Artigo de juventude: “A Melancolia de Dürer” (Cioran)

Artigo publicado originalmente no periódico romeno Calendarul, em 8 de julho de 1932 (portanto, aos 21 anos de idade). Traduzido para o francês e incluído no volume Solitude et destin (2004), contendo apenas artigos de juventude Cioran.

De tudo o que Dürer criou, a gravura intitulada A Melancolia é o que mais contém elementos favoráveis à reflexão e ao abandono aos quais se pode entregar mergulhando-se na atmosfera de uma obra de arte. Minha admiração não é devida à apreciação objetiva da forma, mas à alegria suscitada por uma criação que exprime um estado de alma em si. Aqui, o psiquismo prima sobre a técnica. A melancolia opera uma dualidade, ela separa o homem de seu ambiente e do real em geral, intensificando a consciência da diferença de natureza que há entre o homem e a realidade objetiva.

A solidão e o sentimento de abandono têm, neste caso, raízes profundas, pois não resultam de condicionamentos acidentais ou de determinações insignificantes: decorrem da totalidade de nosso ser. Mais que no simples tédio, é na melancolia que o homem está só face à existência. A acuidade de sua intuição mostrou a Dürer que a melancolia só tinha significação profunda se o olhar do homem melancólico se abrisse sobre uma perspectiva do infinito. Desenvolvendo excessivamente o sentimento da finitude do indivíduo, a progressividade ininterrupta implicada na ideia de infinito cria um quadro propício à melancolia. O olhar perdido que supõem todos os estados depressivos, a intuição vaga e difusa não teriam sentido em quadro limitado, sem perspectiva. Não é inútil mencionar aqui que o sentimento do infinito desapareceu em grande parte das cidades modernas, pois o homem está apertado nelas, oprimido pelo espaço, que não se abre mais diante dele em sua grandeza natural. Em vez de viver no infinito espacial, o homem das grandes cidades vive, em compensação, o infinito temporal como devir concreto, com todas as implicações relativistas que isso implica.

A visão da melancolia em Dürer é totalmente desprovida de serenidade. Ela revela uma insatisfação próxima do trágico. Não ocorre o mesmo no Renascimento italiano. Lá também os estados melancólicos têm o infinito como quadro, lá também eles desvelam a estranha particularidade do homem no universo, mas a tensão reflexiva é atenuada por um sorriso contido e misterioso, que o homem dispersa na infinidade. O dualismo não toma a forma de uma tensão dolorosa, pois os laços com a ordem cósmica foram não foram ainda rompidos.

Precisemos que, na melancolia, não se está definitivamente separado da existência. Disso é testemunha o sentimento do lamento, sempre presente e que visa geralmente a um fato irreparável pertencente ao passado. Ele reabre uma ferida cicatrizada ou atualiza um conteúdo psíquico que não podemos mais viver em seu quadro. É certamente doloroso despedaçar-nos abandonando antigos quadros de vida em que deixamos um pouco do conteúdo de nosso ser. Mas, aqui, o divórcio com o real é, por assim dizer, retrospectivo, nada indicando quanto às possibilidades futuras.

Que diferença em relação ao desespero, que nos dá uma impressão de definitivo! O sentimento do abandono absoluto, de uma suspensão torturante no universo, da presença inelutável da morte na vida, da imanência do mal nas raízes da criação, persuade fortemente nossa consciência de que o irreparável está diante de nós, que as tentativas de melhorar a condição humana são todas destinadas ao fracasso. O tempo, que na melancolia representa essencialmente um princípio irracional, desvela no desespero seu caráter demoníaco. Em Dürer, como em geral no Renascimento do Norte, a melancolia está mais próxima do desespero que no Renascimento italiano. Este último a tempera com um sentimento embrionário da graça. Mais tarde, no século XVIII, em um Reynolds ou um Gainsborough, a melancolia será inseparável do charme da inutilidade que se desprende da graça. Mas ela terá uma coloração demasiado feminina para conservar sua capacidade de revelar o mundo. Contrariamente a Martin Heidegger, pensamos que é a melancolia que desvela ao homem o ente em si, e não o tédio, pois este resulta de condicionamentos completamente fortuitos e exteriores. Ele é a forma vulgar da melancolia e, por isso, não pode ter uma rica produtividade; corresponde essencialmente a uma ausência de ocupações ou de excitações exteriores. Pouco importa que Dürer tenha pensado ou não na capacidade de revelação incluída no estado melancólico, pois os artistas objetivam vivências irracionais sem remetê-las a um plano teórico. Há, de resto, em A Melancolia de Dürer, um fundo religioso que nós, modernos, mal apreendemos porque vivemos quase unicamente no plano da imanência.

A nostalgia que emana do olhar do estranho personagem da gravura de Dürer não exprime uma espécie de lamento religioso por realidades perdidas?  Não exprimem uma aspiração à transcendência? Pois essa aspiração a realidades transcendentes estava muito presente em todo o Renascimento, tanto o meridional quanto o nórdico, ainda que menos intenso na Itália do que no norte da Europa, onde o cristianismo tinha tido menos a sofrer da recrudescência do paganismo. Não se constata em Dürer uma oscilação entre a intencionalidade transcendente e a imanência terrestre, oscilação que é uma das facetas do seu trágico. A alma gótica sempre esteve inquieta, nunca encontrou nem a calma nem o equilíbrio. O Renascimento do Norte é um simples episódio. O barroco retomará a tradição gótica. No entanto, por essa mesma razão, o Renascimento do Norte conserva um caráter de incerteza torturante, pois uma alma se revestiu de formas heterógenas. Compreende-se então porque a melancolia é temperada pelo sorriso na Itália, enquanto que é agravada por uma tensão dolorosa no norte da Europa. Se A Melancolia de Dürer é desprovida da menor ironia que seria uma negatividade infinita, é porque a realidade opõe ao homem uma resistência demasiado grande para que ele possa por sua vez opor-lhe o sorriso de sua própria superioridade. Isso explica a inclinação do Renascimento italiano à vida e o do Renascimento do Norte à morte.

Tradução: Rodrigo Inácio Ribeiro Sá Menezes

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