“O conflito do professor inessencial e do pensador essencial a propósito da existência (a propósito de Kierkegaard)” (Hélène Politis)

Hélène Politis – Professora emérita de Filosofia da Universidade de PARIS I (PANTHÉON SORBONNE), França

Anais da XIII Jornada Internacional dos Estudos de Kierkegaard da SOBRESKI – Sociedade Brasileira dos Estudos de Kierkegaard

Todo pensador essencial tem de conceber comicamente o professor. O professor é o que Leporello é em relação a um Don Juan, somente com isso de acréscimo: ele arranja mentirosamente uma grande notoriedade aos olhos da gente de meia cultura.

O exercício de pensamento que Jorge Miranda de Almeida e Álvaro Valls me solicitaram fazer hoje é perigoso. Porque eu sou uma professora de filosofia convidada a lhes falar do pensador kierkegaardiano, este “pensador essencial” que é totalmente diferente do professor! A posição de vocês que me escutam, não é fácil também: como iremos nós — vocês todos, e eu com vocês — escapar do perigo muito cômico de sermos esta gente de meia cultura de quem Søren Kierkegaard zomba [escarnece, caçoa]?

O Pap. X 1 A 573, que acabo de citar, se intitula “A diferença entre um pensador essencial [em dinamarquês: en væsentlig Tænker] e um professor”. O pensador essencial leva ao extremo aquilo de que ele se ocupa, e ele concentra seu pensamento sobre o que é eminente (em dinamarquês : det Eminente). Eis porque poucas pessoas podem segui-lo. Ao contrário, uma grande multidão cerca o professor, e esta multidão compreende sem esforço o que este diz, porque o professor anula o eminente ao destruir o paradoxo. Então a compreensão torna-se fácil, visto que o que é difícil de compreender está previamente eliminado. Mas a compreensão fácil não é uma compreensão verdadeira; é somente uma aparência de compreensão, como se, pela operação mentirosa do professor, a verdade passasse a ser mais verdadeira! Kierkegaard nota isso no Pap. X 1 A 573 <1849>, e ele o diz também no Pap. X 1 A 609 <1849>: “Arranca o paradoxo de um pensador — e então tens um professor”. O professor seleciona arbitrariamente na história do pensamento os pensadores que lhe convêm, desde a Grécia antiga até a nossa época, e ele trata estes pensadores como um comerciante gere um estoque de mercadorias. Esta descrição do professor como gestor do pensamento se aplica, em particular, a um professor célebre que Kierkegaard apresenta seguidamente como o professor-tipo. O expert em sabedoria mundana, o homem que idolatra as filosofias que estão na moda, o teólogo que confunde especulação e fé, é Hans Larsen Martensen (1808- 1884)… [+]

Anúncios