Paulo Piva: “A evolução do pensamento cético”

Desde a Grécia Antiga, com a escola pirrônica, as idéias do ceticismo foram debatidas e combatidas, com importante papel nas transformações da Filosofia moderna

POR PAULO JONAS DE LIMA PIVA – Artigo publicado no portal Ciência e Vida

Passamos a entender um pouco melhor o ceticismo filosófico e a perceber o quanto Sócrates, o patrono da filosofia e mestre de Platão, era dogmático e pretensioso quando nos deparamos com a seguinte frase de Metrodoro de Quiós, um discípulo do atomista Demócrito: “Nem sei se nada sei”. Contra a certeza e, portanto, contra a falsa modéstia do “Só sei que nada sei” socrático, a dúvida e a desconfiança cética de Metrodoro de que é possível que saibamos algo. Assim sendo, o ceticismo não é um pessimismo ou um negativismo epistemológico como muitos o definiram. Cético não é aquele que afirma que a verdade não existe, mas sim aquele que confessa não conhecê-la, sem com isso desistir de procurá-la.

Em 1562, surgiu na Europa uma tradução latina das Hipotiposes pirrônicas, do médico grego Sexto Empírico, por assim dizer, a “bíblia” do ceticismo originado com Pirro de Élis, no século IV a.C. Era a época do Renascimento, momento em que, no caso específico da Filosofia, o pensamento passou a intensificar sua luta contra a ideologia da Igreja de que a Filosofia deveria ser serva da Teologia. Estimuladas em grande medida pelo método e pelas objeções céticas difundidas por essa tradução. As discussões filosóficas do período, cujo tom era dado pelo conflito entre fé e razão, deram origem a uma forma curiosa de ceticismo: o ceticismo cristão, também classificado paradoxalmente de “ceticismo fideísta ou fideísmo cético”. Filósofos cristãos como Michel de Montaigne (1533- 1592), por exemplo, usaram todo o arsenal cético de argumentação para demonstrar que a razão era limitada e insuficiente para estabelecer critérios seguros e definitivos sobre os quais pudesse se erigir verdades indubitáveis, e que os sentidos eram enganadores, enfim, para persuadirem que o saber das ciências era de fato precário. Portanto, de acordo com esses religiosos céticos, o mais adequado aos homens seria mesmo se apegar à fé, ou seja, orientar-se na vida, sobretudo, pelos dogmas da Bíblia e da religião católica, pois seria mais seguro… [+]

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