Uma aula de Cioran: Palestra sobre nada, por Euler Santi

Palestra sobre Nada
Palestra sobre Nada

Entro no espetáculo. Uma sala escura. Uma Tocata de Bach tocando ao fundo. No palco, uma mesa e uma cadeira apenas. Cioran está sentado, com expressão consternada, olhando para o chão, certo ar de gravidade. Junto com o público, entro e sento numa das poucas cadeiras dispostas no hall de entrada da Casa das Rosas.  Cioran (que ainda fumava) pega um cigarro no maço em cima da mesa, mas não o acende. Levanta a cabeça, encarando o público. Vai começar uma palestra sobre nada (ou seria sobre o Nada?).

Enquanto leitor e estudioso da obra de Emil Cioran, fui assistir à peça concebida e encenada por Euler Santi com a expectativa nas nuvens. E não me decepcionei, muito pelo contrário. Para quem não conhece Cioran, uma excelente introdução ao pensador romeno. Para quem já o conhece, uma oportunidade única de ver Cioran interpretado por um talentoso ator.

Tarefa ousada e difícil, ao que me parece, realizar um monólogo baseado na obra deste pessimista jovial de modo que se transporte para o palco o tom, o timbre próprio do pensamento de Cioran, impactando o espectador do começo ao fim com suas sinfonias apocalípticas. Durante o espetáculo, não pude evitar a tentação de olhar para os lados para ver as expressões e as reações das pessoas a cada impropério, a cada blasfêmia, a cada invectiva contra Deus e o mundo, o Ser e o Nada, o homem e a história. Seus olhos pregados em Cioran, rostos abismados, perplexos, corpos tensos, nervosos.

O pessimismo corrosivo dá o tom do monólogo de um Cioran que parece se levar muito a sério, e que parece dar muito crédito às próprias ideias, o que talvez deixe escapar o lado cômico, frívolo, diletante do romeno, aspecto que, em todo caso, é muitas vezes difícil de ser apreendido mesmo nos escritos de Cioran. Os desavisados podem pensar que Cioran nunca ria. Ou talvez seja uma expectativa subjetiva da minha parte. Mesmo assim, inevitável ouvir risadas na plateia após um ou outro aforismo bombástico, transformado em comentário no meio do discurso.

Só a musica nunca é posta em dúvida, e em especial a de Bach. Ao término da trilha sonora inicial, Cioran começa: “Eu tive algumas paixões durante minha vida, mas de todas, a única que nunca diminuiu foi a minha paixão em relação ao compositor Bach. Sem Bach a teologia seria completamente desprovida de sentido e o nada seria decisivo; por isso eu acho que se alguém deve tudo a Bach, esse alguém é… Deus.”  Euler foi capaz de montar um texto com aforismos de Cioran e trechos de seus ensaios, como História e utopia, de modo que o classicismo da escrita cioraniana não soa artificial ou pedante no registro oral das artes cênicas; muito pelo contrário, o texto-base que estrutura a palestra é articulado por Euler de modo que se mostra dotado de uma espontaneidade, de uma organicidade admiráveis, como uma fala que poderia ter sido do próprio Cioran, externando seus pensamentos.

Enfim, Palestra sobre Nada, de Euler Santi, é uma excelente introdução aos textos de Cioran para os que ainda não o conhecem, e uma experiência cênica singular, pois perturbadora, que tem o mérito de Euler ter traduzido para a linguagem própria do teatro (no caso, um monólogo) passagens emblemáticas da obra de Cioran. Aliás, nenhuma palestra mais difícil do que Palestra sobre Nada, mas isso porque trata-se, antes de tudo, de uma obra difícil. Como deveria ser. Na atuação de Euler, Cioran convence.

Rodrigo Menezes, 07/02/2013

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