Aforismos temáticos: gnose

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Necessito do demiurgo como hipótese de trabalho. Prescindir dele equivale a não entender nada do mundo visível. 
(CIORAN, Cahiers)

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Agrada-me a observação bem-humorada de Donald Akenson: ‘Não posso crer que um indivíduo que goze de saúde mental possa gostar de Javé’. Mas, conforme acrescenta o próprio Akenson, isso é irrelevante, pois Javé é realidade. Eu iria um pouco adiante e identificaria Javé como ‘a prova da realidade’, segundo Freud, que se assemelha ao entendimento lucreciano do modo como as coisas são. Na condição de princípio da realidade, Javé é irrefutável. Todos temos de morrer, cada qual na sua hora, e não posso concordar com a crença farisaica de Jesus na ressurreição do corpo. Javé, tanto quanto a realidade, tem um senso de humor bastanter ácido, mas a ressurreição do corpo não é uma de suas piadas judaicas ou freudianas. (Harold BLOOM, Jesus e Javé: os Nomes Divinos)

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Solidão do ódio… Sensação de um deus voltado para a destruição, pisoteando as esferas, babando sobre o céu e sobre as constelações… de u m deus frenético, sujo e malsão; um demiurgo ejaculando, através do espaço, paraísos e latrinas: cosmogonia de delirium tremens; apoteose convulsiva em que o fel coroa os elementos… As criaturas se lançam na direção de um arquétipo de fealdade e suspiram por um ideal de deformidade… Universo da careta, júbilo da toupeira, da hiena e do piolho… Nenhum horizonte mais, salvo para os monstros e para os vermes. Tudo se encaminha para o repulsivo e para o gangrenoso: este globo que suspira enquanto que os viventes mostram suas feridas sob os raios do cancro luminoso. (“A negativa de procriar”, in: Breviário de decomposição)

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Nos estados de paroxismo sem causa, o cansaço é um delírio e o cansado o demiurgo de um subuniverso. (Silogismos da amargura)

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Diante de nós abre-se um vazio  que será preenchido por sucedâneos filosóficos, por cosmogonias de simbolismo, por visões duvidosas. O espírito se alargará com isso e englobará mais matérias do que costuma conter. Pensemos na época helenística e na efervescência das seitas gnósticas: o Império, por sua vasta curiosidade, abraçava sistemas irreconciliáveis e, à força de naturalizar deuses orientais, ratificava inúmeras doutrinas e mitologias. Assim como uma arte extenuada torna-se permeável às formas de expressão que lhe eram estranhas, um culto sem recursos se deixa invadir por todos os outros. Tal foi o sentido do sincretismo antigo, tal é aquele do sincretismo contemporâneo. Nosso vazio, no qual se amontoam artes e religiões disparatadas, clama por ídolos de alhures, já que os nossos já estão demasiado caducos para velar sobre nós. Especializados em outros céus, mesmo assim não tiramos deles nenhum proveito: saído de nossas lacunas, da ausência de um princípio de vida, nosso saber é uma universalidade de superfície, dispersão que pressagia a vinda de um mundo unificado no grosseiro e no terrível. Sabemos como, na Antiguidade, o dogma colocou um termo às fantasias do gnosticismo; adivinhamos em que certeza acabarão nossos desvarios enciclopédicos. A falência de uma época em que a história da arte substitui a arte e a história das religiões, a religião. (“Au delà du roman”, in: La tentation d’éxister)

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A história, espaço onde realizamos o contrário de nossas aspirações, onde as desfiguramos sem cessar, não é, evidentemente, de essência angélica. Ao considerá-la, só concebemos um desejo: promover a agrura à dignidade de uma gnose. (“Escola dos tiranos”, in: História e utopia)

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