Prefácio: “Cioran: souffrance, extase et haute folie pendant le XXe siècle”, de Mircea Lăzărescu

Há toda uma fascinação que a vida e o pensamento de um criador admirado exercem sobre nós. E quando se é psiquiatra, como Mircea Lăzărescu, a tentação de descer até as profundezas de um espírito furioso conduzido à escrita de um diário a meio caminho entre o si [soi] e o outro, entre a escrita íntima e a escrita-vítima do pesar exercido pelo assunto abordado, neste caso o homem, o filósofo, o criador Emil Cioran.

Por seu subtítulo explícito, A crônica de três dias, ocasionados pela comemoração do centenário do nascimento de Cioran, contada por um psiquiatra, o autor já situa sua análise temática num crono-topo preciso, reestruturando e particularizando o tema geral anunciado no título, “Sofrimento, êxtase e alta loucura durante o século XX” [Souffrance, extase et haute folie pendant le XXe  siècle]. A partir de suas lembranças pessoais e de seus contatos diretos com a família Cioran em Sibiu, seu irmão Aurel e a esposa deste, Ica, com seu amigo, o filósofo Constantin Noica, que viveu isoladamente em Paltinis, nas montanhas, assim como suas recentes releituras cioranianas, Mircea Lăzărescu compõe o retrato psicológico e espiritual de Emil Cioran, fundando-se em algumas constantes do seu pensamento e de sua obra: o êxtase, o sofrimento, o tédio/angústia [ennui], a alta loucura, Deus. Os temas maiores da criação cioraniana, que funcionam como nós a conferir coerência e unidade a toda sua obra, romena e francesa a uma só vez, são também responsáveis por adiantar esse livro-jogo-segundo, tanto crítico quanto memorialístico, mescla de confissão, de vivência e de fabricação, de visão, que leva à formação e à formulação do caráter  unitário e coerente daquele que Mircea Lăzărescu denomina o “caso Cioran”.

Fino observador do homem e de suas “manifestações”, o psiquiatra Mircea Lăzărescu toma a decisão de escrever este livro sobre Cioran devido a uma negligencia exegética que ele constata a propósito de Cioran: a falta de seriedade e de profundidade na “análise da coerência interior extraordinária dos sentimentos, dos ditos e das atitudes de Cioran ao longo de toda sua vida”. Neste sentido, Mircea Lăzărescu pretende soar o alarme. Ele constata que tudo gravita em Cioran ao redor do êxtase (conceito chave em seu pensamento), tema que o marcou irremediavelmente. Sem hesitação, ele descobre o “caso” Cioran, representado pelo tipo particular de experiência humana que o autor revela, por esse testemunho antropológico de sua existência.

O livro é interessante ao nível de sua composição que lhe assegura o peso da autenticidade. Para além do fio narrativo exterior (que surpreende também a viagem espacial de Mircea Lăzărescu, de Sibiu a Rășinari, e daí a Timisoara a Predeal), há uma série de “presenças “ reais das quais eles fala e que vêm a se tornar personagens do livro, assim como uma sucessão de figuras culturais e filosóficas que ele evoca para delimitar as molduras e os espectros do assunto de que trata.

Lăzărescu desvela ao leitor como é possível, por algum tempo, viver na companhia de um autor. Mais ou menos ocasionada por acontecimentos exteriores, a verdadeira companhia, a convivialidade, só se produzem na solidão, na intimidade livresca em que o outro se nos revela ao mesmo tempo que se separa de nós.

Apesar da “faceta” autobiográfica do livro, o autor faz aí o percurso cronológico dos escritos de Cioran, tanto os romenos quanto os franceses, a partir da noção de êxtase que é minuciosamente seguida e explicada em sua evolução de um livro ao outro. Abundam as referências aos grandes filósofos universais, assim como o apelo a construir para Cioran uma genealogia espiritual, que o colocaria não apenas na sucessão dos grandes filósofos mas também dos grandes místicos.

Para além do fragmentário da escrita de Cioran, Mircea Lăzărescu descobre sua unidade e sua coerência temática e ideática, para além de um espírito (des)fascinado da existência, um homem que confronta seus sentimentos-limite que são edificadores para compreender sua condição, sua vida. Sob a pluma de Lăzărescu, Cioran se torna o personagem representativo daquilo que ele denomina a “alta loucura”, uma loucura por que só são tentados os grandes espíritos da humanidade, e que os ajuda a criar sua obra e a durar graças a ela.

Um livro da moda, dir-se-ia. Um livro vivo, envolvente, leve. Que se lê de uma sentada. E que faz pensar de pronto. À realidade interior de uma obra, a esse ponto essencial que o seu autor busca e rebusca ao longo de toda sua criação, às vezes por vai-e-vem, por esse duplo jogo lúcido com sua própria identidade e com a linguagem. Ele se desvela escondendo-se e se esconde desvelando-se.

Ainda que se esperasse eu o ponto de vista do psiquiatra fosse mais detalhado e mais explicado, o Cioran de Mircea Lăzărescu ganha em estabilidade e em constância. Pois toda sua visão filosófica e poética, “da posição do homem no mundo”, gravita ao redor de sentimentos e de atitudes fundamentais, bem acolhidos e em relação com seus estados extáticos que ele experimentou desde os primórdios de sua maturidade. Trata-se, dentre outras coisas, da insônia, do desprendimento em relação ao mundo, da solidão, do tédio/angústia [ennui], do vazio, da dúvida cética, do orgulho, da lucudez, da preguiça, da doença e do suicídio”.

A partir de Cioran, Mircea Lăzărescu empreende uma descrição interior de toda uma época intelectual, de toda uma era cultural, colocando em movimento as fontes analíticas de um homem que viveu estruturalmente as ideias e as trepidações de um mundo que parece desmoronar.

Prefácio ao livro escrito por Mihaela-Genţiana Stănişor
Traduzido do francês por Rodrigo Menezes
14/12/2013

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