Lucian Blaga sobre o bogomilismo

FÂRTATE E NEFÂRTATE[1]


[1] N. do T.: Regionalismo romeno para “irmão de sangue” e “inimigo”, “não-irmão”, “diabo”

As heresias bogomilas, fĂ©rteis a seu modo, caĂ­ram meio casualmente na ĂĄrea habitada pelos romenos, caĂ­ram como sementes de dente-de-leĂŁo cujo destino foi controlado pelo vento. Temas desse tipo foram trazidos de regiĂ”es ao sul do DanĂșbio para zonas setentrionais muitos sĂ©culos atrĂĄs, por sectĂĄrios em busca de refĂșgio. A infiltração pĂŽde se iniciar e ocorrer sobretudo no sĂ©culo XIII, quando BizĂąncio combateu decididamente os sectĂĄrios subversivos que hĂĄ centenas de anos corroĂ­am o imutĂĄvel monolito da ortodoxia.

O bogomilismo, fĂ© resolutamente dualista, afirmava que dois princĂ­pios se digladiam no mundo, o Bem e o Mal, a vitĂłria final de um ou de outro dependendo em boa parte da decisĂŁo dos homens em apoiar a luz ou as trevas. Em sua origem, essa fĂ© tem decerto ligaçÔes com o antiquĂ­ssimo dualismo persa. Ao surgir no contexto cristĂŁo, o movimento herdou muitas idĂ©ias do marcionismo, ligando-se sem dĂșvida ao movimento pauliciano, que vinha se espalhando pelo ImpĂ©rio Bizantino jĂĄ desde o sĂ©culo VII. Os bogomilos, submetidos a terrĂ­veis perseguiçÔes no ImpĂ©rio, dispersaram-se no norte e no ocidente, onde sua fĂ© continuou sob diversas denominaçÔes. Os sectĂĄrios, com seu racionalismo, inquietaram a autoridade papal. Na BulgĂĄria, os bogomilos conseguiram se enraizar. Conforme o relato das crĂŽnicas, ali realizaram incursĂ”es, com vistas a sufocar o movimento, atĂ© mesmo os reis catĂłlicos da Hungria. Isso ocorreu numa Ă©poca em que, ao norte do DanĂșbio, as formaçÔes estatais romenas mal despontavam. Depois que o poder otomano pĂŽs os pĂ©s na PenĂ­nsula BalcĂąnica, o bogomilismo, que ali ainda florescia em algumas regiĂ”es, parece ter sido poupado dos problemas criados por BizĂąncio. Na BĂłsnia HerzegĂłvina, a seita se tornou, ao longo de dĂ©cadas, uma espĂ©cie de religiĂŁo estatal, Igreja organizada que legou interessantes monumentos Ă  posteridade. Em tais circunstĂąncias, as idĂ©ias bogomilas se propagaram tambĂ©m entre os romenos. Cabe notar, porĂ©m, que os bogomilos nĂŁo se enraizaram ao norte do DanĂșbio como Igreja sectĂĄria com sĂ©rias ramificaçÔes. O bogomilismo entre nĂłs Ă© uma heresia sonhada, e nĂŁo uma heresia organizada. As idĂ©ias bogomilas penetraram no nosso folclore. Uma sĂ©rie de temas bogomilos repercutiram com nossas lendas cosmogĂŽnicas que circulam atĂ© hoje. É claro que um sonho-heresia poderia ter servido como ponto de partida para um pensamento filosĂłfico, caso nas formaçÔes estatais romenas as condiçÔes de vida houvessem permitido um pensamento mais individual, mais nĂŁo-conformista.

NĂŁo hĂĄ dĂșvida de que, em condiçÔes que favorecessem o pensamento individual, os sonhos cosmogĂŽnicos de origem bogomila, transformados em lendas, poderiam florescer sob uma forma prĂłxima Ă  filosofia. Eles nĂŁo poderiam florescer, entretanto, como filosofia dualista. Uma semelhante transformação nĂŁo seria possĂ­vel no pensamento do nosso povo, pois o dogma eclesiĂĄstico ortodoxo, bizantino, frustraria tal evolução. Podemos, contudo, imaginar um pensamento metafĂ­sico fecundado pelo bogomilismo. NĂŁo esqueçamos que os genuĂ­nos temas radicalmente dualistas do bogomilismo assumem, inclusive nas jĂĄ mencionadas lendas de circulação multissecular, uma forma mais suave. Na maioria das nossas lendas, diz-se que, “no inĂ­cio”, ou seja, antes de o mundo existir, havia dois irmĂŁos: Deus e o Diabo, “FĂąrtate” e “NefĂąrtate”. AlĂ©m deles, nĂŁo havia nada – ou, no mĂĄximo, o bĂ­blico infinito de ĂĄgua (o oceano cĂłsmico das visĂ”es sumĂ©rio-babilĂŽnicas). Em nossas lendas que correspondem, no padrĂŁo dualista, ao conteĂșdo do GĂȘnese, FĂąrtate e NefĂąrtate representam princĂ­pios diametralmente opostos: Bem e Mal; mas FĂąrtate e NefĂąrtate sĂŁo considerados “irmĂŁos”, criaturas de uma mesma origem. O dualismo bogomilo marcou esses princĂ­pios, pois os nomes de FĂąrtate e NefĂąrtate abrangem a afirmação e a negação alçadas a nĂ­vel de forças cĂłsmicas. Entretanto, nas nossas lendas, FĂąrtate e NefĂąrtate nĂŁo lutam entre si de modo categĂłrico, dramĂĄtico e sem concessĂ”es. As possibilidades do drama cĂłsmico surgem junto com esses dois nomes que envolvem tendĂȘncias, significados e caracteres. O mito assume, na maior parte das vezes, a forma de uma historieta. FĂąrtate e NefĂąrtate chegam Ă  situação de “colaborarem”, levantando questĂ”es e concebendo projetos conjuntos; graças Ă  sua natureza, eles acabam sempre por “aperfeiçoar” um ao outro. Os dois princĂ­pios personificados por FĂąrtate e NefĂąrtate abordam juntos as mesmas coisas, mas um se esforça continuamente a retirar o outro do jogo. NefĂąrtate tenta enganar FĂąrtate a todo instante, mas suas artimanhas, pouco perspicazes, sĂŁo quase sempre viradas no avesso por FĂąrtate. As coisas e as situaçÔes das origens sĂŁo vistas pela Ăłptica de um camponĂȘs brincalhĂŁo. O dualismo de concepção existente no interior das peripĂ©cias narradas em nossas lendas, por assim dizer bogomilas, nĂŁo Ă© nem um pouco marcante se comparado ao dualismo das concepçÔes religiosas e filosĂłficas persa ou marcionita. O dualismo de concepção das nossas lendas Ă© atenuado tambĂ©m pelo fato de que os dois adversĂĄrios primordiais permanecem “irmĂŁos”. Essa concepção quase trocista que nossas historietas cosmogĂŽnicas desenvolvem assumiu a forma de heresias toleradas como sonhos de um acentuado humor camponĂȘs. Um pensador, porĂ©m, que parta dessas premissas poderĂĄ encontrar em tais heresias substrato suficiente para compor uma metafĂ­sica completamente distinta na paisagem espiritual do sudeste europeu. Pois o fato de os dois princĂ­pios personificados por FĂąrtate e NefĂąrtate, apesar de toda a adversidade dentre eles, serem existĂȘncias “fraternas” no final das contas, oferece sugestĂ”es especialmente fĂ©rteis Ă  imaginação que procure interpretar “as origens”. Qualquer pensador de certa iniciativa ideativa Ă© capaz de se perguntar se os dois “irmĂŁos” nĂŁo tiveram ou nĂŁo tĂȘm tambĂ©m um “pai”. Tal Pai, do qual nasceria o bom FĂąrtate, bem como o mau NefĂąrtate, deveria naturalmente conter em sua prĂłpria substĂąncia uma mistura de bem e mal. A frase com que em geral começam nossas lendas ou historietas cosmogĂŽnicas – “No inĂ­cio havia dois irmĂŁos, Deus e o Diabo” – revela Ă  primeira vista a contradição interna. Pois, se os “dois” eram “irmĂŁos”, isso significa que, antes de existirem, houve um Pai. A situação comporta tambĂ©m, evidentemente, questĂ”es que uma historieta nĂŁo Ă© obrigada a esclarecer, mas que suscitam o interesse de qualquer pensador. O Pai, dando origem ao Bem (personificado por FĂąrtate) e ao Mal (personificado por NefĂąrtate), sĂł poderia ser uma substĂąncia com dois atributos diametralmente opostos. O Pai deveria ser, por sua prĂłpria natureza, tĂŁo divino quanto demonĂ­aco. Que abismo o nosso pensador abriria diante do olhar admirado do povo com uma tal concepção sobre Aquele que existiu antes do inĂ­cio! Em nosso folclore, porĂ©m, esboça-se uma tal concepção. O povo imaginava heresias que significavam um desvio da doutrina eclesiĂĄstica. O espĂ­rito de pensamento livre que irrompia desse desvio era expresso nĂŁo como “ensinamento”, mas como imaginação, um jogo exegĂ©tico no espĂ­rito da lenda. Apenas um pingo de razĂŁo audaciosa e livre, porĂ©m, faltou para que surgisse, a partir desses temas comunicados em estilo camponĂȘs, um “ensinamento” sobre o Ser de natureza tĂŁo divina quanto demonĂ­aca, sobre o Barro do qual cresceram os dois irmĂŁos, FĂąrtate e NefĂąrtate. Pouco faltou tambĂ©m para que surgisse uma doutrina sobre FĂąrtate e NefĂąrtate que, juntos, criaram o mundo e tudo que o habita. O mundo e todos os seres vivos sĂŁo um produto – parte da colaboração, parte da concorrĂȘncia entre os dois. A “colaboração” certamente se apresenta viciada e corroĂ­da pelas intençÔes de NefĂąrtate. Entretanto, graças aos poderes mĂĄgicos de FĂąrtate, as intençÔes e as açÔes de NefĂąrtate perdem efeito, tornando-se boas. A colaboração se mantĂ©m e Ă© frutĂ­fera de todos os pontos-de-vista. FĂąrtate quer sempre fazer o bem. NefĂąrtate aspira, ambicioso e invejoso, a fazer tambĂ©m alguma coisa, mas nĂŁo logra senĂŁo espelhar no mal as boas açÔes de FĂąrtate. Assim como diz a lenda: quando FĂąrtate se faz de abelha, NefĂąrtate se faz de mosca; quando FĂąrtate se faz de cĂŁo, NefĂąrtate se faz de lobo.

Nalgum momento do passado, nosso pensamento poderia ter concebido uma metafĂ­sica original, com nĂ­tidas nuances bogomilas. Nalgum momento do passado, num sĂ©culo distante, quando na ItĂĄlia lançavam-se as bases do Renascimento, ou quando, no Sacro ImpĂ©rio Romano-GermĂąnico, um Nicolau de Cusa[1] afirmava, pela primeira vez na Europa, que o mundo Ă© infinito como Deus. Para nĂłs, porĂ©m, por inĂșmeras razĂ”es, naquele sĂ©culo distante, ainda nĂŁo chegara a hora de o pensamento desconsiderar o pensamento conformista imposto pela Igreja. Por inĂșmeras razĂ”es, aquela hora nem mais tarde haveria de chegar.


[1] N. do T.: Nicolau de Cusa (1401-1464), também conhecido como Nikolaus von Kues ou Nicolaus Cusanus, foi cardeal católico e um famoso filósofo, teólogo e matemåtico.

BLAGA, Lucian. A Barca de Caronte (Tradução do romeno por Fernando Klabin, É RealizaçÔes).

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