“O pensamento insuportável de Emil Cioran”, por João Maurício Barreiro Brás

O pensamento insuportável de Emil Cioran

João Mauricio Barreiros Brás, investigador CLEPUL (Faculdade de Letras de Lisboa)

Resumo: Cioran é um pensador incontornável do século XX. Pela originalidade do seu pensamento mas também pela recuperação de uma lição antiga. Pensar e viver são inseparáveis. O filósofo funcionário é um pensador estéril. Vive-se e pensa-se sobre o que se vive, e esse pensar retorna à vida, como experiência e promessa de sabedoria. Este é um filósofo existencial, não existencialista, que retoma as antigas lições gregas, um cínico do século XX que não foi incorporado pela máquina trituradora do cânone Ocidental, democrático e neoliberal. Pertence a uma corrente marginal da filosofia que não faz parte da versão oficial, mas não é por isso menos importante, e situa-se entre todos aqueles que colocam reservas em relação à legitimidade da existência humana, e que vão de Theognis e Diógenes até Nietzsche.

Palavras chave: Cioran, Pensamento, existência humana

Abstract: Cioran is an inescapable thinker of the 20th century. For originality of this thought but also by retrieving an ancient lesson. Thinking and living are inseparable. The philosopher-employee is a sterile thinker. Living and thinking about the existence, so that this knowledge returns to life, as an experience and promise of wisdom. This is an existential philosopher, not a Existentialist, which resumes the ancient Greek Philosophy lessons. This is a cynic of the 20th century, it was not incorporated by the shredder of the Western Canon, liberal and democratic. Belongs to a marginal current of philosophy, incompatible with official version, but that’s not less important. Cioran lies between all those who place reservations about the legitimacy of human existence, in a lineage that goes from Theognis and Diogenes to Nietzsche.

Key-words: Cioran, thinking, human existence

Ler as obras de um filósofo, não é um ato passivo, mas um diálogo, tanto mais fecundo, quanto nos transforma e perturba. Emile Cioran foi um homem livre e lúcido como não sabemos e não conseguimos ou mesmo não podemos ser. A descoberta generalizada deste autor começa na década de oitenta do século XX. Fernando Savater foi e é um
dos seus principais divulgadores, a sua tese de doutoramento é sobre o pensamento de Cioran, o que na época e na academia espanhola suscitou a duvida se não se trataria de uma provocação ou partida, se não estaria a inventar um filósofo inexistente. Atualmente a adjetivação da sua obra e pensamento está porventura esgotada, faltará ainda algo mais, debate-lo e para os mais ousados praticá-lo. Na verdade não é possível lê-lo sem praticar uma certa militância ou optar pelo desdém e desvalorização, ou na pior das hipóteses, fazer de Cioran uma moda, citar umas passagens da sua obra e ter umas frases sempre à mão. Não há contudo autor mais sério. Não se trata de uma seriedade enfatuada e estéril, de uma técnica, de uma doutrina ou jargão sobre uma área ou domínio do conhecimento… [texto integral

 

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