“Estilhaços digressivos: experiências de um leitor imerso nas ruínas narrativas de Shmuel Yosef Agnon”, por André Folador

A tentativa de definir um tema para este trabalho me parece um tipo de profanação da complexidade do romance Hóspede por uma noite e das insondáveis intenções estéticas e filosóficas de Sch. I. Agnon. Em vez de demarcar um tema, pretendo estabelecer uma soma de reflexões (conexas e possivelmente desconexas) e, seguindo a trilha que norteia o narrador do livro, registrar impressões acerca dos elementos que me parecem mais significativos na obra.

As dificuldades para o leitor se iniciam com a própria estrutura do romance que é cíclica, digressiva e não segue um fluxo temporal bem definido. Além disso, pelo fato de o foco narrativo ser estabelecido em primeira pessoa, o leitor está, de certo modo,  “vinculado” ao registro de um narrador — sobre o qual pouco se sabe — cujas impressões constituem uma contínua mescla de ironia e distanciamento. Além disso, as hesitações do autor, os estratagemas que encobrem suas verdadeiras percepções, acabam despistando as pretensões exegéticas do leitor, além de dificultarem uma visão sistêmica da obra.

Segundo Berta Waldman:

A inscrição de Schai Agnon no sistema literário judaico se faz sob o signo da ambivalência. Inserido historicamente no limiar entre a tradição e a modernidade, há nos textos desse autor ecos e ressonâncias dos contos religiosos judaicos, mas não há mais suas certezas. Questionada a tradição, abrem-se as frinchas para a modernidade. Entretanto, a modernidade não estende um solo capaz de abarcar o apego à tradição presente nos textos. Cria-se, assim, um impasse e a impressão viva de que alguma coisa das narrativas sempre nos escapa (2004: p.39).

Este estado de aporia a que se refere Waldman não se estende, a meu ver, apenas a essas características referidas por ela. Estende-se, também, à experiência do leitor, que se depara com inúmeras dificuldades criadas pelo narrador, entre as quais a linguagem “distante”, repleta de evasivas e digressões, que nos dá uma impressão de estagnação narrativa, implicando uma espécie de suspensão das categorias de espaço e tempo.

Por conta de tais características, não é fácil se situar nas sendas narrativas de Hóspede por uma noite. Parece-me — e não sei se esta é uma característica presente em algumas obras da cabala e nos relatos hassídicos —  que o texto de Agnon revela tanto quanto oculta.

Com relação ao estilo de Agnon, prossegue Berta Waldman:

Seu estilo distingue-se por uma conduta peculiar: ele faz uso de uma língua que quase não eleva a voz, eliminando dela os pontos enfáticos, os desabafos sentimentais, quaisquer vestígios de histeria neo-romântica ou expressionista, apoiando-se sempre na sobriedade da prosa rabínica, no estilo da Mishná e do Midrash, que tiveram profunda influência em seu modo de escrever. (2004, p. 42)

Esta sobriedade, o tom monocórdio e apolíneo (que se mantém até mesmo na descrição das tragédias que recaíram sobre Szibusz) do narrador-escritor estão presentes do início ao fim do livro.

Um aspecto significativo presente na obra é a atitude, por vezes parcial e contraditória, do narrador diante dos habitantes de Szibusz. Embora existam alguns lampejos de empatia e de solidariedade por tais seres, predomina um tom altivo, distante que se traduz em uma descrição pouco empática das agruras dos cidadãos. Tal como um etólogo, ele descreve com precisão — quase científica — os hábitos, a biografia, os traumas dos habitantes.

O olhar que recai sobre as pessoas mais novas da cidade não nos parece muito benevolente.  Na maior parte da obra, o narrador consegue ocultar do leitor (e até de si mesmo[1]) suas verdadeiras convicções. Entretanto, às vezes deixa escapar sua opinião sobre os moradores da cidade:

Não sou daqueles que comparam os dias de hoje com os do passado. Mas quando vejo pequenos ocupando o lugar de grandes e gente pobre em atos em lugar de homens de ação, sinto pena desta geração cujos olhos não viram a grandeza de Israel e que pensa que Israel jamais teve grandeza. (p.56).

É interessante perceber a magnitude do conflito ideológico entre os indivíduos mais velhos e os mais novos. A geração mais jovem, bem representada por Daniel Bach, não tem a mesma “segurança” metafísica dos antigos, que, mesmo depois das atrocidades da Primeira Guerra, ainda conseguem manter uma fé inabalável. Nesse sentido, é emblemática a discussão entre Daniel Bach e seu pai, Rabi Schlomo. Trata-se de mais uma aporia presente no romance:

Disse Rabi Schlomo: Minha partida me seria mais fácil, se você, meu filho, me prometesse que seguiria o bom caminho. Saltou Daniel da cadeira, pôs a mão direita no coração, estendeu para cima a sua sinistra e disse: Acaso fui eu quem tornou tortuoso o caminho? Pois foi Ele quem entortou o caminho! Disse-lhe o pai: Pare, meu filho, pare. Tudo o que o Santíssimo, Bendito Seja, realiza, Ele o faz para nos experimentar. Se resistirmos à prova, muito bem, e se não, Ele nos envia outra mais difícil do que a primeira. Disse Daniel: Porventura o Santíssimo não vê que não podemos resistir às primeiras provas, por que Ele se dá ao trabalho e nos coloca diante de novas experiências? Disse-lhe Rabi Schlomo: Pensamentos impuros são um grande obstáculo. (p.81).

Essa passagem, a meu ver, é uma das mais agônicas da obra. Enquanto para Rabi  Schlomo os desígnios do Senhor são imperscrutáveis e devem ser respeitados (afinal — podemos indagar — questioná-los seria duvidar de todos os alicerces que constituíram a sua vida), Daniel exige do “Criador das almas” uma prestação de contas, um sentido para tudo o que não parece ter mais sentido. Não sabemos, com certeza, quais foram os efeitos que as perguntas pungentes de Daniel provocaram em seu pai. A geração mais nova, que participou dessa guerra absurda (expressão pleonástica) poderia ser considerada porta-voz de uma crise

religiosa e espiritual que se precipita, na forma de uma obliteração de toda esperança, em decorrência desses acontecimentos trágicos e inexplicáveis, sobre aqueles que conseguiram sair vivos dessas catástrofes, mas que perdem para sempre seu lar espiritual e geográfico, é, portanto o tema central do romance (Krausz, A cidade em ruínas de Sch.Agnon, posfácio da obra, p.560).

Curiosamente, os mais velhos, como o Rabi Schlomo, preservam, aos olhos do narrador, certa nobreza, anterior aos tempos de decadência que “feriram” Szibusz. Já os indivíduos “comuns”, que não possuem um vínculo estreito com os propósitos da Casa de Estudos e se mantêm à margem das discussões religiosas, levam uma vida metabólica, maquinal, desprovida de grandes aspirações.

Os seres feridos em sua integralidade, repletos de mutilações físicas (Daniel Bach, Ignatz) e traumas psíquicos constituem um panorama significativo dos habitantes de Szibusz.  Eles representam as agruras da guerra e a instabilidade que o período posterior a ela lhes trouxe.

Segundo Luis Krausz:

O universo crepuscular que nas obras dos grandes expoentes da Guettoliterarur, rapidamente se dissolvia na sociedade secular e urbana do século XIX, deixava para trás velhas crenças, conceitos nacionais e costumes que abrangiam todas as esferas da existência, e buscava, com grande otimismo, a concretização das promessas do Iluminismo e da emancipação, do ingresso à sociedade burguesa, com a consequente delimitação da vida judaica à esfera estritamente religiosa, isto é, buscava a transformação e a reforma do judaísmo, que deixava de ser um conceito abrangente e que perpassava todas as esferas da existência, para tornar-se uma simples confissão no contexto de uma vida burguesa e urbana moderna. (id., p. 561).

Nesse cosmos agnoniano, prossegue Krausz, “não é mais possível vislumbrar as ambições otimistas de um processo civilizatório fundamentado na razão, no progresso e na evolução das ciências.” (ibid., p.561).

Na obra de Agnon, é possível detectar muitas ressonâncias com o universo kafkiano[2].  Dentre elas, pode-se citar a “naturalização” do horror, do “estranhamento” (unheimlich[3]), a aclimatação dos escombros.  Cenas terríveis são retratadas num misto de ironia e distanciamento. A descrição amena dos escombros humanos e geológicos que caracterizam Szibusz, de certa forma, acaba muitas vezes “anestesiando” a sensibilidade do leitor. Mas, ao mesmo tempo, essa naturalização convoca a necessidade do questionamento sobre aquilo que é “naturalizado”.

Em Hóspede por uma noite, os escombros e cicatrizes são relativamente naturalizados e, em alguns momentos, recebem uma abordagem que oscila entre a frieza e ironia.  Ironia que dificilmente provoca o riso lúdico, espontâneo. Com relação a esse aspecto, é importante ressaltar o papel simbólico das mutilações físicas de alguns personagens do romance.  Tais cicatrizes poderiam ser consideradas uma alusão à fragmentação dos judeus e, em um âmbito maior, àquela sofrida pelo homem europeu da época.

A hipertrofia das ruínas da cidade, sistematicamente descrita no livro, me parece simbolizar o enfraquecimento dos valores da tradição, que remetiam a um mundo edênico (e idealizado) anterior ao Iluminismo. O saudosismo desse paraíso perdido ainda norteia a conduta de alguns seres da cidade.

Para Adorno, a chave para a compreensão das obras de Kafka consiste em: “insistir nos aspectos que dificultam o enquadramento e que, por isso mesmo, requerem interpretação” (2008). Insistir nos elementos que, de acordo com Maeso (2013), nos obrigam a questionar as visões tradicionais do mundo e a desvelar seus infinitos paradoxos, escondidos por baixo de um manto de aparente coerência. É possível pensar que essa insistência, bem como a recusa em ser absorvido de maneira palatável, são características presentes em Kafka e Agnon.

O não-enquadramento, ao qual Adorno se refere, nos remete à necessidade de ruptura do sempre-igual para o resgate da autonomia da reflexão (MAESO, 2013: p.33). Ao colocar em prática essa recusa do palatável e não impor a sua visão sobre o leitor, Agnon nos convoca à reflexão autônoma, desprovida de dogmatismos.

Outro tema importante presente na obra, ao qual fizemos rápida referência ao abordarmos a discussão entre Daniel Bach e seu pai Rabi Schlomo,  é o estremecimento da fé, a possível erosão dos preceitos sagrados, principalmente nas gerações mais jovens.  Correndo o risco de incorrer em uma hiperinterpretação de alguns elementos citados no livro, me parece que a perda da chave da casa de estudos poderia ser compreendida como um indício da quebra da conexão com o transcendente.

Assim, perder a chave para uma casa que servia de abrigo para o numinoso parece ser um sinal que aponta para a dificuldade de, sobretudo depois de uma guerra que deixou cicatrizes múltiplas nos habitantes de Szibusz, encontrar um espaço físico e existencial para a recepção dos propósitos do “Criador de almas”.

Os acontecimentos da guerra instauraram, sobretudo nos mais jovens, certo ceticismo e um questionamento sistemático das autoridades religiosas. Contudo, me parece que, na obra de Agnon, tal não eclipsou completamente a tradição religiosa dos antigos. Como prova disso, podemos mencionar a ida do Rabi Schlomo à Israel.

O mundo desvelado pelo narrador-escritor é repleto de escombros, mas de prenúncios de uma possível reconstrução. Ali ainda há centelhas de solidariedade entre os moradores e uma tentativa de aplacar a miséria em comum.

Ao evitar adesões passionais, relativizar conceitos e crenças, Agnon põe em prática certa erosão do dogmatismo e da crença em um mundo apolíneo, totalmente regrado pela bondade e bom senso humanos.  Além disso, tal postura instaura perguntas espinhosas. Como diz Amóz Oz em um trecho incluído na contracapa de Hóspede por uma noite:

Todos os atos dos nossos antepassados possuem significado ou não? E, já que começamos, há significado em nossos atos ou não? Haverá sentido em qualquer ato? O que é o pecado, a culpa, e o que é a retidão? Em nenhum desses casos Agnon serve de guia e modelo, ele e seus heróis oscilam, de um extremo a outro, entre o medo e o desespero[4]. E (…) na escrita de Agnon (…) com todo comedimento, dissimulação, surdina, circunlóquios, ironia e, por vezes até mesmo de maneira sofística – com tudo isso o leitor ouvirá um grito abafado…uma ferida aberta. Pois existe um criador genuíno aqui.

Essa ausência de resposta a que se refere Amós Oz poderia nos levar à conclusão de que Agnon seria um niilista ou algum tipo de pirrônico contemporâneo. Mas, em se tratando de um autor sinuoso como ele, que se inspira em tradições que cultivaram um virtuosismo da arte de perguntar, é melhor evitar a rotulagem. Apesar dessas características do estilo da escrita do narrador, é possível ouvir esse grito abafado. O sofrimento pode ser percebido, apesar da ironia e dos recursos narrativos que perpassam a obra.

Considerando-se os aspectos que foram apontados neste breve trabalho digressivo, seria temerário incorrer em interpretações unívocas acerca de uma obra tão complexa, sinuosa, labiríntica (sem o fio de Ariadne), que confunde até mesmo o leitor mais atento e experiente. Tal confusão, por um lado, é benéfica na medida em que confere um frescor (talvez amargo) às questões fundamentais da existência e evita a cristalização dogmática.

Ao final da leitura de Hóspede por uma noite, tive a impressão de que uma das características principais da obra de Agnon é o sentimento de exílio: não apenas o exílio do povo judaico, mas também o exílio ontológico, experimentado por todos que estão lançados em um mundo no qual os valores e referenciais estão sempre em transição, um universo cujas oscilações absurdas, aleatórias, distorcem as chaves interpretativas e ameaçam sistematicamente o acesso às portas do numinoso.

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Referências

ADORNO: Anotações sobre Kafka, in Prismas, Crítica Cultural e sociedade. São Paulo: Editora Ática, 1998.

AGNON, Sch. I. Hóspede por uma noite. São Paulo: Perspectiva, 2014

MAESO, Benito Eduardo Araujo. Kafka: estética e política do estranhamento. São Paulo, 2013. 181 p. Dissertação (Mestrado em Filosofia) – Programa de Pós Graduação em Filosofia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH). 2013.

WALDMAN, Berta. Linhas de força: escritos sobre literatura hebraica. São Paulo: Associação Editorial Humanitas, 2004.

[1] Nota-se, no narrador, uma atitude de suspeita com relação à própria percepção dos fenômenos. Não sabemos se tal suspeita seria apenas um recurso retórico ou opinião sincera: “Em minha infância costumava ver tudo o que desejava; quando cresci um pouco, a visão diminuiu e não via senão o que me mostravam. Agora não vejo nem o que desejo e tampouco o que me mostram”. (p.143). Diante de uma percepção duvidosa, fragmentária, surge o sonho como recurso indispensável para suprir tais deficiências. De acordo com Berta Waldman (apresentação da obra, p.21), “se o autor padece quando se confronta com a realidade e empenha-se em alterá-la, fazendo um esforço em trazê-la para aquilo que ela não é mais, é no sonho que se efetiva o desejo frustrado no dia a dia” (p.21). O sonho descrito no capítulo XV (poderíamos pensar no papel compensatório que Carl Gustav Jung atribuía aos fenômenos oníricos) poderia ser interpretado como essa tentativa de atingir algum tipo de completude impossível.

[2] Evidentemente, não devemos hipertrofiar tal influência, uma vez que há aspectos que particularizam a obra de Agnon. A respeito de algumas ressonâncias e dissonâncias entre a obra de Kafka e Agnon, afirma Guinsburg: “Não há dúvida de que o outro lado de seu estro, a face trágica de sua máscara artística bifronte, apresenta algumas similitudes na técnica de escrever e certo parentesco espiritual com Kafka (…) A mitologia do homem desterrado, alienado, cindido, ‘estrangeiro’, desabrigado, absurdo, que daí surge por contragolpe, também é encontradiça em Agnon. Mas a constelação é bem outra. (…) No seu universo, como em parte no de Bialik, o grande poeta hebreu, a Divina Presença foi expulsa, mas ainda o sobrepaira e lhe faz sentir a dor de seu desterro” (Tradição e modernidade em Sch.I.Agnon, prefácio da obra, p.38).

[3] Conceito de difícil tradução. O unheimlich remete a algo familiar (heim) e, ao mesmo tempo, assombroso e estranho. Talvez pudéssemos traduzir tal conceito por o “estranho familiar”.

[4] Poderíamos acrescentar que eles também oscilam entre o medo e o heroísmo. Este, na obra em análise, não aparece de forma tão explícita, mas sua existência pode ser intuída.

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