“Curto prazo final” (George Steiner)

QUANDO LHE MOSTRARAM um epigrama de uma linha e meia,¬†Nicolas¬†de Chamfort (1741-94), mestre da brevidade mordaz, comentou¬†que ele demonstraria mais esp√≠rito se fosse mais curto. O epigrama, o aforismo, a m√°xima s√£o o haicai do pensamento. Procuram¬†condensar a percep√ß√£o mais agu√ßada no menor n√ļmero poss√≠vel de¬†palavras. Quase por deÔ¨Āni√ß√£o, e mesmo quando se prende estritamente a uma prosa coloquial, o aforismo est√° pr√≥ximo da poesia.¬†Sua economia formal pretende surpreender num clar√£o de autoridade; pretende ser singularmente memor√°vel, como um poema.¬†De fato, m√°ximas ou apotegmas famosos oscilam frequentemente¬†entre a grande poesia ou drama e o anonimato do prov√©rbio. Por¬†um instante, n√£o conseguimos lembrar a fonte pessoal e exata.¬†Quem nos ensinou pela primeira vez que ‚Äúa discri√ß√£o √© a melhor¬†parte da coragem‚ÄĚ ou que ‚ÄúDeus d√° o frio conforme o cobertor‚ÄĚ?¬†Em que texto encontramos o dito, que ajudou a deflagrar uma¬†revolu√ß√£o inteira na hist√≥ria da forma e da percep√ß√£o, de que ‚Äúa¬†natureza imita a arte‚ÄĚ? Essas sint√©ticas revela√ß√Ķes de Shakespeare,¬†Laurence Sterne e Oscar Wilde passaram para a gl√≥ria da linguagem comum.

Na literatura francesa, o aforism√°tico e o epigram√°tico t√™m¬†um papel excepcional. A composi√ß√£o de pens√©es, formuladas com¬†a m√°xima brevidade poss√≠vel, √© uma tradi√ß√£o tipicamente gaulesa. Em Pascal – e isso √© uma proeza rara em qualquer l√≠ngua ou¬†¬†literatura – a estrat√©gia aforism√°tica se estende aos campos ,¬†complexos e sublimes da teologia e da metaf√≠sica. Em Paul Val√©ry¬†ela permite uma eleg√Ęncia soberbamente concisa a uma longa tradi√ß√£o sobre a natureza da poesia e das artes. As m√°ximas de¬†Rochefoucauld, de Vauvenargues, de Chamfort s√£o com grande¬†probabilidade as mais eloquentes da tradi√ß√£o ocidental. Um contempor√Ęneo, Ren√© Char, anulou deliberadamente a distin√ß√£o¬†entre a sententia (termo latino para o dito ou proposi√ß√£o de uma frase s√≥) e o poema curto. Em seus melhores momentos, Char, como¬†Val√©ry, enuncia um instante musical do pensamento.

Por que essa predileção francesa pelo aforismo? (Em alemão o estilo aforismático de Lichtenberg e de Nietzsche é claramente devedor do precedente francês.) Uma das respostas reside numa orgulhosa latinidade explícita. A literatura e o pensamento
franceses se orgulham de suas afinidades com a fonte romana.¬†Os costumes¬†romanos, tanto na esfera do poder pol√≠tico quanto na do discurso, atribu√≠am valor eminente √† concis√£o. A brevidade era n√£o s√≥¬†a alma do esp√≠rito, mas tamb√©m uma conven√ß√£o de controle e¬†autocontrole viril mesmo sob extrema press√£o de perigos pessoais¬†ou c√≠vicos. O costume franc√™s das m√°ximas e pens√©es¬†parece em¬†boa parte remontar diretamente √† concis√£o lapidar e √† a autoridade¬†p√©trea das inscri√ß√Ķes romanas. ‚ÄúCi g√ģt Gide‚ÄĚ, ‚Äúaqui jaz Gide”, foi a¬†recomenda√ß√£o de Andr√© Gide para seu epit√°Ô¨Āo. √Ȭ†da heran√ßa¬†que a l√≠ngua francesa extrai seu ideal de la litote. Em ingl√™s, “understatement” √© uma tradu√ß√£o claudicante. A litotes, como vemos¬†constantemente no maior escritor franc√™s, Racine, √© a express√£o¬†densa, cerrada, de alguma enormidade fundamental nas emo√ß√Ķes¬†e reconhecimentos humanos. Em seus tra√ßos mais caracter√≠sticos,¬†ela √© aquela torrente de sil√™ncio que dizem os pilotos existir no olho¬†de um furac√£o.

Como afirmei, a tradi√ß√£o francesa abarca no terreno aforism√°tico √°reas t√£o diversas como religi√£o e est√©tica, psicologia e pol√≠tica. Mas o foco predominante √© o dos moralistes. Aqui tamb√©m a tradu√ß√£o √© falha. Um moraliste, especialmente na forma como floresceu¬†nos s√©culos XVII e XVIII, aplica valores e princ√≠pios universais a problemas de conduta social. Ele observa com agudeza, ele ‚Äúdisseca” as¬†conven√ß√Ķes mundanas √† luz impl√≠cita da eternidade. O verdadeiro¬†moraliste moraliza apenas de maneira indireta, isolando laconicamente, dando formula√ß√£o monumental a algum gesto, rito ou lugar-comum ef√™mero, mas sintom√°tico, da sociedade de sua √©poca. O¬†g√™nio de La Rochefoucauld ou de Vauvenargues consiste na exata¬†riqueza da conduta humana observada que sustenta a escassez, a¬†aparente generalidade de suas anota√ß√Ķes. Por tr√°s da serena observa√ß√£o de La Rochefoucauld, radical como nenhuma outra nos anais¬†da percep√ß√£o, de que h√° algo que n√£o nos desagrada nos infort√ļnios de um bom amigo, encontra-se n√£o s√≥ o fulgor de um escrut√≠nio individual, mas o conhecimento pr√°tico dos modos da corte e do beau
monde t√£o amplo quanto o de Saint-Simon ou de Proust.

Tendo emigrado de Bucareste para Paris √†s v√©speras da Segunda Guerra Mundial, E. M. Cioran criou para si, nos √ļltimos¬†quarenta anos, uma fama esot√©rica mas incontestada de ensa√≠sta e¬†aforista do desespero hist√≥rico-cultural. Drawn and Quartered [Arrastados e esquartejados] (Seaver Books, 1983) √© a tradu√ß√£o de um¬†texto publicado em franc√™s como Ecart√®lement [Esquartejamento],¬†em 1971. As m√°ximas e reflex√Ķes que constituem o principal de Drawn and Quartered s√£o precedidas por um pr√≥logo apocal√≠ptico.¬†Olhando os imigrantes, os h√≠bridos, os destro√ßos soltos de humanidade que agora flutuam por nossas cidades an√īnimas, Cioran conclui que agora √© de fato –¬†como proclamou Cyril Connolly — ‚Äúhor√°rio de fechamento nos jardins do Ocidente‚ÄĚ. Somos Roma em¬†seu decl√≠nio febril e macabro: ‚ÄúTendo governado dois hemisf√©rios,¬†o Ocidente agora se toma seu alvo de risadas: espectros sutis, Ô¨Ānal¬†da linha em sentido literal, condenados √† condi√ß√£o de p√°rias, de escravos tr√īpegos e balofos, condi√ß√£o √† qual talvez escapem os russo;¬†estes √ļltimos brancos”. Mas a din√Ęmica da inevit√°vel degrada√ß√£o vai¬†muito al√©m da situa√ß√£o espec√≠Ô¨Āca do hemisf√©rio ocidental capitalista e tecnol√≥gico. E a pr√≥pria hist√≥ria que degringola:

Em todo caso, √© evidente que o homem deu o melhor de si e mesmo se f√īssemos presenciar o surgimento de outras civiliza√ß√Ķes,¬†certamente n√£o valeriam as antigas, nem mesmo as modernas, sem¬†contar que n√£o poderiam evitar o cont√°gio do Ô¨Ām, que se tornou
esp√©cie de obriga√ß√£o e programa para n√≥s. Da pr√©-hist√≥ria at√© n√≥s, e de √† p√≥s-hist√≥ria, esta √© a rota para um Ô¨Āasco gigantesco, preparado¬†e anunciado em todos os per√≠odos, inclusive as √©pocas de apogeu. Mesmo os utopistas veem o futuro como um fracasso, j√° que inventam um regime para escapar a qualquer esp√©cie de devir: concebem¬†outro tempo dentro do tempo [. . .] algo como um inesgot√°vel fracasso,¬†n√£o atravessado pela temporalidade e superior a ela. Mas a hist√≥ria, da¬†qual Ahriman √© o mestre, pisoteia tais divaga√ß√Ķes.

A esp√©cie humana, entoa Cioran em sua ladainha, est√° come√ßando a Ô¨Ācar ultrapassada. O √ļnico interesse que um moraliste e¬†profeta do Ô¨Ām pode sentir pelo homem nasce do fato de ele ser “perseguido e acuado, afundando-se cada vez mais”. Se prossegue¬†em seu caminho s√≥rdido e fat√≠dico, √© porque lhe faltam as¬†necess√°rias para capitular, para cometer um suic√≠dio racional. Existe apenas uma coisa absolutamente certa em rela√ß√£o ao homem: “Est√° ferido no mais fundo de si [. . .] est√° podre at√© a raiz”. (Vem-nos irresistivelmente √† lembran√ßa a can√ßoneta plangente, mas trocista, do ‚Äúrotten to the core, Maude‚ÄĚ.)

Ent√£o o que h√° pela frente? Cioran responde:

Avan√ßamos en masse para um tumulto sem igual, vamos nos erguer¬†uns contra os outros como aleijados em convuls√Ķes, como bonecos¬†alucinados, porque, como tudo se tornou imposs√≠vel e irrespir√°vel¬†a para todos n√≥s, ningu√©m se dignar√° a viver, exceto para liquidar e liquidar a si mesmo. O √ļnico frenesi de que ainda somos capazes √© o¬†frenesi do Ô¨Ām.

A soma da hist√≥ria √© ‚Äúuma v√£ odisseia” e √© leg√≠timo –¬†na verdade, necess√°rio – ‚Äúimaginar se a humanidade, tal como est√°, n√£o¬†faria melhor eliminando a si mesma em vez de deÔ¨Ānhar e se afundar na expectativa, expondo-se a uma era de agonia na qual corre o risco de perder todas as ambi√ß√Ķes, at√© mesmo a ambi√ß√£o de desaparecer‚ÄĚ. Depois de tal rumina√ß√£o, Cioran se inclina numa pequena pirueta de ironia ca√ßoando de si mesmo: ‚ÄúRenunciemos pois¬†a todas as profecias, aquelas hip√≥teses fren√©ticas, n√£o nos deixemos mais enganar pela imagem de um futuro remoto e improv√°vel;¬†conformemo-nos a nossas certezas, a nossos abismos indubit√°veis‚ÄĚ.

O problema com esse tipo de escrita e de pseudopensamento¬†n√£o √© a comprova√ß√£o. O s√©culo de Auschwitz e da corrida armamentista, da fome em escala mundial e da loucura totalit√°ria realmente¬†pode estar se precipitando para um Ô¨Ānal suicida. √Č conceb√≠vel que
a gan√Ęncia humana, as enigm√°ticas necessidades de √≥dio m√ļtuo¬†que alimentam a pol√≠tica intema e externa, a tremenda complexidade dos problemas econ√īmico-pol√≠ticos possam gerar conflitos¬†internacionais catastr√≥Ô¨Ācos, guerras civis calamitosas e o desmoronamento interno das sociedades, sejam as imaturas, sejam as mais¬†velhas. Todos n√≥s sabemos disso. E esse conhecimento √© o que est√°¬†sob o pensamento pol√≠tico s√©rio, sob os debates filos√≥ficos sobre¬†a hist√≥ria, desde 1914-18 e o modelo de Spengler da decad√™ncia do Ocidente. E tampouco √© poss√≠vel negar uma sensa√ß√£o intuitiva,¬†uma sugest√£o persuasiva de que h√° uma esp√©cie de esgotamento¬†nervoso, de entropia nas fontes interiores da cultura ocidental. Parece que somos governados por an√Ķes e charlat√£es mais ou menos¬†mentirosos. Nossas respostas √†s crises mostram certo automatismo¬†de son√Ęmbulos. Nossas artes e letras s√£o provavelmente epig√īnicas.¬†Em si, o serm√£o f√ļnebre de Cioran (que j√° foi proferido por muito¬†outros antes dele) pode se revelar correto. Na verdade, meu pr√≥prio¬†instinto n√£o aponta para dire√ß√Ķes muito mais animadoras.

N√£o, as obje√ß√Ķes a serem levantadas s√£o de dupla ordem. As¬†passagens citadas demonstram um excesso de simplifica√ß√£o maci√ßa e¬†brutal. O teor dos assuntos humanos √© e sempre foi tragic√īmico.¬†Da√≠ a import√Ęncia central de Shakespeare, com sua recusa das¬†trevas¬†absolutas. Fortinbr√°s, como ser, √© menor do que Hamlet; muito¬†provavelmente, governar√° melhor. Birnam Wood¬†reflorir√° depois¬†que avan√ßar sobre Dunsinane. A hist√≥ria e a vida das pol√≠ticas e sociedades s√£o variegadas demais para ser subsumidas a qualquer¬†padr√£o √ļnico grandiloquente. As bestialidades de nossos tem¬†seu potencial de autodestrui√ß√£o, s√£o evidentes por si s√≥s; mas igualmente evidente √© o puro e simples fato de que nunca na hist√≥ria¬†deste planeta foi t√£o grande a quantidade de pessoas que come
a ter moradia, alimenta√ß√£o e tratamento m√©dico adequado. Nossas¬†pol√≠ticas se regem pelo assassinato em massa, √© verdade, mas √© a¬†primeira vez na hist√≥ria social documentada que se come√ßa expressar e praticar a ideia de que a esp√©cie humana tem responsabilidadades¬†positivas concretas em rela√ß√£o aos deficientes e aos doentes¬†mentais, em rela√ß√£o aos animais e ao meio ambiente. Tenho escrito¬†bastante sobre o veneno que √© o nacionalismo atual, sobre o v√≠rus¬†da f√ļria √©tnica e regional que leva os homens a massacrar seus vizinhos e a reduzir suas pr√≥prias comunidades a cinzas (no Oriente¬†M√©dio, na √Āfrica, na Am√©rica Central, na √ćndia). No entanto, est√£o¬†come√ßando a surgir contracorrentes sutis, mas poderosas. Empresas e organiza√ß√Ķes multinacionais, a comunidade de interesses das¬†ci√™ncias naturais e aplicadas, as culturas da juventude, a revolu√ß√£o¬†na dissemina√ß√£o da informa√ß√£o, as artes populares est√£o gerando¬†oportunidades e imperativos de coexist√™ncia totalmente novos. Est√£o eliminando as fronteiras. As chances continuam pequenas; mas¬†pode ser que, com o tempo, venham a reduzir o cen√°rio do Armaged√£o. Seria arrog√Ęncia e presun√ß√£o decretar de outra maneira. Colocando em termos aned√≥ticos, lembro um semin√°rio dado por C. S.¬†Lewis. Sabendo da profunda nostalgia de Lewis pelo que chamava¬†de ‚Äúimagem unit√°ria‚ÄĚ do cosmo durante a Idade M√©dia e o in√≠cio¬†do Renascimento, sabendo do desagrado de Lewis pelas vulgaridades e indistin√ß√Ķes morais do esp√≠rito do s√©culo XX, um estudante¬†de p√≥s-gradua√ß√£o se p√īs a desÔ¨Āar louvores aos tempos de outrora.¬†Lewis ouviu por alguns instantes, com a cabe√ßorra enfiada entre as¬†m√£os. Ent√£o se virou r√≠spido para o expositor e exclamou: ‚ÄúPare com¬†essa bobagem f√°cil! Feche os olhos e concentre sua alma sens√≠vel¬†no que seria exatamente sua vida antes do clorof√≥rmio”.

A palavra-chave aqui √© ‚Äúf√°cil”. H√° em toda a lamenta√ß√£o de¬†Cioran uma facilidade sinistra. N√£o se requer nenhum pensamento¬†anal√≠tico s√≥lido, nenhum conhecimento ou clareza argumentativa, para pontiÔ¨Ācar sobre .a ‚Äúpodrid√£o”, a ‚Äúgangrena‚ÄĚ do homem, o c√Ęncer terminal da hist√≥ria. As p√°ginas de onde extra√≠ as cita√ß√Ķes n√£o¬†s√≥ s√£o f√°ceis de escrever, como deleitam o escritor com o tenebroso incenso do oracular. Basta ver a obra de Tocqueville, de Henry¬†Adams ou de Schopenhauer para sentir a dr√°stica diferen√ßa. Estes¬†s√£o mestres de uma tristeza clarividente n√£o menos ampla do que¬†a de Cioran. Suas leituras da hist√≥ria n√£o s√£o mais r√≥seas.¬†Mas o¬†que apresentam √© meticulosamente argumentado, n√£o declamado;¬†suas posi√ß√Ķes s√£o moldadas, em cada conex√£o e cada articula√ß√£o do¬†que √© proposto, por um justo senso da complexidade e ambiguidade dos fatos¬†hist√≥ricos. As d√ļvidas que esses pensadores manifestam,¬†as ressalvas que fazem a suas pr√≥prias certezas, honram o leitor.¬†Pedem n√£o a anu√™ncia indiferente ou o eco complacente, mas o¬†reexame e a cr√≠tica. A pergunta que se mant√©m √© a seguinte: as¬†convic√ß√Ķes apocal√≠pticas, a n√°usea e 0 pessimismo mortal de Cioran s√£o percep√ß√Ķes originais e radicais? Os pens√©es, os aforismos e¬†m√°ximas que constituem seu t√≠tulo √† fama pertencem¬†realmente √†¬†linhagem de Pascal, de La Rochefoucauld ou de seu modelo mais¬†pr√≥ximo, Nietzsche?

Drawn and Quartered traz muitos aforismos sobre a a morte.Esse √© um tema sempre caro aos aforistas pois, de fato, existe muito¬†a se dizer sobre a morte? ‚ÄúA morte √© um estado de perfei√ß√£o, o √ļnico ao alcance de um mortal.” (o ponto impl√≠cito √© um trocadilho¬†fraco e batido com 0 sentido de ‚Äúperfei√ß√£o‚ÄĚ em latim)*. ‚ÄúN√£o existe ningu√©m¬†cuja morte n√£o desejei em algum momento” (ecoando La Rochefoucauld). “Morte, que desonra! De repente virar um objeto‚ÄĚ ‚Ästa que se segue a asser√ß√£o absolutamente inconvincente de¬†que ‚Äúnada nos faz modestos, nem mesmo a vis√£o de um cad√°ver”. O¬†tom se eleva a um macabro chique: “O que est√° isento do fun√©reo¬†√© necessariamente vulgar”. E a portentosa asneira atinge o cl√≠max com “A morte √© a coisa mais s√≥lida que a vida inventou at√© agora.”
Experimentemos outro t√≥pico, a atividade de escrever e pensar. ‚ÄúUm livro deve abrir velhas chagas, e at√© infligir novas. Um livro¬†deve ser um perigo.‚ÄĚ Isso mesmo ‚Äste Franz Kafka j√° o disse muito¬†tempo atr√°s, quase nos mesmos termos. ‚ÄúEscreve-se n√£o porque se¬†tem alguma coisa a dizer, mas porque se quer dizer alguma coisa.‚Ä̬†Correto. ‚ÄúExistir √© pl√°gio.” Pista espirituosa e sugestiva. ‚ÄúQuando¬†sabemos 0 que valem as palavras, o surpreendente √© que tentemos¬†dizer alguma coisa, e consigamos. Isso requer, de fato, uma coragem sobrenatural.” Verdade; e j√° professada com muita frequ√™ncia¬†c autoridade irrefut√°vel por Kafka, Karl Kraus, Wittgenstein e Beckett. ‚ÄúOs √ļnicos pensadores profundos s√£o os que n√£o t√™m senso¬†de rid√≠culo.‚ÄĚ Cf. Rousseau e Nietzsche, que chegaram √† mesma¬†descoberta, mas com uma for√ßa circunstancial muito maior. (A essa¬†obje√ß√£o Cioran poderia responder: ‚ÄúN√£o invento nada, sou apenas o¬†secret√°rio de minhas sensa√ß√Ķes‚ÄĚ.) ‚ÄúUm autor que diz escrever para¬†a posteridade deve ser ruim. Nunca devemos saber para quem escrevemos.‚ÄĚ A advert√™ncia pode ser irrepreens√≠vel; mas basta pensar¬†um instante em Hor√°cio, Ov√≠dio, Dante, Shakespeare ou Stendhal e¬†logo se revela sua superficialidade.

Cioran √© o autor de um ensaio interessante sobre De Maistre,¬†o¬†grande pensador da contrarrevolu√ß√£o e do pessimismo antidemocr√°tico. V√°rios aforismos ‚Äste est√£o entre os mais substanciais¬†‚Ästapontam para essa propens√£o na pol√≠tica soturna do pr√≥prio Cioran:¬†“Nunca esque√ßam que as plebes prantearam Nero”. “Todas essas¬†pessoas na rua me fazem pensar em gorilas exaustos, todas elas¬†cansadas de imitar o homem.” “A base da sociedade, de qualquer¬†sociedade, √© um certo orgulho na obedi√™ncia. Quando esse orgulho¬†deixa de existir, a sociedade se desmorona.” “Quem fala a linguagem da Utopia me √© mais estranho do que um r√©ptil de outra era¬†geol√≥gica.”¬†“Torquemada era sincero, portanto inflex√≠vel, desumano.¬†Os papas corruptos eram caridosos, como todos os que podem ser¬†comprados.” Ate acredito que o elitismo estoico de Cioran, seu rep√ļdio do progresso √† l’am√©ricaine, traz mais verdade em si do que a¬†maioria dos modismos atuais do liberalismo ecum√™nico. Mas aqui¬†n√£o se acrescenta nada de muito novo ou interessante √† defesa do¬†obscurantismo que temos em De Maistre, em Nietzsche ou na pol√≠tica vision√°ria de Dostoi√©vski. O aforismo sobre Torquemada, por¬†exemplo, com seu frisson de moda, sai diretamente do poderoso em favor do carrasco.

Os aforismos mais reveladores s√£o aqueles nos quais Cioran,¬†atesta sua pr√≥pria esterilidade e cansa√ßo: “Todas as minhas ideias se¬†resumem a desconfortos reduzidos a generalidades”; “S√≥ me sinto¬†ativo, competente, capaz de fazer algo positivo quando me deito e¬†me entrego a divaga√ß√Ķes sem objeto nem finalidade”. H√°¬†um p√°thos de¬†lucidez em Cioran quando ele confessa que lhe seria mais f√°cil¬†fundar um imp√©rio do que formar uma fam√≠lia, e sente-se uma for√ßa persuasiva¬†imediata em seu coment√°rio de que apenas quem
teve filhos duvidaria do pecado original. Instintivamente acreditamos e¬†refletimos na proposi√ß√£o: “N√£o luto contra o mundo, luto¬†contra uma for√ßa maior, contra meu cansa√ßo do mundo”. Como diz uma m√°xima brit√Ęnica, um pouco de t√©dio faz bem. S√≥ que¬†180¬†p√°ginas, culminando na (rid√≠cula) exclama√ß√£o ‚ÄúO homem √© inaceit√°vel”, nos deixam um tanto recalcitrantes.

O problema pode estar no dito de Cioran segundo¬†o qual nos¬†aforismos, como nos poemas, o que reina √© a palavra sozinha. Talvez¬†isso seja verdade em rela√ß√£o a alguns tipos de poesia, sobretudo a l√≠rica. N√£o √© verdade em rela√ß√£o aos grandes aforistas,¬†para os quais a¬†sententia √©¬†soberana,¬†e soberana justamente porque traz √† mente do leitor toda uma riqueza¬†interiorizada e rec√īndita de antecedentes¬†hist√≥ricos, sociais, Ô¨Ālos√≥Ô¨Ācos. O mais belo texto aforism√°tico das¬†√ļltimas d√©cadas, Minima moralia, de Theodor W. Adorno,¬†transborda¬†com a autoridade de uma aut√™ntica taquigrafia, de um roteiro¬†cuja concis√£o se retraduz, obriga a se retraduzir, numa psicologia¬†e sociologia completa da consci√™ncia hist√≥rica atenta. Qualquer¬†compara√ß√£o honesta com Drawn¬†and Quartered √© demolidora. Sem¬†d√ļvida existem exemplos melhores da obra de Cioran, sobretudo¬†antes que seus textos se reduzissem a meras repeti√ß√Ķes de si mesmos. Por√©m uma colet√Ęnea dessa ordem, Ô¨Āelmente traduzida por¬†Richard Howard, de fato nos faz perguntar n√£o se o rei est√° nu, mas¬†se aÔ¨Ānal h√° algum rei.

16 de abril de 1984

George STEINER. Tigres no espelho (e outros textos da revista New Yorker). Trad. de Denise Bottman. São Paulo: Globo, 2012, pags. 293-303.

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