“História do nada”: livro de Sergio Givone

RESENHA:
GIVONE, S. Historia de la nada. Tradução espanhola de Alejo González e Demian Orosz. Buenos Aires: Adriana Hidalgo, 2001.

O filósofo italiano Sergio Givone (discípulo de um dos maiores filósofos italianos contemporâneos, Emanuele Severino) é autor de um estudo muito interessante sobre a História do Nada (Istoria dela nulla), uma história que se intersecciona, em muitos pontos (tardiamente), com aquela que seria a história do niilismo, ainda que sejam duas narrativas em grande medida paralelas, distintas em uma série de questões e aspectos.

Primeiramente, trata-se de uma história muito mais extensa do que aquela do niilismo stricto sensu, remontando à Grécia arcaica, na qual Givone explora a relação entre “o nada, o mal e a culpa” (no sentido nietzschiano da única “teodicéia satisfatória”, ou seja o enredo dramático entre homens e deuses nas tramas do Destino) dos Pré-socráticos aos poetas trágicos, passando pela controvérsia entre Górgias e Parmênides a respeito do ser e do não-ser, no contexto da sofística.

A premissa de Givone, e que lhe permite distinguir categoricamente sua História do Nada de uma História do Niilismo, é que, enquanto o niilismo é um fenômeno histórico, historicamente localizado e determinado, “pode-se falar do nada suspendendo tranquilamente a história” (GIVONE 2001: 8). O autor argumenta que “a ideia do nada é uma categoria filosófica, tratada como tal, independentemente do uso que o niilismo fez dela, o qual, em todo caso, é um fenômeno moderno, que intervém séculos após os filósofos terem individualizado dita categoria” (GIVONE 2001: 9). O nada é uma categoria trágica (e filosófica) antes que niilista (e religiosa) e, não obstante, por um paradoxo que deriva da própria “essência” do nada, mais mística do que filosófica.

A meontologia, ou seja, a ontologia do nada, é o objeto dessa História do nada . Trata-se, nas palavras do autor, de uma “contra-história do denegado”: ou seja, una “Contra-história do Nada”, que teria sido sistematicamente excluído dos continentes da Razão por toda uma tradição metafísica de pensamento, espiritualidade e moralidade (platonismo, cristianismo, onto-teologia) do Ser-Absoluto-Deus fundado na necessidade, a exemplo do Ser de Parmênides, desqualificado em quanto possibilidade de pensamento, princípio de existência e de criação. A meontologia, por outro lado, se constitui como uma ontologia negativa e “radicalmente livre”, fundada não na necessidade lógica e ontológica do Ser, senão na absoluta contingência (liberdade) do Ser, na ausência absoluta (o nada) de necessidade.

Esta ontologia, que submerge, por assim dizer, o ser no “abismo da liberdade” (a expressão é de Heidegger, e se encontra no pós-escrito de Was ist Metaphysik?), em vez de vinculá-lo ao ente necessário, pressupõe uma verdadeira ontologia, uma autêntica ontologia do nada. O nada do fundamento. O nada que converte o ser em liberdade. Mas então este é o passo decisivo: é necessário converter, em virtude do nada do fundamento, o ser em liberdade. Necessita-se, em suma, reconhecer que a liberdade é o sentido do ser. (GIVONE 2001: 18)

A História do Nada divisada por Givone não poderia deixar de incluir a tradição mística derivada do neoplatonismo, da qual descenderá tanto a mística renana de Meister Eckhart quanto a mística do Carmelo, representada por Teresa de Ávila e João da Cruz – enfim, uma tradição “menor” de espiritualidade e pensamento para a qual a teologia negativa, ou apofática, na linha de Pseudo-Dioniso Areopagita (sua Teologia mística, correlata do que seria, no plano da discursividade filosófica, certa meontologia, ou seja, uma ontologia do nada, negativa), será um instrumental dianoético essencial, assim como será central a noção do Nada em detrimento da ideia (parmenídica) do Ser.

Em sua diversidade de representações e expressões, para além do discurso filosófico, a narrativa de Givone percorre também o itinerário criativo de alguns artistas, das artes visuais (Albert Dürer) à poesia (Leopardi, Baudelaire), problematizando questões como a dialética entre a representação do fim e o fim da representação, conforme esta problemática se relaciona com temas caros tanto à História do Nada quanto à História do Niilismo: a vanitas, o fim da história e o fim do mundo, a melancolia, a angústia o desespero, a morte, a desrazão…

A intuição fundamental de Givone é de que o “nada”, antes de representar um princípio ou pulsão de destruição e de morte, sugerindo aquele tipo de niilismo suicida diagnosticado por Nietzsche, representa o fundo abissal de cuja negatividade infinita deriva o ser e o fundamento mesmo do ser, o pré-princípio infinitamente negativo e infinitamente livre – fundo sem fundo abismal – do qual emanam toda possibilidade e toda necessidade.

Por fim, a meontologia inaugura una “lógica” (no sentido fundamental de legein, não o Organon aristotélico) apofática: lógica da contradição, da não-identidade radical (no sentido de remontar à raíz, ao fundamento), do Devir enquanto absoluto infinitamente negativo, princípio de contingência radical; uma lógica que tende ao silêncio ou ao infinito (o “eterno retorno”) de uma linguagem que não pode senão refletir-se a si mesma, sempre diferindo de si, tentando comunicar alguma coisa e não podendo comunicar nada, nada tendo a comunicar além da pletora de significados, reais ou virtuais, de sua própria indigência; o lógos da meontologia é o pensamento e a palavra (de ascendência trágica, sempre à beira do niilismo) que afirmam a liberdade ontológica radical de poder ser ou não ser, e inclusive – sobretudo – ser e não ser ao mesmo tempo.

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