“Veias carregadas de noites: morte, agonia e pensamento orgânico em Emil Cioran” (Antônio Carlos Lemos Garcia Júnior)

Trabalho de conclusão de graduação (licenciatura em Filosofia)

Centro Universitário Claretiano, Batatais, SP, 2014

Orientador: Prof. Dr. Edson Renato Nardi

Resumo: Emil Cioran (1911-1995) legou obras dotadas de uma linguagem poética e altamente cáustica que dá forma ao seu pensamento trágico e corrosivamente pessimista. Contrário aos academicismos, sistemas filosóficos tradicionais e adepto da reflexão enquanto auxiliada por sentimentos arrebatadores, concebe a morte enquanto questão última da filosofia e a qual exige uma seriedade abissal de quem sobre a mesma se põe a refletir; para Cioran, tamanha seriedade só se faz presente no pensador orgânico. Realizou-se esta pesquisa por meio de uma investigação acerca das temáticas da morte, agonia e pensamento orgânico presentes nas obras de Emil Cioran, tendo sua obra estreante Nos cumes do desespero (1933) enquanto referência-mor.

Palavras-Chave: Morte. Agonia. Lirismo. Reflexão.

Introdução

A presente pesquisa tem por objetivo investigar as questões da morte, pensamento orgânico e vivência agônica segundo o filósofo romeno Emil Cioran (1911-1995), através de revisão bibliográfica de algumas de suas obras, tendo como referencia principal sua obra estreante Nos cumes do desespero (1933).

Cioran, enquanto “pensador orgânico” (CIORAN, 2012, p.34) não desassocia a reflexão filosófica das aflições físicas e mentais que possam vir a acometer os pensadores: tais aflições, contrariamente ao usualmente concebido pela filosofia tradicional, não são barreiras ao pensar filosófico; mas sim requisitos para a formulação de questões e reflexões filosóficas verdadeiramente sérias. O filósofo romeno aponta a morte como a questão última da filosofia, a qual o desalento e o desespero que gera no homem pelo seu triunfo indômito são exaltados pelo autor enquanto bases primordiais ao pensador que se propõe refletir sobre a morte. A consciência da morte e a impossibilidade de abordá-la sem a experiência agônica norteiam a reflexão do filósofo romeno em sua obra inicial, referência-mor a esta pesquisa.

Segundo Franco Volpi (VOLPI, 2012, p.104), a obra de Cioran

destila, por todas as páginas, um concentrado de péssimo que envenena de morte todos os ideais, esperanças e impulsos metafísicos da filosofia, ou seja, todas as tentativas de dar à existência algum sentido e segurança, em face do abismo de absurdo que a todo instante a ameaça. As reflexões de Cioran empurram-nos até o ponto de nos sentir nus perante um destino também nu.

Contrário aos academicismos e sistemas filosóficos tradicionais, Emil Cioran traz em seu pensamento trágico e cáustico não somente uma contribuição ao meio acadêmico; mas ao homem contemporâneo, que exala sonolência espiritual.

Lirismo e Pensamento Orgânico

Adotando a forma lírica em suas obras, Cioran associa o lirismo ao sofrimento e às psicoses, sendo o estado lírico “um estado que transcende formas e sistemas.” (CIORAN, 2012, p.12). Em Nos cumes do desespero (1933), Cioran (2012, p.16) questiona:

Por que não podemos permanecer encerrados em nós mesmos? Por que insistimos em correr atrás da expressão e da forma no intuito de nos esvaziar de conteúdo e sistematizar um processo caótico e rebelde? Não seria mais fecundo entregarmo-nos à nossa fluidez interior, sem desejo de objetivar, apenas sorvendo voluptuosos, todas as ebulições e agitações íntimas?

A resposta reside, segundo o autor, no acúmulo de tormentos que aflige o homem dadas suas “vivências múltiplas e diferenciadas [que] se fundiram para engendrar as mais fecundas efervescências” (id., ibid., p. 16)”. Ao atingir tal estado, segundo Cioran, o indivíduo encontra-se “cheio de si” (id., ibid., p.16) e a tensão do viver acarreta uma espécie torpeza agônica, de proximidade para com a morte gerada pela ebulição do acúmulo interno:

Ser cheio de si, não no sentido de orgulho, mas no de riqueza, ser atormentado por uma infinidade interna e por uma tensão extrema significa viver com tanta intensidade, que acabamos morrendo por causa da vida. É tão raro e estranho esse sentimento, que devemos vivenciá-lo aos berros. Sinto como se devesse morrer por causa da vida e me pergunto se teria algum sentido buscar uma explicação. Quando todo o passado da alma palpita dentro de nós num momento de imensa tensão, quando uma presença total atualiza as experiências aprisionadas e quando um ritmo perde seu equilíbrio e uniformidade, a morte nos arranca dos cumes da vida sem que conheçamos diante dela o horror que acompanha a atordoadora obsessão da morte. (CIORAN, 2012, p.17)

O pensador romeno afirma que se torna impossível conviver com tais sentimentos supracitados ao encarcerá-los em si, portanto, aponta a necessidade de confessá-los enquanto a possível salvação dessas aflições às quais denomina “obsessão pela morte” (CIORAN, 2012, p.17). O lirismo, para Cioran, não é apenas a pela qual um escritor dá vazão ao desespero agônico que o atormenta, mas um estado de espírito: não se passa somente a expressar-se liricamente, torna-se lírico. Ser lírico é apresentar-se interiormente tão caótico e visceral que a expressão passa a ser uma necessidade vital:

O lirismo representa uma força de dispersão da subjetividade por indicar, no indivíduo, uma efervescência incoercível da vida, que sem cessar exige expressão. Ser lírico significa não podermos permanecer fechados em nós mesmos. Quanto mais interior, profundo e concentrado for o lirismo, mais intensa será essa necessidade de exteriorização. (CIORAN, 2012, p.17)

O filósofo romeno atribui à expressão lírica a qualidade da barbárie, cuja sua apreciação reside no fato de “ser bárbaro, ou seja, de ser só sangue, sinceridade e chamas (id., ibid., p.12), em detrimento da linguagem usualmente utilizada na filosofia, envolta em sistemas e jargões e a qual exige o afastamento imediato de quaisquer impulsos emocionais em sua utilização. Cioran menospreza a seriedade presente em questões meramente formais, questões essas que são formuladas unicamente por “incertezas da inteligência” (CIORAN, 2012, p.34) , não advindas de nossas aflições orgânicas. Enquanto pensadores abstratos põem-se a refletir, segundo Cioran, por prazer ou vaidade intelectual, o “pensador orgânico” (CIORAN, 2012, p.34) enuncia verdades pulsantes; provenientes e constituintes dele mesmo e exalta “pensamentos que mantém o aroma de sangue e de carne” (id., ibid., p.34).

Para o pensador romeno “Há questões que, uma vez abordadas, nos isolam em vida e até nos destroem” (CIORAN, 2012, p.33). Sendo a questão da Morte o exemplo-mor e a que exige, enquanto “questão perigosa” (CIORAN, 2012, p.33), uma seriedade infinita: “Ter uma seriedade infinita quer dizer estar perdido. Não se trata aqui do espírito calmo, nem da gravidade sem conteúdo das pessoas consideradas sérias, mas de uma tensão doida, que a cada momento da vida somos alçados ao plano da eternidade.” (CIORAN, 2012, p.34). E conclui:

Só o pensador orgânico e existencial é capaz desse tipo de seriedade, pois só para ele as verdades são vivas, frutos mais de uma tortura íntima e de uma afecção orgânica que de uma especulação inútil e gratuita. (CIORAN, 2012, p.34)

Experiência Agônica, Consciência da Morte e o Triunfo Indómito do Nada

A questão da morte permeia a obra de Emil Cioran enquanto questão última de sua filosofia, essencialmente em sua obra estreante Nos cumes do desespero, a qual foi escrita por um jovem, insone e desesperado Cioran: “Se não a houvesse escrito, eu com certeza teria posto um fim em minhas noites.” (CIORAN, 2012, p. 16). A seriedade culminante, proveniente apenas do “pensador orgânico” (CIORAN, 2012, p.34) é, portanto, exigida por Cioran quando se propõe refletir sobre a morte: somente se faz possível refletir sobre a morte de forma realmente séria com a experiência agônica1. Para o pensador romeno, não há possibilidade de se compreender a morte sem que se perceba a vida em si como agonia:

É possível falar da morte sem a experiência de agonia em vida? A morte não pode ser compreendida sem que a vida seja sentida como uma longa agonia, em que a morte se confunde com a vida. A morte não é algo exterior, ontologicamente diferente da vida, pois morte como realidade autônoma de vida não existe. Entrar na morte não significa, assim como crê a mentalidade vigente e em geral o Cristianismo , dar o último suspiro e passar para uma região de estrutura elevada e positividade diferente da vida, mas descobrir, na progressão da vida, um caminho para a morte e encontrar nas pulsações do vital uma profundidade imanente a ela. (CIORAN, 2012, p.35)

Cioran afirma que, principalmente no Cristianismo e em outras “metafísicas que reconhecem a imortalidade da alma” (CIORAN, 2012, p. 35), à morte e à sensação de agonia dá-se a característica de um “triunfo”, um plano no qual adentramos e nos separamos definitivamente da vida, tal como uma libertação, Cioran (2012, p.35) possui uma concepção distinta:

O verdadeiro sentido da agonia parece-me ser a revelação da imanência da morte durante a vida. Por que tão poucos têm a sensação de imanência da morte em vida, a experiência da agonia é tão rara? Não seria falsa a nossa suposição, tornando-se inverossímil o esboço de uma metafísica da morte apenas por meio da concepção de uma transcendência dela?

Para Emil Cioran, o homem comum e saudável é isento da sensação da morte em vida e experimenta uma espécie de estado de inconsciência, comportando-se de forma indiferente e crendo no distanciamento ilusório de sua existência em relação à morte, sendo incapaz de vivenciar a experiência agônica e adquirir a consciência da morte; faz-se necessário a doença e o desequilíbrio existencial para compreendê-la: “Com tuas veias carregadas de noites, te encontras entre os homens como um epitáfio no meio de um circo.” (CIORAN, 2011, p.38).

Cioran (2012, p. 38) aponta as doenças e estados depressivos enquanto causas principais da revelação “da imanência da morte na vida” (id., ibid., p.38), mesmo considerando a possibilidade de outras causas, as quais nomeia “acidentais”, a revelação do “caráter demoníaco da vida” (id, ibid, p. 37) é mais intensa nas enfermidades

Se a doença tem uma missão filosófica neste mundo, ela não pode ser outra senão demonstrar quão ilusória é a sensação de eternidade da vida e quão frágil é a ilusão de uma definição e de um triunfo da vida. Pois, na doença, a morte está sempre presente na vida. Os estados genuinamente doentios nos conectam a realidades metafísicas que um homem normal e saudável é incapaz de entender. (…) Todo o complexo de estados doentios revela uma tortura do vital e uma desintegração da vida de suas funções naturais. (CIORAN, 2012, p. 38)

A consciência da morte e a experiência agônica levam o homem a uma lucidez excruciante, na qual o indivíduo depara-se com o absurdo e o aniquilamento de quaisquer finalidades para a vida e existir passa a ser, tal como coloca o título de outra de suas obras (Do inconveniente de ter nascido, 1973), uma inconveniência:

Com a autonomia em relação à vida com que a consciência nos dota, a revelação da morte se torna tão intensa, que sua presença destrói toda espécie de ingenuidade, todo elã de alegria e toda volúpia natural. Há uma perversão, uma degradação infinita na consciência da morte. Toda a poesia ingênua da vida, todas as suas seduções e fascínios parecem desprovidos de conteúdo, assim como vazias parecem todas as projeções finalistas e ilusões teológicas do homem. (CIORAN, 2012, p.36)

Dada a presença da sensação da morte, o Nada introduz-se na existência. O medo da morte comprova, para o pensador romeno, o triunfo final do Nada. Para Cioran, temer a morte é o mesmo que temer o Nada, e isso demonstra que “o único sentido da presença da morte é atualizar progressivamente o caminho na direção do Nada.” (Cioran, 2012, p. 40). Todas as chagas existenciais, para o autor de Nos cumes do desespero, se resumem ao medo da morte: as angústias e múltiplas formas do medo não passam “de aspectos variados diante da mesma realidade fundamental.” (id., ibid., p.41). Segundo o autor, o triunfo da morte e, portanto, do Nada sobre a existência é indômito: quaisquer tentativas de se racionalizar o problema, qualquer forma de fé ou demais empreitadas; tudo recai no abismo da inutilidade:

O fato da agonia se desenrolar no tempo demonstra que a temporalidade não é apenas um caráter ou uma condição para a criação, mas para a morte, para o fenômeno dramático do morrer. É aqui que se manifesta o caráter demoníaco do tempo, em que se desenrola tanto o nascimento quanto a morte, tanto a criação quanto a destruição, sem que se evidencie, nesse complexo, qualquer convergência para um plano transcendente. O demonismo do tempo favorece a sensação do irremediável que se impõe como uma necessidade inelutável contra as nossas mais íntimas tendências. Estamos absolutamente convencidos de que não podemos escapar da sorte amarga que desejaríamos a outrem, de que estamos submetidos a uma fatalidade implacável e de que o tempo não fará outra coisa senão atualizar o processo dramático da destruição – eis as expressões do irremediável e da agonia. (CIORAN, 2012, p. 43)

Após a afirmação da inutilidade do existir e do triunfo implacável do Nada, Cioran (2012, p.43) questiona: “Não seria, portanto, o Nada a salvação?” e prossegue: “se a salvação na existência é quase impossível, como seria possível na ausência completa de qualquer tipo de existência? (id., ibid., p.43), e, por fim, conclui com uma causticidade escabrosa: “Posto que não há salvação no Nada nem na existência, mando este mundo aos diabos, junto com todas as suas leis eternas!” (id., ibid., p.43).

Em sua obra posterior Breviário de decomposição (1949) (primogênita de suas vazões líricas em francês), Cioran retoma a refletir sobre a morte, denunciando a vida enquanto fonte-mor de nosso horror existencial. A morte, ao cínico insone, apresenta-se demasiadamente exata, logicamente estabelecida. Enquanto a vida nos recai enquanto monopolizadora dos mistérios, fonte de nosso pavor, a “grande Desconhecida” (CIORAN, 2011, p. 23) e, por seu absurdo, superior à morte:

Aonde pode levar tanto vazio e incompreensível? Nós nos apegamos aos dias porque o desejo de morrer é demasiadamente lógico, portanto ineficaz. Porque se a vida tivesse um só argumento a seu favor – distinto, de uma evidência indiscutível -, se aniquilaria; os instintos e os preconceitos desvanecem-se ao contato com o Rigor. Tudo o que respira se alimenta do inverificável; um suplemento de lógica seria funesto para a existência – esforço até o Insensato… Dê um objetivo preciso à vida: ela perde instantaneamente seu atrativo. (CIORAN, 2011, p. 23)

No tocante à experiência agônica, Cioran considera abismal a divisão entre os indivíduos que a não a sofrem e os que a vivenciam; “um morre apenas um instante, o outro não para de morrer”. Apesar de partilharem do mesmo rumo ao Nada, o filósofo afirma que nada além da “insinuação progressiva das forças que nos anulam” (CIORAN, 2011, p.24) é capaz de provocar uma real transformação na vida humana: “Tudo o que prefigura a morte acrescenta uma qualidade de novidade à vida, a modifica e a amplia.” (id., ibid., p.24). Ao autor de Breviário de decomposição, pode-se almejar classificar um indivíduo através de diversos critérios, os quais o mesmo considera acidentais, exteriores, mas há algo que se faz verdadeiramente inerente ao sujeito: a morte.

Podem-se classificar os homens segundo os critérios mais caprichosos: segundo seus humores, suas inclinações, seus sonhos ou suas glândulas. Troca-se de idéias como de gravatas; pois toda idéia, todo critério vem do exterior, das configurações e dos acidentes do tempo. Mas há algo que vem de nós mesmos, que é nós mesmos, uma realidade invisível, mas interiormente verificável, uma presença insólita e imutável, que se pode conceber a todo instante e que nunca nos atrevemos a admitir, e que só tem atualidade antes de sua consumação: é a morte, o verdadeiro critério… E é ela, a dimensão mais íntima de todos os seres vivos, que separa a humanidade em duas ordens tão irredutíveis, tão afastadas uma da outra, que há mais distância entre elas que entre um abutre e uma toupeira, uma estrela e um cuspe. (CIORAN, 2011, p.23)

Suicídio

Um livro é um suicídio adiado.” (Cioran, 2013, p.91)

Em Nos cumes do desespero, Cioran inicia seu ensaio sobre o suicídio (“O sentido do suicídio”) com um ataque aos que proclamam haver motivações racionais ou vontade no ato do suicídio. Todo impulso suicida, segundo o autor, provem de fatores patológicos, orgânicos e hermeticamente individuais:

Não há suicídios baseados em decisões em decisões racionais, resultantes de reflexões sobre a inutilidade do mundo ou sobre o Vazio da vida. Se me forem apresentados os casos dos sábios da antiguidade que se suicidavam na solidão, responderei que o suicídio deles era possível apenas porque haviam aniquilado a vida dentro de si, destruído toda pulsação da vida, mas não é menos verdadeiro o fato de que a mesma vida, o mesmo corpo em que tais problemas fervilhavam tem de ter sido previamente afetado para permitir pensamentos dessa natureza. Ninguém se suicida por causa de acontecimentos exteriores, mas devido ao seu próprio desequilíbrio interior e orgânico. (CIORAN, 2012, p.68)

A Cioran (2012, p.69), é inconcebível que o suicídio seja uma afirmação da vida enaltecendo a importância da impossibilidade de se permanecer vivo no percurso à auto-nulificação, sendo tal impossibilidade não um “capricho” (id., ibid., p.69) mas fruto de uma escabrosa “tragédia interior” (id., ibid., p.69). O pensador romeno enaltece sua surpresa e indignação pelo juízo fundamentado em uma hierarquização de motivações suicidas (id., ibid., p.69), o qual procura-se estabelecer que causa para cometer suicídio seja nobre ou vulgar (id., ibid., p.69): para Cioran (2012, p.69) “ Todo suicídio, a partir do momento que seja suicídio, é impressionante”. Aos que depreciam os suicidas com motivações amorosas, Cioran (2012, p. 69) demonstra total repúdio:

Nutro o maior desprezo por aqueles que ridicularizam os suicídios por amor, pois eles são incapazes de compreender que um amor realizável representa, para quem ama, uma anulação do próprio ser, uma perda total de sentido, uma impossibilidade de existir. Quando amamos com todo o conteúdo do nosso ser, com a totalidade de nossa existência subjetiva, uma irrealização desse amor só levará ao desabamento completo do nosso ser. As grandes paixões, quando não podem ser realizadas, levam à morte mais rapidamente que as grandes doenças.

Ao final de suas considerações sobre o suicídio, Cioran lança a questão “Por que não me suicido?” (2012, p.70) e dá-nos sua motivação: tanto a vida quando a morte o enauseiam (id., ibid., p.70):

Não tenho a mínima ideia do que estou fazendo no universo. Sinto neste momento uma necessidade de gritar, de dar um berro, que horripile o mundo todo, que faça todos tremerem, estremecerem num desvario assustador (…) Em mim todas as cintilações se apagam para renascerem em raio e relâmpago. Não estaria a própria escuridão pegando fogo dentro de mim? (CIORAN, 2012, p.70)

Cioran, posteriormente, legou-nos um aforisma que expressa de forma concisa sua desmotivação para tal ato: “Só se suicidam os otimistas, os otimistas que não conseguem mais sê-lo. Os outros, não tendo nenhuma razão para viver, por que a teriam para morrer?” (CIORAN, 2011, p.35)

Considerações Finais

Não há possibilidade de redenção no pensamento trágico e corrosivo de Emil Cioran, que enuncia o triunfo indômito do Nada; mas, o ser que se encontra a exalar torpor existencial talvez nele encontre a lucidez amarga necessária para remediar seu estado de inércia.

Bibliografia

CIORAN, E. Breviário de decomposição. São Paulo: Rocco, 2011.

­­­CIORAN, E. Do inconveniente de ter nascido. Lisboa: Letra Livre, 2013.

CIORAN, E. Nos cumes do desespero. São Paulo: Hedra, 2012.

CIORAN, E. Silogismos da amargura. São Paulo: Rocco, 2011.

VOLPI, F. O niilismo. 2.ed. São Paulo: Loyola, 2012.

ANTÔNIO CARLOS LEMOS GARCIA JÚNIOR – 1091816

Graduação em Filosofia – Licenciatur

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