Alain Finkielkraut comenta “Transfiguração da Romênia”

Finkielkraut: «Para Cioran, esse livro era uma vergonha»

Dois livros de Cioran, «Transfiguration de la Roumanie» et «De la France» são traduzidos pela primeira vez. Alain Finkielkraut comenta esses textos de juventude.

Le Figaro (02/04/2009)

Já se sabia sobre o autor de «A Derrota do Pensamento» que ele é um leitor apaixonado da obra de Cioran. Alain Finkielkraut considera esse romeno tornado apátrida um dos maiores escritores de língua francesa do século XX. À ocasião do lançamento [na França] de “Transfiguração da Romênia”, livro sulfuroso publicado em Bucareste em 1936, e traduzido integralmente pela primeira vez em francês, Finkielkraut esclarece as grandezas e as contrariedades de uma obra em parte fundada sobre a revogação de uma fascinação inicial pelo totalitarismo.

LE FIGARO LITTÉRAIRE – Qual foi a sua reação à leitura de «Transfiguration de la Roumanie» ?

Alain FINKIELKRAUT – Eu já tinha lido alguns trechos, notadamente os mais duvidosos, no ensaio demasiado crítico que Alexandra Laignel-Lavastine consagrou a Cioran, Eliade e Ionesco. Descobrindo a tradução integral de Transfiguração da Romênia, compreendi melhor o papel desse livro no conjunto da obra de Cioran. Os “redentores do passado”, que são muitos hoje em dia, denunciam uma espécie de disfarce. Cioran teria dissimulado um pecado original. Ele teria ocultado esse pecado para vender a um Ocidente ingênuo uma imagem aceitável. Pessoalmente, penso que não se trata de um disfarce, mas de uma conversão. Para Cioran, esse livro de juventude – eu diria, mesmo, de adolescência – é uma vergonha. É assim que Transfiguração da Romênia o acabou levando a desconfiar de si mesmo. A epígrafe do Breviário de Decomposição, tirada de Richard III, de Shakespeare, é reveladora: “I’ll join with black despair against my soul, and to myself become an enemy”. Cioran expiou os seus entusiasmos, converteu-se à forma elegante contra a força elementar, converteu-se ao ceticismo, ao desespero, e escreveu em francês. Ele escolheu a França não como cidadania, mas como língua, para se liberar do instinto. Em Transfiguração, ele escreve: “Seria necessário suprimir todos aqueles que não são consumidos pela consciência de uma missão”. No Breviário de Decomposição, ele mostra como podem tornar-se sanguinários os homens possuídos por essa crença.

LE FIGARO LITTÉRAIRE –Você fala de um pecado de juventude. Qual falta contra o espírito o teria levado a ceder à tentação fascista? O culto do irracional, o vitalismo niilista, o anti-humanismo, o historicismo? Ou talvez o desespero?

Alain FINKIELKRAUT – Para retomar o diagnóstico do próprio Cioran, eu diria que o seu pecado de juventude é a juventude como pecado. Em um texto do início dos anos 50, Cioran escreve: “Quando eu era jovem, toda a Europa acreditava na juventude. São os jovens que promovem as doutrinas de intolerância e colocam-nas em prática, são eles que têm necessidade de sangue, de choro, de tumulto e de barbárie.” A mim me parece que Cioran mete o dedo na grande infelicidade do século XX. Uma infelicidade profetizada por Dostoievski naquela conversa de Os Demônios em que Piotr Verkhovensky pergunta aos conspiradores o que eles preferem: caminhar por um pântano a uma velocidade de tartaruga, ou atravessá-lo a todo vapor. Um “colegial entusiasmado” responde: “Eu preferiria atravessá-lo a todo vapor”. Cioran era esse colegial entusiasmado. Ele cedeu igualmente ao historicismo. Ele comenta essa ilusão nos seus cadernos: “Não exija de mim que eu creia que a História possui uma finalidade e a Humanidade, um porvir. O homem passará de dificuldade em dificuldade, e será assim até que ele expire.” Por tudo isso, pode-se ver que toda a sua obra é uma meditação crítica sobre esse delírio inaugural.

LE FIGARO LITTÉRAIRE – Como você explica a aquiescência de Cioran ao preconceito anti-semita?

Alain FINKIELKRAUT – Na origem do seu anti-semitismo, eu vejo primeiramente a megalomania do cidadão de uma pequena nação, que diz a si mesmo: “Nós não somos nada e nós seremos tudo. Os outros falarão de nós custe o que custar.” Sem dúvida, a megalomania de uma pequena nação relegada às margens da história acaba nutrindo uma inveja em relação aos judeus, um pequeno povo situado em plena luz. É possível sentir essa inveja em ação. Assim, mesmo que Cioran tivesse simpatizado com essa organização monstruosa que foi a Guarda de Ferro, ele mantém uma divergência fundamental em relação aos legionários: ele não imputa o marasmo romeno aos judeus. Ele não cede à facilidade da paranóia. Eis um elemento muito importante para compreendê-lo. Alguns o acusam, entretanto, de não haver mudado após a guerra. Ele teria permanecido obcecado pelos judeus e se contentado em inverter os signos, passando-os do negativo ao positivo. Essa inversão mesma testemunharia a sobrevivência de sua hostilidade fundamental. Para mim, isso não é verdade. Eu penso que haveria nessa fascinação pelos judeus algo que poderia preparar Cioran a prestar homenagem aos judeus. É a persistência do nome judeu que nutria a sua fascinação. Ele disse: “Os judeus não são um povo, mas um destino”.

LE FIGARO LITTÉRAIRE – Contrariamente aos acusadores de Cioran, você acredita na sua sincera e profunda conversão. Como explica esse movimento?

Alain FINKIELKRAUT – Cioran rompe com a tentação totalitária quando se torna um escritor de expressão francesa e se inscreve, em pleno século XX, na linhagem dos moralistas clássicos. Os moralistas não são construtores de moral, mas pessoas que divulgam uma verdade dolorosa. Cioran junta-se aos moralistas a partir de 1941, através do texto pivotal intitulado “Sur la France”, que se descobre agora junto com Transfiguração. Trata-se de um livro escrito em romeno, mas o estilo já é francês, como se nota na tradução maravilhosa de Alain Paruit. No fundo, a resposta dos moralistas é a resposta daqueles que não se enganam com Rousseau. De um lado, está a idéia de estabelecer um regime perfeito que encontre uma solução política ao problema humano. E do outro, está uma lucidez inquieta que nos vacina contra essa tentação. O desespero de Cioran não o conduz necessariamente, de resto, a uma visão obscura da natureza humana. Eu me recordei de uma passagem extraordinária dos seus cadernos: “Ódio e acontecimento são sinônimos. Lá onde há ódio, alguma coisa acontece. A bondade, por outro lado, é estática. Ela conserva, interrompe, carece de virtude histórica, freia todo dinamismo. A bondade não é cúmplice do tempo, enquanto que o ódio é a sua essência”. Não se imagina Cioran fazendo esse elogio da bondade. E, no entanto, mesmo se ele foge da idéia de estabelecer um regime sem mal, permanece aquilo que Vassili Grossman chama de la petite bonté, la bonté sans regime (“a pequena bondade, a bondade sem regime”).

LE FIGARO LITTÉRAIRE – Para esclarecer os delírios de « Transfiguração », você mencionou a sobrevalorização da juventude. Ela se enche de anti-intelectualismo quando Cioran escreve numa carta: “A salvação não está nas bibliotecas”. Em vez de der tempo com os “redentores do passado”, não faríamos melhor se nos inquietássemos ao ver esse anti-intelectualismo novamente em cena?

Alain FINKIELKRAUT – O anti-intelectualismo é o grande mistério do século XX. A apologia da ação e da força vital, a vida como expansão, eis o fascismo por excelência. Mas encontramos, por outro lado, a mesma forma de hostilidade ao intelecto, que apareceu pela primeira vez entre os populistas russos quando diziam: “um par de botas vale mais do que Shakespeare”. Esse anti-intelectualismo que não é feroz, mas em aparência generoso, consiste em pensar que a história não é feita pelos intelectuais, mas pela luta dos homens entre si. O anti-intelectualismo contemporâneo é diferente. Ele surge não da imediatidade do instinto, como no caso do jovem Cioran, mas da imediatidade da técnica. No universo midiático do tempo real, nenhuma meditação é necessária, nenhum esforço mais, nenhum saber, nenhuma biblioteca, nenhuma ascese. Tudo está aí, agora. Esta forma de anti-intelectualismo é particularmente perniciosa porque não é uma ideologia que no-la propõe, é uma tecnologia que no-la oferece.

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