Euler Santi assina o texto, dirige e atua em ‘Palestra sobre o Nada’

O monólogo se propÔe a desconstruir valores e conceitos vigentes

Por Globo Teatro

Publicado originalmente em 23/04/2013

No tempo das palestras motivacionais, o ator e diretor Euler Santi decide falar sobre o nada. Inspirado na obra de um dos maiores pensadores do sĂ©culo XX, o franco-romeno Emil Michel Cioran, ele promove uma quebra de valores estabelecidos na sociedade e tenta mostrar que o homem vive inserido em uma dormĂȘncia intelectual, resultado de uma visĂŁo antropocĂȘntrica. Este Ă© o mote do espetĂĄculo “Palestra Sobre Nada”.

Cioran nasceu na TransilvĂąnia, mas foi em Paris que escreveu a maior parte de suas obras. Pouco conhecido no Brasil, Ă© integrante de um grupo de autores tachados de malditos, como Charles Baudelaire, Paul Verlaine, Arthur Rimbaud e o brasileiro Augusto dos Anjos. Em seus textos, buscava lidar com um lado humano mais oculto, o que chocava a comunidade.

– Na verdade, Cioran se considerava um “anti-filĂłsofo”, pois depois de toda a reflexĂŁo feita, ele nĂŁo conseguiu achar sentido em nada. Ele viu que tudo era uma mentira, uma ilusĂŁo humana. É a partir daĂ­ que nasce a obra dele, na qual ele desconstrĂłi todos os nossos valores. Segundo ele, nossos conceitos vĂȘm de uma visĂŁo antropocĂȘntrica, que coloca o homem como centro do mundo. EntĂŁo ele mostra que Ă© por causa disso que nos enganamos o tempo todo, pois nĂŁo enxergamos a realidade como ela realmente Ă© – explica Euler Santi, que se baseou em seis livros da obra de Cioran para montar o roteiro do espetĂĄculo.

Durante o espetĂĄculo, Santi assume o papel de Cioran e promove uma espĂ©cie de palestra para a plateia. O monĂłlogo Ă© pontuado por algumas inserçÔes cĂȘnicas que representam o interior da mente do pensador, representadas em cena pelos atores Leonni Moreno, Mislene Abreu e Michele Costela.

– É como se fosse uma palestra “desmotivacional” – diverte-se. – É ele destruindo as pessoas e tudo o que elas acreditam. Isso faz com que o pĂșblico saia do teatro muito chocado. As verdades e os valores estabelecidos sĂŁo quebrados e apontados como ilusĂŁo. Por isso Ă© uma palestra sobre nada. Ao entenderem as reflexĂ”es de Cioran, as pessoas se conscientizam sobre a sua prĂłpria insignificĂąncia.

É essa acidez presente no texto que leva o leitor a uma reflexão sobre a atualidade. Após tanto tempo imerso na obra de Cioran, Euler explica que isso mudou a sua forma de ver as coisas. E diz que a mesma coisa acontece com todos que assistem ao espetáculo:

– A minha vida mudou. É impossĂ­vel passar pela obra de Cioran de maneira impune. É algo muito contundente e isso mexe muito com vocĂȘ. É difĂ­cil argumentar com o que ele diz, pois todas as suas reflexĂ”es tem um embasamento profundo. Isso tem tudo a ver com a Ă©poca em que vivemos, na medida em que tudo jĂĄ foi experimentado e estamos vivendo um fracasso geral. EntĂŁo, se chocar com esse pensamento significa ser atingido por ele e, consequentemente, modificado. É o que ocorre com todos que assistem Ă  peça. O pĂșblico sai do teatro e se pergunta: “Quem sou eu?” – conclui Santi.