Sobre Valéry: carta de Cioran a M. Barrett

Paul Val√©ryAo final de 1967, a funda√ß√£o americana Bollingen, tendo decidido publicar uma edi√ß√£o inglesa das obras de Val√©ry, encarrega Jackson Matthews, tradutor de Monsieur Teste, de estabelecer sua vers√£o definitiva. Este √ļltimo pede ent√£o a Cioran um pref√°cio ao volume dedicado a Poe e a outros coment√°rios liter√°rios. Esse pref√°cio, que, remodelado, tornar-se-ia ‚ÄúVal√©ry diante de seus √≠dolos‚ÄĚ (em Exerc√≠cios de admira√ß√£o), ser√° recusado por Jackson Matthews, pois, aparentemente, muito embora o motivo da recusa n√£o tenha sido dado, era muito cr√≠tico. ¬†Bastante encolerizado, Cioran redige ent√£o uma carta destinada a M. Barrett, o diretor da funda√ß√£o, para explicar suas raz√Ķes. Reproduzimos aqui esse texto in√©dito. (Patrice Bollon)*

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E. M. Cioran

Rue de l’Odéon, Paris, 6e

Paris, 20 de março de 1968

Caro senhor Barrett,

Creio ser o meu dever o lhe dar algumas explica√ß√Ķes a prop√≥sito do meu pref√°cio. Jackson me havia dito, em Paris, que queria alguma coisa pessoal que suscitasse rea√ß√Ķes, lhe respondi que era assim que eu o imaginava e que meu pref√°cio seria tudo menos neutro. Ele n√£o o √©, e chega a ser inclusive bastante duro em alguns momentos, maldoso, eu o reconhe√ßo, e eis por qu√™: eu pratiquei Val√©ry bastante outrora, e com uma admira√ß√£o fervente; essa admira√ß√£o foi pouco a pouco diminuindo durante esses dois √ļltimos meses em que eu o reli. Eu n√£o lhe esconderei que encontrei nele bastante pretens√£o, bastante saber duvidoso, incompet√™ncia e pose: um frasista com g√™nio e nada mais, assim me pareceu. Eu pensava que n√£o era necess√°rio diz√™-lo a voc√™ e que, por amizade a Jackson, eu deveria poup√°-lo – numa palavra, mentir. E ent√£o, deixei-me levar e, por fim, a verdade triunfou sobre a amizade. Devo acrescentar tamb√©m que, normalmente, eu teria escrito um texto bem menos severo; mas o infort√ļnio quis que eu relesse Val√©ry ap√≥s ter sofrido por algum tempo uma feliz intoxica√ß√£o pela filosofia hindu.

Seria igualmente deselegante da minha parte enumerar os motivos que levaram Jackson a recusar meu pref√°cio. Em todo caso, teria sido o seu dever exigir que eu adocicasse algumas partes, que eu fizesse algumas retifica√ß√Ķes; eu teria consentido, mas por nada neste mundo eu teria mudado o fundo. Ou ent√£o teria havido outra solu√ß√£o: solicitar um contra-pref√°cio, de modo a suscitar uma discuss√£o e despertar o interesse…

Mas n√£o pretendo me perder em recrimina√ß√Ķes. √Č perfeitamente natural que eu seja sacrificado j√° que eu ousei denunciar um falso deus.

Creia, Monsieur Barrett, em meus muito fieis afetos,

CIORAN

* Carta publicada na revista francesa Magazine Litt√©raire n¬ļ 327 (dossi√™ “Cioran – aristocrate du doute”), em dezembro de 1994. Tradu√ß√£o do franc√™s: Rodrigo Menezes (03/08/2013)