“La morale dans l’écriture: Camus, Char, Cioran”, de Michel Jarrety (prefácio)

JARRETY, Michel. La morale dans l’écriture: Camus, Char, Cioran

Saímos agora de uma época em que a disjunção radical do autor e da obra conduzia a enxergar a relação do autor com o mundo, no que concerne ao essencial, apenas sob a forma de um engajamento que, justamente, o desligava em grande medida daquilo que o havia feito escritor, e que o estabelecia entre os intelectuais. O prestígio que seus livros lhe proporcionavam poderia sem dúvida fundar a autoridade que se lhe reconhecia: ela se dissociava, contudo, em grande medida, daquilo que ele pôde ter escrito e procedia menos do autor em si mesmo que da figura pública que fora construída a partir dele. Assim socializado, rebaixado à vertente da história cultural e do político, a presença do autor no mundo encontrava-se, por um lado, desvinculada dos valores que precisamente os seus livros colocam em ação, e dos quais só se retinha, no melhor dos casos, princípios abstratos, isto é, separados a uma só vez da experiência privada que os forjara e da forma que lhes conferia sua força. Quanto às proposições que sua palavra pública formulava, a eficácia exigia fatalmente que elas não fossem apenas a sua.

Pois bem, essas posições coletivas de escritor engajado, preocupados em colocar ao serviço da comunidade o reconhecimento que seus livros lhe proporcionam, não seria possível confundi-las com os valores singulares que, por sua vez, trabalham uma obra, e que, por outro lado, a definem ao mesmo tempo que se descobre nela a ética do escritor. Confusão que o termo de moralista certamente facilita, se ele supõe que o escritor se volta a outrem, entendido como leitor, tudo junto, e como o objeto de estudo ou de interesse. Num primeiro sentido, tão logo a saliência de uma palavra um pouco sentenciosa demais ou bem prescritiva permita que o escritor que a prefere seja qualificado de moralista, e às vezes independentemente do que sua obra realmente afirma: é, por um lado, a ambiguidade, de Camus. Em um segundo sentido, tão logo uma leitura demasiado apressada dos textos justifique que também seja designado como tal o escritor cujos livros, por uma temática de aparência pessimista ou uma forma de aparência fragmentária, parecem se inscrever na continuidade da era clássica: elude-se então de bom grado a questão de saber se essa obra responde a uma exigência pessoal que a separa das outras – eis um traço da modernidade – ou se ela se volta, contrariamente, em direção a uma comunidade suscetível de compartilhar aquilo que ela afirma… [+]

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