“Emil Cioran e Harold Bloom: afinidades espirituais”

Je suis spirituellement, et géographiquement, un bogomile. (Cioran, Cahiers)

Por Rodrigo I. R. S. Menezes

Emil CioranUm nunca mencionou o outro, ainda que seja improvável que não soubessem da existência um do outro; alguns silêncios são significativos – dizem mais do que todas as palavras juntas. No entanto, as afinidades entre o crítico literário norte-americano e o filósofo romeno de expressão francesa são quintessenciais. Em primeiro lugar, a paixão em comum por Shakespeare, que representa, para ambos, aquilo de mais importante que o Ocidente já produzira (ao lado de Dostoievski, diria o romeno). Ou talvez tenha sido Shakespeare quem nos inventou, diria Harold Bloom: “Shakespeare nos contém”.[1] Seríamos, assim, um sonho – ou antes, um pesadelo – na cabeça deste sublime demiurgo literário, artífice de mundos e desmundos. E Cioran: “A Verdade? Encontra-se em Shakespeare; um filósofo não poderia apropriar-se dela sem explodir com seu sistema.” (Silogismos da amargura)

Harold BloomOutra afinidade, intimamente relacionada à primeira, é o interesse – para dizer o mínimo – pela antiga gnose (pela mística tout court[2]), exumada – na forma de “gnosticismo” – dos porões da história e reabilitada, no século XX, graças aos esforços da arqueologia, como a “mãe de todas as heresias” – ainda que represente infinitamente mais do que isso, estendendo-se ademais a diversos outros horizontes que não apenas o cristão (orientais, por exemplo). Dois autores que se assumem, cada um à sua maneira, como gnósticos “exilados” em pleno século XX tecnocrático e materialista. Gnose significa “conhecimento” em grego (não de tipo puramente racional, intelectivo, mas um conhecimento na experiência) e, para os gnósticos (cristãos ou não), o caminho para a salvação em detrimento da fé pura e simples: um conhecimento místico de Deus na alma e da alma em Deus. A tradição nos ensina, através dos textos gnósticos que sobreviveram até os nossos dias, que tal conhecimento se desdobra em dois sentidos: por um lado, revelação da natureza ultra-divina (incriada) do homem (naquilo que possui de essencial, o “espírito” ou pneuma); por outro lado, revelação da natureza diabólica do mundo, dominado desde o princípio (o demiurgo criador) pelo mal.

Bloom escreveu mais de 40 livros, alguns dos quais abordam o gnosticismo: por exemplo, Presságios do milênio – anjos, sonhos e imortalidade, cuja preocupação maior, além de pensar a essência da gnose, é dissociá-la da ideologia da Nova Era – à qual, infelizmente, parece cair como uma luva, uma vez esvaziada de toda seriedade, de toda profundidade, de toda espessura espiritual. Outro de seus livros que vale a pena mencionar a propósito da espiritualidade gnóstica, em diálogo com a nossa tradição cristã “ortodoxa” e normativo-institucional, é Jesus e Javé: os nomes divinos.  Cioran não está longe quando afirma, a propósito da utopia (“por essência, anti-maniqueísta”[3]), que ela é “uma mescla de racionalismo pueril e angelismo secularizado.”[4] O romeno, por sua vez, escreveria, em 1969, “l’année érotique” (Serge Gainsbourg), Le mauvais démiurge, livro no qual expõe sua versão pessoal do ideário gnóstico.

NOTAS:

[1] “Minha extensa experiência lendo Shakespeare, e ensinando a ler sua obra, leva-me a desconfiar de todas as abordagens críticas, pois o poeta e dramaturgo inglês nos contém.” Harold BLOOM. Jesus e Javé: os nomes divinos, p. 157

[2] Para esta equação entre gnose e mística, enquanto experiência visionária, revelação das coisas “divinas”, baseio-me no historiador norte-americano Bernard McGinn. Cf. As fundações da mística – Das origens ao século V – A presença de Deus: Uma história da mística cristã ocidental (Tomo I). São Paulo: Paulus, 2012.

[3] Emil CIORAN. História e utopia, p. 107.

[4] IDEM. História e utopia, p. 108.

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