de Quental e extasiou-se com a “virgindade” de Fernando Pessoa. Sua verve sutil, sua poesia onipresente sempre davam um aspecto meio intemporal a esses encontros. Fazia questão de ressaltar uma cumplicidade que sentia de fato, talvez por -romeno- sentir-se próximo daquele latino-americano que chegava a Paris um pouco perplexo, como ele em 1937.

Além das reuniões específicas de tradução houve jantares onde Cioran brilhava com seu humor “non-sense”. Houve uma noite em que estávamos, eu, Katia, Lidia Breda (que dirige uma coleção na editora francesa Rivages) e Christiane Frémont (tradutora de algumas de suas obras romenas).

No ar, nas conversas daquela noite, o espírito dos salões do século 18 que Cioran tanto admirava. Algo de Julie de Lespinasse, um tanto de Madame du Deffand. Cioran, o cético mais radical, o niilista menos autocomplacente, sabia, na intimidade, ser um “causeur” admirável. Envolvia seus convidados, discorria sobre Shakespeare, encantava com uma “joie de vivre” paradoxal e inaudita.

A mansarda de Cioran estava cheia de livros espalhados pelo chão. Edições antigas de Endre Ady -o grande poeta húngaro- acomodavam-se ao lado de livros de gnose, Herder e algum dicionário de inglês ou de latim. Cioran recebia muitos livros -de escritores novos ou de editoras que o presenteavam.

Ele os deixava pelo chão, amontoados, e os dava aos amigos como quem distribui bens efêmeros. Eu próprio ganhei um exemplar das “Confissões” de Santo Agostinho que provavelmente o acompanhara durante muitos anos. De nossa parte, recebeu um exemplar francês de “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, (presente de Katia), que apreciou sinceramente.

Não foram poucas as conversas “tête-a-tête” com este apátrida cheio de vivacidade. Tinha 79 anos, mas suas “boutades” eram rápidas como as de um rapaz. Falou de Spengler, de como ninguém o lia mais hoje, e de como a decadência do Império Romano se assemelhava à européia, com seus bárbaros muçulmanos se espalhando por uma Paris mestiça e, às vezes, perigosa.

Falou de Léon Chestov, o pensador russo que tanto o marcou, do pesar de não havê-lo conhecido. Falou -por iniciativa e curiosidade- de sua admiração por Vassily Rozanov, o panfletário místico que o influenciou com seus aforismos instantâneos e acompanhados do local e circunstância da escrita (ex: “escrito no trem”, “escrito tarde da noite”).
Para este romeno que fizera do sexto “arrondissement o seu jardim, Paris era uma “cidade maldita” (como me disse certa vez ao telefone). Paris era “maldita”, compreendi melhor depois, porque era seu calvário e seu lugar de eleição. No jardim de Louxembourg, muito perto de sua rue de l’Odéon, passeava frequentemente com suas idéias negras e sentimentos de tédio desolador e incurável.

Uma das histórias mais curiosas que ouvi de Cioran foi a que se referia a uma de suas viagens, na década de 60, pela Inglaterra. Um dia, na porta de um bar, parara encantado ouvindo uma música de uma “juke-box”: “A Whiter Shade of Pale”, do Procol Harum. A introdução ao órgão era tirada de Bach, o “deus” de Cioran. Repetiu a música diversas vezes, fazendo eco ao aforismo de “Écartèlement” (1979): “Em música, em filosofia e em tudo, amo o que incomoda pela insistência, pela recorrência…” A música -Brahms, Schumann, Schubert- sempre acompanhou o ceticismo do filósofo como um contraponto necessário.

Cioran pertencia a uma estirpe hoje extinta. Além de amigo e compatriota de Ionesco e Mircea Eliade, sua alma artística e filosófica estava do lado de um Borges, de um Michaux, de um Beckett. Tendo se afirmado, por um talento ímpar de escritor, em uma língua estrangeira, Cioran trazia a ironia e a distância do não-europeu, o pesar de haver nascido alhures -como nós, brasileiros- em algum “subúrbio do globo”.

Mas também falou com carinho de sua infância, dos “camponeses analfabetos” e, dizia rindo, que aceitara ingressar na Academia Romena de Letras (recusara-se a entrar na francesa, embora muitas vezes convidado) porque “não se pode renunciar a tudo”.
Acostumara-me, nas cartas que me enviava desde 1988, a esta verve instantânea, a seu humor às vezes cortante. “O ser ideal? Um anjo devastado pelo humor”, dissera em um de seus livros. Mas este eremita fechava-se a qualquer assédio em que percebesse adulação ou lisonja interesseira. Ele, o grande estilista, gostava de compartilhar conivências silenciosas e comunhões gratuitas. Quando, por hesitação ou emoção, eu demorava para completar uma frase em francês, Cioran encerrava o constrangimento com um “já entendi” amistoso e encorajador.

Falamos de Schopenhauer, de Sartre com quem esbarrava no Café de Flore na época da guerra; falamos de muitos autores, sobretudo do passado. Saint-Évremond, perguntei certa vez, você o praticou muito, não? Um pouco só, respondeu rindo. “As pessoas que não se expressam literariamente são as mais ricas, sempre afirmou, acentuando o abismo onde se encontrava.

Sua morte, que já esperava com tristeza pois sabia de seu estado, priva o Ocidente de um de seus maiores pensadores e a Europa de seu último poeta elegíaco. Seu pessimismo, temperado por um ceticismo refinado, era a maior prova de uma superabundância espiritual e expressiva. Sua energia, que se traduzia em negações veementes, era reflexo de um caráter vigoroso e de uma alma exaltada.

Havia raiva em Cioran -em suas obras ácidas e crepusculares. E também uma vitalidade enorme, desmedida: eco dos Balcãs que o rigor herdado dos moralistas franceses filtrou em uma mistura sábia e tonificante. “Não há razão para não ser triste”, disse em “Cartea Amagirilor” (“O Livro dos Logros”, 1936).

Neste momento, em que se perde um grande amigo, só me ocorre citar, com o dicionário na mão, o sentido da palavra romena “dor”: desejo ardente, nostalgia, saudade…

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