As delícias do absurdo

Primeiro livro de Cioran ganha tradução feita diretamente do romeno

Manoel da Costa Pinto, Folha São Paulo, 08/04/2012

Em 2011, o centenário de nascimento de Emil Cioran foi comemorado com relançamentos pela editora Rocco: “Breviário de Decomposição” (1949), “Silogismos da Amargura” (1952), “História e Utopia” (1960) e “Exercícios de Admiração” (1986). 

Tais livros cobrem a fase madura do pensador romeno, quando ele adota o francês como idioma filosófico, deixando de lado os escritos de juventude. Essa lacuna começa a ser preenchida com o lançamento do livro de estreia, “Nos Cumes do Desespero”, publicado em 1934 e agora traduzido do romeno por Fernando Klabin.

Trata-se de livro fundamental para compreender as tensões internas da obra de Cioran. Afinal, sua “conversão linguística”, com “Breviário de Decomposição”, significou também o abandono dos ímpetos irracionalistas de “Nos Cumes do Desespero”, em nome de uma perspectiva cética, inclemente com utopias e dogmas.

Com sua escrita nervosa, oscilando entre o “spleen” romântico e o apelo às “forças irracionais da existência”, “Nos Cumes do Desespero” se inscreve no pensamento vitalista, que percebe a cisão entre o sujeito e uma totalidade perdida (de fundo mítico-religioso) e acusa toda a tradição filosófica de se refugiar na abstração.

Essa retórica do “caos primordial”, do êxtase vivido por uma elite espiritual apartada das massas e dos intelectuais de salão, explica as simpatias de Cioran por ideologias de extrema direita nos anos 1930.

A ironia trágica de “Nos Cumes do Desespero”, porém, já anuncia sua posterior renúncia a doutrinas de reforma social e sua entrega às “delícias do absurdo”. No prefácio à tradução francesa do livro (reproduzido na edição brasileira), Cioran diz ter encontrado na escrita a salvação para a insônia que o fazia vagar pelas noites de Sibiu, na Transilvânia: tinha início aí uma mitologia pessoal em que a “lucidez vertiginosa” e a “vigília ininterrupta” engendram o cético, triunfando sobre as “vertigens do apocalipse” do jovem que sonhava acordado com a agonia do mundo.

Conexões

LIVRO
NOS CUMES DO DESESPERO ****
AUTOR: Emil Cioran
TRADUÇÃO: Fernando Klabin
EDITORA: Hedra (154 págs., R$ 38)

LIVROS SILOGISMOS DA AMARGURA ***
Os pensamentos concentrados em frases breves e lapidares servem de contraponto ao jorro retórico da fase romena de Cioran.
AUTOR: Emil Cioran
TRADUÇÃO: José Thomaz Brum
EDITORA: Rocco (2011, 112 págs., R$ 19)

AS SEIS DOENÇAS DO ESPÍRITO CONTEMPORÂNEO **
Interlocutor de Cioran, o pensador romeno se manteve fiel à perspectiva antimoderna de uma sabedoria antiga.
AUTOR: Constantin Noica
TRADUÇÃO: Fernando Klabin e Elena Sburlea
EDITORA: BestBolso (2011, 192 págs., R$ 14,90)

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