Artigo: “Uma alusiva cioraniana” (M. L. Herrera A.)

In memoriam: Héctor Escobar Gutiérrez
(a guisa de introdução ao leitor brasileiro)

“A possibilidade de renovar-se atrav√©s da heresia
confere ao crente uma n√≠tida¬†superioridade sobre o ateu.”
Cioran, Silogismos da amargura (1952)

Héctor Escobar Gutiérrez
Héctor Escobar Gutiérrez
E. M. Cioran
E. M. Cioran

Pode-se constatar¬†muito em comum¬†entre o fil√≥sofo franco-romeno Emil¬†Cioran (1911-1995) e o poeta colombiano H√©ctor Escobar Guti√©rrez (1940-2014),¬†e ao mesmo tempo¬†muitas diferen√ßas. Afinidades: o esp√≠rito iconoclasta e transgressor, o gosto da¬†heresia, a paix√£o dos abismos e dos cumes, a lucidez luciferina (com o perd√£o do pleonasmo!), a ironia e o humor corrosivo, a sensibilidade m√≠stica, a consci√™ncia atormentada pelo mal de existir, o vigor de um¬†verbo pulsante levado ao extremo,¬†√†s fronteiras entre a vida e a morte, entre o ser e o n√£o-ser, entre a luz e as trevas. Diverg√™ncias: enquanto Cioran buscou exercitar-se na d√ļvida c√©tica e na arte da “frivolidade” (princ√≠pio √©tico-est√©tico pautado pela superficialidade diletante), negando toda cren√ßa definida e evitando a todo custo aprofundar-se, especializar-se no que quer que fosse, H√©ctor se fez conhecer, entre aqueles¬†que o frequentaram (e frequentam), por¬†uma profiss√£o de f√© satanista incrementada pelas mais¬†diversas doutrinas esot√©ricas e ocultistas, por ele levadas¬†a s√©rio e minuciosamente estudadas/praticadas. Mas, excentricidades, ades√Ķes e escolhas pessoais √† parte, n√£o se poderia deixar de apreciar a poesia¬†estrondosa e sublime deste poeta maldito, sua cria√ß√£o po√©tica¬†que vai muito al√©m de toda doutrina determinada e alcan√ßa uma universalidade acess√≠vel a todo esp√≠rito que √©¬†sens√≠vel √† arte profundamente¬†viva¬†das palavras.

hector001Cioran n√£o conheceu¬†esse poeta terr√≠vel e delicioso cuja obra perturba ao mesmo tempo em que encanta. Podemos imaginar que impress√£o se teria gravado no esp√≠rito do fil√≥sofo¬†romeno a prop√≥sito do autoproclamado “Papa Negro”. H√©ctor, por sua vez, conheceu a obra de¬†Cioran nos anos 1980¬†gra√ßas¬†√†¬†autora do¬†ensaio que se segue: a fil√≥sofa¬†Maria Liliana Herrera,¬†catedr√°tica do departamento de Filosofia da Universidad Tecnol√≥gica de Pereira (UTP), na Col√īmbia, e¬†gestora¬†do Encuentro¬†Internacional Emil Cioran, col√≥quio realizado anualmente na mesma cidade e que, em outubro deste ano (2014),¬†chegou a sua s√©tima edi√ß√£o. Coincid√™ncias do destino: H√©ctor, leitor ass√≠duo¬†de Cioran,¬†esteve presente na primeira edi√ß√£o do col√≥quio, do qual participou com uma homenagem po√©tica ao autor romeno; faleceria¬†sete anos depois, no s√°bado (18/10/2014) que coincidiria com um dos dias de realiza√ß√£o¬†do col√≥quio. Foi cremado¬†no domingo seguinte, num tradicional cemit√©rio de Pereira, com direito a um cortejo f√ļnebre sat√Ęnico promovido por seus amigos e apreciadores. Deu muito o que falar na imprensa colombiana, como n√£o poderia deixar de ser. Deixou uma vi√ļva¬†(Soley Salazar) e nenhum filho, como Cioran (que viveu toda sua vida na Fran√ßa em companhia de Simone Bou√©). Entre seus livros¬†est√£o¬†Antolog√≠a inicial (1983); Testimonios malditos¬†(1985); Cosmogon√≠as (1985); Estetas y heresiarcas¬†(1987); El libro de los cuatro elementos¬†(1991), El punto y la esfera¬†(2004), entre outros.

“Tenho um pacto com o Diabo” ‚Äď H√©ctor Escobar Guti√©rrez

“Que aux√≠lio pode oferecer a religi√£o a
um crente decepcionado por Deus e pelo¬†Diabo?” ‚Äď Cioran

‚ÄúN√£o tenho necessidade¬†de arrepender-me pois sempre fiz¬†tudo o que fiz com consci√™ncia,¬†e o¬†arrependimento surge quando existe uma¬†contradi√ß√£o¬†entre a forma de ser e¬†a¬†maneira de pensar‚ÄĚ, declarou H√©ctor em uma de suas entrevistas. Seria dif√≠cil que¬†Cioran proferisse semelhante frase, ele que¬†afirmava a contradi√ß√£o como indissoci√°vel de seu ser. Para Cioran, consci√™ncia √© sin√īnimo de fatalidade (Bewusstsein als Verh√§ngnis¬†√© o t√≠tulo de um livro de Alfred Seidel que ele muito apreciava), uma enfermidade transcendental em meio √† letargia imanente do ser. “A inconsci√™ncia”, por outro lado,¬†“√© o segredo, o ‘princ√≠pio de vida’ da vida‚Ķ √© o √ļnico recurso contra o eu, contra o mal de ser indiv√≠duo, contra o efeito debilitante do estado de consci√™ncia, estado t√£o terr√≠vel, t√£o penoso, que deveria ser reservado somente aos atletas. (De l‚Äôinconvenient d‚Äô√™tre n√©).¬†Um esp√≠rito dilacerado¬†por tend√™ncias contradit√≥rias, pela fatalidade de um desacordo interior jamais¬†remediado, pela inaptid√£o¬†a¬†alcan√ßar uma s√≠ntese dos elementos dispersos que constitu√≠am sua exist√™ncia. Cioran: “Por que n√£o poderia me comparar aos maiores santos? Por acaso gastei menos¬†loucura para salvaguardar minhas contradi√ß√Ķes do que gastaram eles para superar as¬†suas?” (Silogismos da amargura). Ademais, afirmaria numa de suas entrevistas, “a¬†contradi√ß√£o faz parte de minha natureza e, no fundo, da de todo mundo.” (Entretiens)¬†Portador de¬†uma consci√™ncia perpetuamente corro√≠da pela D√ļvida, mas¬†ao mesmo tempo dotado de uma paix√£o org√Ęnica pelo Absoluto (que ele chegou a buscar inclusive em suas formas mais tradicionais, dir-se-ia ortodoxas: Deus, a santidade…),¬†Cioran nunca p√īde encontrar em¬†Sat√£¬†o sentido, o absoluto¬†que H√©ctor, por sua vez, afirmou¬†ter encontrado. Apesar dessas diferen√ßas, sobressaem-se afinidades eletivas essenciais entre ambos: a escolha por uma vida √† margem, por¬†uma liberdade radical e intransigente que bordeia¬†o vazio e aponta para o¬†estatuto¬†do monstro, do r√©probo exclu√≠do da Humanidade; a recusa de toda celebridade (humilha√ß√£o implicada no¬†reconhecimento p√ļblico¬†e no fracasso em que consiste “ser compreendido”); enfim, toda uma¬†vida dedicada √† escrita, da qual aquela n√£o se distingue, uma cria√ß√£o art√≠stica (po√©tica para um, afor√≠stico-ensa√≠stica para o outro) que¬†√©, afinal de contas, sua raz√£o comum de ser (e de n√£o ser). Ningu√©m melhor para apresentar o herege H√©ctor Escobar Guti√©rrez, e suas¬†rela√ß√Ķes com Cioran, do que Maria Liliana Herrera, que o conheceu pessoalmente. Boa leitura!

Rodrigo In√°cio Ribeiro S√° Menezes

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Uma alusiva cioraniana[1]

M. L. Herrera A.
Universidad Tecnol√≥gica de Pereira (Col√īmbia)

Cioran: ‚Ķ A liberdade (‚Ķ), n√£o ter obriga√ß√Ķes nem responsabilidades, fazer apenas o que quero, n√£o ter hor√°rios, s√≥ escrever sobre as coisas que me interessam. E n√£o ter mais objetivos que estes.
Liiceanu: E esse √© o √ļnico √™xito do qual se orgulha? Ter feito apenas o que quis?
Cioran: Nada mal, hein?

 Entrevista con Cioran

¬†O libro de sonetos intitulado Breviario de sonetos en torno a Cioran[2] constitui um dos √ļltimos trabalhos de H√©ctor Escobar Guti√©rrez e, at√© o momento, conhecido apenas por alguns de seus amigos. A ocasi√£o para sua cria√ß√£o foi o Primer Encuentro Internacional Emil Cioran, projeto cultural para a cidade de Pereira e do qual tenho sido gestora. Com o apoio da Universidad Tecnol√≥gica de Pereira (UTP) e da sede cultural do Banco da Rep√ļblica, inaugurou-se este encontro cujo motivo central foi o lan√ßamento do livro Cioran: ensayos cr√≠ticos.[3] Um dos convidados foi o poeta, que j√° era um leitor entusiasta de Cioran desde os anos 1980, quando, em uma das tert√ļlias liter√°rias que eram oferecidas em sua casa, eu lhe dei a conhecer o Brevi√°rio de decomposi√ß√£o. Desde este memor√°vel dia, Cioran n√£o faltou em sua lista de livros de cabeceira, entre os quais, certamente, tinham uma relev√Ęncia de primeira ordem os poetas malditos, os tratados de demonologia e aqueles que lhe permitiram aprofundar a interpreta√ß√£o do Tar√ī. Assim, para a inaugura√ß√£o de nosso evento, e num arrebato l√≠rico, H√©ctor Escobar escreveu em tr√™s dias esta homenagem ao fil√≥sofo. Cioran ‚Äď creio ‚Äď foi um b√°lsamo c√©tico para o aspecto cabal√≠stico, concupiscente e tenebroso do mundo do Mal√©fico Poeta.

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Atualmente, são poucas as obras de arte que se encontram tão estreitamente ligadas às vidas de seus criadores como as de Cioran e Héctor Escobar Gutiérrez… Mas eles não são da mesma estirpe. Existem gostos pessoais que nos aproximam de um autor e em nossa formação e educação intelectual e existencial eles podem encontrar paralelos e coincidências acerca da valoração sentimental e teórica de nossa condição humana.

Cioran é um romeno; mais precisamente, um autor romeno-francês, um dos poucos herdeiros legítimos da tradição moralista francesa no que concerne ao gênero e à atitude pessimista. Héctor Escobar Gutiérrez é, essencialmente, um poeta, e um poeta da heresia, que, com lucidez e fino humor (traços que coincidem com Cioran), levou ao paroxismo sua lírica e sua conversação, as duas igualmente profanadoras e deslumbrantes.

Em quais aspectos podem coincidir dois espíritos de culturas e talantes morais tão distintos, como o são o pensador pessimista e preguiçoso romeno-francês e o alucinado poeta pereirano?

As primeiras linhas do Breviário de decomposição seduziram o poeta de maneira imediata. Incorporou Cioran em sua vida como uma leitura permanente pelo efeito estimulante que seus aforismos produzem e pelo gozo intelectual que nos causa a leitura de um bom livro, seja de ciência, filosofia, poesia, ensaio ou romance. No caso da leitura do moralista levada a cabo pelo poeta, o gozo é mais do que estético, pois, como afirmou um certo Cardenal, é impossível não dar razão a Cioran em seu juízo obscuro sobre a condição humana. Eis aqui um exemplo do regozijo que o espírito produz no espírito:

Aos amigos de Cioran

 Este é o canto, amigos, o versar,
o pertinaz retinir de meus poemas;
de minhas rimas que s√£o como an√°temas
ou como um astro negro em seu apogeu.

Longe de mim os méis do desejo,
do ser agora me ferem seus dilemas;
as vozes iracundas, blasfemas
que a alma cutucam sem rodeio.

Aquelas que Cioran tanto exaltava,
e às quais seu espírito dava
em francês essa fundura intraduzível.

Este engenho, este estilo aquilatado,
e que a verdade bem dizer nos tem viciado
a vocês e a mim pelo inapreensível.[4]

Quando nos apaixonamos por um autor isto se deve, entre outras coisas, √†s resson√Ęncias espirituais que experimentamos. Ent√£o, contemporizamos em algum sentido com este que nos fala desde o passado ou no presente, e cremos entender e compartilhar seu sentimento acerca de nossa rara intelig√™ncia exist√™ncia. O sentimento do mal de viver √© o motivo destes poemas cioranianos. N√£o me refiro √†s configura√ß√Ķes que o Mal adquire na obra ‚Äď e na vida ‚Äď do poeta Escobar.[5] Refiro-me exclusivamente √† perplexidade que se experimenta face ao absurdo de ser humano, de estar lan√ßado em um mundo de sofrimento, dores e alegrias falidas, perplexidade que podemos denominar, em Cioran, como sua antropologia tr√°gica, e no poeta como sua l√≠rica metaf√≠sica. A dor de viver, o que n√≥s mesmos mais somos, diria Cioran, √© cantado em acesa, por√©m rigorosa, paix√£o nestes versos do poeta dedicados ao pensador.

Recorda√ß√Ķes

Através destes raptos cioranianos,
penso a vida de hoje, na passada,
em minha anterior viv√™ncia aborrascada…
no hoje e no amanh√£, dias insanos.

E me futuco por dentro com as mãos
– verdugo de¬† mim mesmo, do meu nada –
até ver a sombra encaçapada
mirar-me com rancor, olhos tiranos.

E pressinto um pavor, o da morte,
consumir o rescaldo de minha sorte,
o que fica de minha alma, ruim cinza.

Vestígios espalhados pelos ares,
enquanto faz a sombra seu desaire
com essa careta, que estigmatiza.[6]

Outro paralelo que fica evidente para quem conhece as obras de Cioran e de Escobar √© o estilo, ainda que se trate de dois g√™neros distintos: soneto e aforismo. Este paralelo √© leg√≠timo no sentido da escolha que fizeram pelo g√™nero e da intencionalidade que acompanha essa escolha. Cioran n√£o coonestou com sua √©poca. Seu estatuto foi o de exilado. Escolheu um tipo de escritura espec√≠fico pouco praticado e uma l√≠ngua ‚Äď o franc√™s do s√©culo XVIII ‚Äď dos quais se apropriou e transformou de uma maneira tal que deu lugar a certa renova√ß√£o estil√≠stica. O poeta, por sua vez, renunciando √† tenta√ß√£o do verso livre (espreitado sempre pelo perigo de sua aparente facilidade), escolheu o soneto em cuja exigente constru√ß√£o utilizou vozes em desuso ou arcaicas, o que torna sua poesia paradoxalmente contempor√Ęnea.

In Memoriam

√Č Cioran sem d√ļvida o heresiarca
deste mundo convulso, pós-moderno;
deste mundo que é símile do inferno
e onde imp√°vida reina a parca.

O caos e a crise sua obra abarca
porque o desastre foi e é eterno;
por isso ‚Äď nem adail nem subalterno ‚Äď
é do pensar anárquico patriarca.

O sem par, o sarc√°stico, o rotundo,
o que observa a vida no profundo
com o olho de um místico extraviado.

Brindo a ele estes versos em memória,
para exaltar a ascese peremptória
desse estilo crítico e crispado.[7]

Mas h√° um fato particularmente not√°vel. Cioran e este poeta nosso constru√≠ram obra e vida ao ritmo de suas respectivas buscas pela liberdade. E pagaram seus pre√ßos. Nestes personagens, a liberdade n√£o se limita nem √† den√ļncia √≠mpia, a partir da pluma, da condi√ß√£o humana, nem √† transgress√£o te√≥rica da moral a que se entregou o poeta. A liberdade √© um verdadeiro exerc√≠cio; neme se rompem os la√ßos institucionais de um of√≠cio, de uma determinada forma de pensar, de atuar e de viver. Ser livre-pensador √© uma tarefa que o pr√≥prio √©tablissement acad√™mico e pol√≠tico promove naqueles que comodamente fazem parte dele. Por√©m, ser um aut√™ntico livre-pensador √© uma tarefa marginal e de todo heroica… Em uma das cartas que recebi de Cioran, ele afirmava: tive a sorte de n√£o exercer nenhum of√≠cio. Esta sorte, seu alto custo profissional, a dignidade e o orgulho que acarretam, tamb√©m a teve H√©ctor Escobar Guti√©rrez.

O definitivo

Cale a voz a √ļltima palavra,
que n√£o escute o ouvido a primeira;
porque s√£o a inicial e a derradeira,
o sinuoso e confuso abracadabra.

Esqueça então a alma o que sabe,
o que crê saber, o que nega.
Ou ser√° que n√£o viu em sua mirada cega,
que no vazio do ser até Deus cabe?

Afunda-se o homem em poços de negrura
‚Ästem tumba ou sepultura¬†‚Äď
pois morrendo tem vivido entre os mortos.

Caia ao final a cortina de sombra espessa
pois outra vida não haverá: ninguém regressa
a perambular de novo por estes desertos.[8]

***

Tradução do espanhol: Rodrigo Inácio Ribeiro Sá Menezes
Todos os direitos reservados a M. Liliana Herrera e Héctor Escobar Gutiérrez †
Agradecimentos especiais a:
M. Liliana Herrera A.
Pablo Andrés Villegas Giraldo
Tom√°s Troster

****

[1] Texto publicado em HERRERA A., M. L. En torno a Cioran. Nuevos Ensayos y Perspectivas. Ponencias presentadas en el Encuentro Internacional Emil Cioran, versiones 2013-2013. Pereira, UTP, 2014.

[2] Este Breviario é constituido de três partes, e cada uma delas está composta de 11 sonetos : paradoja, causticidad y reacción, além de um epílogo que contém mais dois sonetos. Três deles foram publicados en HERRERA A., M. L., y ABAD T., Alfredo. Compilación, Encuentro Internacional Emil Cioran, 2008-2011, Pereira, UTP.

[3] HERRERA A., M. L.; ABAD T., Alfredo. Cioran: ensayos críticos. Pereira, UTP, 2008.

[4] A los amigos de Cioran

Este es el canto, amigos, el verseo,
el pertinaz clangor de mis poemas;
de mis rimas que son como anatemas
o como un astro negro en su apogeo.

Lejos de mí las mieles del enteo,
ahora del ser me hieren sus dilemas;
las voces iracundas, las blasfemas
las que en el alma hurgan sin rodeo.

Aquellas que Cioran tanto exaltaba,
y a las cuales su espíritu les daba
esa hondura en francés intraducible.

Este ingenio, este estilo aquilatado,
y que a decir verdad nos ha enviciado
a vosotros y a mí por lo inasible.

[5] Remetemos o leitor que queira aprofundar o tema da Poética e do Mal em Héctor Escobar Gutiérrez ao estudo de O. K. Vanegas Vásquez, La estética de la herejía, Pereira, UTP, 2007. http://www.utp.edu.co/cms-utp/data/bin/UTP/web/uploads/media/literario/documentos/INTRODUCCION-REVISTA-N-1-La-Estetica-de-la-herejia-en-Hector-Escobar-copia.pdf

[6] Recordaciones

A través de estos raptos cioranianos,
pienso la vida de hoy, en la pasada,
en mi anterior vivencia aborrascada…
en el hoy y el ma√Īana, d√≠as insanos.

Y me hurgo por dentro con la manos
-verdugo de  mí mismo, de mi nada-
hasta ver a la sombra agazapada
mirarme con rencor, ojos tiranos.

Y presiento un pavor, el de la muerte,
consumir el rescoldo de mi suerte,
lo que queda de mi alma, ruin ceniza.

Vestigios esparcidos en el aire,
mientras hace la sombra su desaire
con ese mohín, que estigmatiza.

[7] In Memoriam

Es sin duda Cioran el heresiarca
de este mundo convulso, postmoderno;
de este mundo que es símil del infierno
y en el cual reina imp√°vida la parca.

El caos y la crisis su obra abarca
porque el desastre ha sido y es eterno;
por eso él -ni adalid, ni subalterno-
es del pensar an√°rquico el patriarca.

El sin par, el sarc√°stico, el rotundo,
el que observa la vida en lo profundo,
con el ojo de un místico extraviado.

Brindo a él estos versos en memoria,
para exaltar la ascesis perentoria
de ese su estilo crítico y crispado.

[8] Lo definitivo

Calle la voz la √ļltima palabra,
que no escuche el oído la primera;
porque son la inicial y la postrera,
el sinuoso y confuso abracadabra.

Olvide el alma entonces lo que sabe,
lo que cree saber, o lo que niega.
¬ŅO es que no ha visto su mirada ciega,
que en el vacío del ser hasta Dios cabe?

H√ļndase el hombre en pozos de negrura
-en tumba o catacumba o sepultura-
pues muriendo ha vivido entre los muertos.

Caiga al fin el telón de sombra espesa,
que otra vida no habr√°: nadie regresa
a trajinar de nuevo estos desiertos.

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