Uma homenagem subjetiva… (Matéi Visniec)

Não conheci Cioran pessoalmente. Aliás, nem mesmo tentei, já que sua obra me parecia suficiente para que eu pudesse me comunicar e dialogar com ele tendo toda liberdade e da maneira mais cordial.

Mas, por curiosidade, fui ouvir Cioran, que devia se apresentar num colóquio sobre Benjamin Fondane. Foi em 1988, creio. Escutei a intervenção de Cioran em francês e fiquei bastante tocado pelo fato de que naquele que era considerado pela crítica um mestre incontestável da língua francesa ainda transparecia um leve sotaque romeno.

Alguns anos mais tarde, na saída de um recital de piano dado por um artista romeno na Sorbonne, alguém me apresentou a Cioran. Demos um aperto de mão mas não trocamos uma só palavra.

Então gostaria de precisar que minha peça, que tem como personagem principal Cioran, é um encontro subjetivo e imaginário do autor Matéi Visniec com o filósofo Emil Cioran. Depois de sua morte, Emil Cioran se tornou para mim um personagem disponível. Quando era vivo, Cioran soube construir para si uma mansarda sobre o teto daquele edifício tão requerido, chamado de patrimônio cultural da humanidade.

Como personagem, ele continua a habitar em sua mansarda imortal e continua a nos intrigar e a nos incitar a pôr em questão todas as ideias recebidas.

Consequentemente, todas as personagens dessa peça (com uma nuance no que diz respeito a Cioran) são fictícias. Toda eventual semelhança com pessoas reais, vivas ou mortas, será inteiramente fruto do acaso c do jogo de puras coincidências.

Esta peça se quer uma homenagem subjetiva a Cioran, não obstante ela extraia sua matéria-prima do pensa-mento e das ideias do grande filosofo. As alusões não podem ser colocadas entre aspas, mas os conhecedores identificarão rapidamente, nesta peça, as fontes cioranianas de certas falas. Para os que não conhecem em profundidade a obra de Cioran, esclareço que minha peça está impregnada de numerosas ideias desenvolvidas por ele sobre unia grande diversidade de temas, começando pelo suicídio e acabando no destino do povo romeno. Entretanto, no meu trabalho de escrita, durante a construção das minhas réplicas, evitei empregar “palavra por palavra” as frases de Cioran. E, quando a lógica da peça me obriga de todo modo a utilizar as palavras dele, estas foram colocadas entre aspas, e as personagens especificam que se trata de verdadeiras citações.

Fora a obra de Cioran e suas entrevistas, vários artigos e livros sobre Cioran me foram de grande utilidade c, por isso, vou citá-los aqui. Testemunhos interessantes e reflexões sutis sobre o homem Cioran, conto, por exemplo, os assinados por Gabriel Liiceanu, Simona Modreanu, Marta Petreu, Mihai Sora, lon Vartic ou Simone Boué, me ajudaram a construir a situação dramática e a “colorir” a personagem.

Estes são os livros que permaneceram na minha mesa de trabalho durante o período em que escrevi a peça:

— Lectures de Cioran. Textos reunidos por Norbert Dodille c Gabriel Liiceanu. Paris, Éditions L’Harrnattan, 1997.

— Déclarations d’Amour, de Gabriel Liiceanu. Bucarest, Editions Humanitas, 2001.

— Cioran Naif et Sentimental, de Ion Vartic. Cluj, Editions Biblioteca Apostrof, 2000.

Este conjunto de fontes, que se encontra na minha sala, deve ser completado pelas revelações ligadas ao grande amor de outono de Cioran: Friedgard Thoma. A revista Seine et Danube, editada em Paris e que dedicou seu primeiro número a Cioran, me trouxe inúmeras informações sobre esse assunto, mais especialmente graças ao artigo assinado por Dieter Schlesak com o titulo de Je m’Ennuie de Toi — Les Lettres d’Amour de Cioran à une Allemande (Tenho Saudades de Você — As Cartas de Amor de Cioran a uma Alemã).

Matéi Visniec, Os Desvãos Cioran – Cioran ou Mansarda em Paris com Vista para a Morte, tradução de Luiza Jatobá, São Paulo: É Realizações, 2012.

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