Cioran e um professor de filosofia cego (Matéi Visniec)

Os Desvãos Cioran ou Mansarda em ParisProjeção no telão: imagens da Sorbonne.

As imagens se esfacelam e desaparecem, mas o anfiteatro permanece como cenário: um estrado, uma cadeira sobre estrado, um quadro negro, etc.

Com seu bastão na mão, o cego do telescópio entra. Com o telescópio debaixo de um braço, o tripé debaixo do outro, ele arrasta também com ele uma velha pasta de professor universitário. Com a ajuda da bengala branca, ele tateia, de uma maneira bem confusa o chão e os objetos qeue se encontram diante dele.

Caminhando em direção à cadeira, ele a derruba, quase cai várias vezes, deixa cair o telescópio no chão, etc.

Enfim, ao chegar atrás da cadeira, abre sua pasta e tira dela vários livros. Fixa o tripé e monta o telescópio, que aponta para os espectadores.

O cego do telescópio se torna o professor de filosofia cego.

O PROFESSOR DE FILOSOFIA CEGO: Bom dia a todos. Começamos hoje, então, nosso curso de filosofia contemporânea. E vamos durante 3 meses tratar de Cioran.

(Val ao quadro-negro, procura o giz, escreve no quadro o nome “Cioran”. Tenta colocar o giz na borda do quadro, mas o giz cai no chão.)

Bem, o que eu proponho é utilizar um termo que tem mais a ver com a geografia, quer dizer, o termo “precipício”, para melhor entender o método filosófico de Cioran. “Precipício — depressão natural muito profunda com escarpas muito íngremes.” Isso é o sentido próprio da palavra. Mas a palavra “precipício” também tem um sentido figurado que quer dizer “perigo”, “desastre”.

Vejam vocês então o que representa o pensamento de Cioran, no sentido próprio e no sentido figurado, na paisagem da filosofia contemporânea. É um pensamento que dá vertigem. Se vocês ainda não experimentaram a sensação de vertigem, subam ao último andar da torre Montparnasse, saiam no terraço, subam no parapeito, fiquem de pé no parapeito e olhem a rua embaixo. Vocês então passarão a compreender a verdadeira natureza do pensamento de Cioran. Isso lhes dará uma percepção física da profundidade do espirito do senhor Cioran.

Portanto, o pensamento de Cioran se apresenta como um vasto abismo espiritual. Um abismo sem fim, um verdadeiro buraco negro que, há meio século, detona e devasta tudo, todas as ideias do Ocidente e do Oriente, todas as verdades e inverdades, todos os preceitos morais e todos os marcos axiológicos… Tudo passa pela peneira do senhor Cioran… As utopias, as religiões, as tradições, as mentalidades, as doutrinas, as ideologias… Escutem um pouco este tipo de assobio que aumenta de intensidade cada vez que a gente emite uma ideia nesse anfiteatro… Vocês o escutam? (Escuta-se mesmo um assobio. Parece que um vento forte abriu a janela, e as cortinas são levadas para fora.) Isso é o pensamento de Cioran, é o abismo do método crítico de Cioran que está nos levando e nos destruindo a todos, neste momento.

(Ele procura a garrafa de agua, enche o copo, dá um gole. Coloca o copo na mesa, mas ele vira. Coloca a garrafa na mesa, mas ela vira. A água derramada molha os livros. Tenta salvá-los, mas eles já estão molhados.)

Mesmo a palavra “sistema” lhe dava ânsia de vômito… É por isso, aliás, que ele tomou o cuidado de dinamitar as contradições insuportáveis do seu próprio pensamento. Toda a sua reflexão é um campo minado. Quer dizer que ele se diverte dizendo uma coisa e, dez ou quinze páginas depois, ou dois ou três anos mais tarde, diz o contrário. Assim é Cioran. Diz sempre o contrário de tudo, mas com um método diabólico, para nos impedir de apreender o essencial de seu pensamento. Na verdade, ele zomba de nós, mas com tamanha graça, meu Deus, com que graça!

(Irritado de constatar que os livros estavam irremediavelmente estragados, ele os joga no lixo.)

(A porta se abre. Um vento forte invade a cena e derruba uma cadeira; dezenas de páginas voam no ar. Humilde, olhar vago, Cioran entra.)

CIORAN: Bom dia, desculpe, não quero incomodar… Procuro o restaurante, o restaurante universitário…

(Matéi VISNIEC, Os Desvãos – Cioran ou a Mansarda em Paris com Vista para a Morte)Os Desvãos Cioran ou Mansarda em Paris

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