“Tempo, eternidade e t茅dio em Cioran”, por Vict贸ria Monteiro de Lima

Vict贸ria Monteiro estuda Filosofia na Universidade S茫o Judas Tadeu (USJT). Descobriu Cioran a partir de estudos sobre Ceticismo e Dogmatismo. Contribui regularmente para o blog Colunas Tortas.

鈥淎ssim, n茫o sabendo crer em Deus, e n茫o podendo crer numa soma de animais, fiquei, como outros da orla das gentes, naquela dist芒ncia de tudo a que se chama a Decad锚ncia. A Decad锚ncia 茅 a perda total da inconsci锚ncia; porque a inconsci锚ncia 茅 o fundamento da vida. O cora莽茫o, se pudesse pensar, pararia. 鈥

Fernando Pessoa em O livro do desassossego

Das ang煤stias ambientadas nas ruas e nos estabelecimentos de Lisboa 脿s ang煤stias ambientadas nas ruas de Sibiu e numa mansarda em Paris: Emil Cioran expressou, em seus ensaios e textos aforism谩ticos, um descontentamento visceral em rela莽茫o a todo o vigor da humanidade que, cega quanto 脿s suas pr贸prias dimens玫es, disp玫e-se aos maiores empreendimentos quando a marcha da Hist贸ria se d谩, em realidade, em um universo vazio de significa莽茫o. Por meio de um pensamento l铆rico e 鈥渙rg芒nico鈥, chegou a conclus玫es sobre a nulidade das a莽玫es 鈥 e das pretens玫es 鈥 humanas que culminaram no que se pode chamar de 鈥渘ega莽茫o absoluta鈥, assim descrita por Rossano Pecoraro:

鈥溍 dizer n茫o aos truques da raz茫o, 脿s pretens玫es da Filosofia, 脿s viol锚ncias da verdade, 脿s ilus玫es sobre o homem e a sua Hist贸ria, 脿s utopias, 脿s promessas de uma reden莽茫o, 脿s esperan莽as, aos enganos do conhecimento, (…).鈥 [1]

Cioran foi quem levou as indaga莽玫es metaf铆sicas 脿s suas 煤ltimas consequ锚ncias, despojando a vida dos adere莽os fantasiosos que a tornam toler谩vel frente ao Nada. A ins么nia, mal que o acompanharia durante muitos anos a partir de sua juventude em Sibiu, desvelaria a ciclicidade do tempo, o que traria ao jovem pensador uma percep莽茫o exclusiva 脿queles desprovidos da ilus茫o de 鈥渞ecome莽o鈥 fornecida por uma noite de sono.

Em sua obra, a experi锚ncia do ennui, comumente traduzido como 鈥渢茅dio鈥, mas tamb茅m possivelmente como 鈥渆nfado鈥, 鈥渁borrecimento鈥 ou 鈥渇astio鈥, deriva desta experi锚ncia contemplativa do tempo; do devir e sua digress茫o frente 脿 eternidade, assim como de seu decorrente fato dilacerante: 鈥渢udo passa鈥.

Em Brevi谩rio de decomposi莽茫o, Cioran alude a esta experi锚ncia como a de uma tarde de domingo intermin谩vel, j谩 que nelas a aus锚ncia da a莽茫o nos revela o tempo em sua 鈥渘udez鈥.
E quando o tempo se lhe nos apresenta desta forma, nos mostrando a inanidade de qualquer a莽茫o (n茫o apenas enclausurada em sua temporalidade, mas executada como mero pretexto de nos mantermos vivos), de onde poder谩 vir a disposi莽茫o e o afinco que tornam poss铆vel cada uma de nossas empresas, desde tomar o caf茅 da manh茫 a dar cabo 脿 Hist贸ria? Como poder铆amos continuar agindo sem a sensa莽茫o de sermos marionetes, presas 脿s nossas ilus玫es?

鈥淥 t茅dio 茅 o eco em n贸s do tempo que se dilacera…, a revela莽茫o do vazio, o esgotamento desse del铆rio que sustenta ou inventa 鈥 a vida.鈥 [2]

S贸 se pode viver com uma no莽茫o enganosa de nossa temporalidade, a qual compreendemos em termos de 鈥渄ias鈥, 鈥渕eses鈥, 鈥渁nos鈥, mas n茫o sendo esta se n茫o uma compreens茫o limitada do tempo mesmo que, em seu curso irrefre谩vel e eterno, tudo arrasta. Contempl谩-lo 茅 n茫o poder viver no momento e, de certo modo, invejar os que podem, pois 鈥渁 vida s贸 tem sentido pela viola莽茫o do tempo鈥. [3] Os acontecimentos humanos, por sua vez, n茫o possuindo import芒ncia em si mesmos, parecem-nos um espet谩culo c么mico quando observados de fora.

O t茅dio 茅 o resultado inevit谩vel desta clarivid锚ncia: a m谩xima 鈥渢udo passa鈥 deixa de ser um clich锚 paliativo e cria ra铆zes na consci锚ncia. Quando compreendido em seu fluir ininterrupto, o tempo torna insossas todas as possibilidades. O conhecimento de nossa situa莽茫o no universo e, al茅m disso, seu sentimento constante, nos deixa prostrados, e cria uma distin莽茫o entre aqueles que 鈥渧ivem como se fossem eternos鈥 e aqueles que 鈥減ensam continuamente sua eternidade e a negam em cada pensamento鈥. [4]

No entanto, Cioran n茫o prop玫e objetivamente algum modo de liberta莽茫o desta condi莽茫o. Nem mesmo o suic铆dio 茅 uma op莽茫o, embora seja uma obsess茫o subsequente, pois representaria a frustra莽茫o de um otimista, mas n茫o a resigna莽茫o de um pessimista, indiferente 脿 vida e 脿 morte. Ao contr谩rio, ele sugere que o mais sensato 茅 levar esta lucidez, que nada mais 茅 do que a consci锚ncia do que significa 鈥渆xistir鈥, 脿s suas 煤ltimas consequ锚ncias, esgotando-a por exaust茫o.

鈥淨uem n茫o se entregou 脿s vol煤pias da ang煤stia, quem n茫o saboreou em pensamento os perigos da pr贸pria extin莽茫o nem degustou aniquilamentos cru茅is e doces, n茫o se curar谩 jamais da obsess茫o da morte: ser谩 atormentado por ela por haver-lhe resistido; enquanto quem, habituado a uma disciplina de horror, e meditando sua podrid茫o, reduziu-se deliberadamente a cinzas, esse olhar谩 para o passado da morte e ele pr贸prio ser谩 apenas um ressuscitado que n茫o pode mais viver. Seu ‘m茅todo’ o ter谩 curado da vida e da morte.” [5]

Frente ao t茅dio, o pr贸prio desespero converte-se em atividade leg铆tima. O que mant茅m o niilista vivo, al茅m de um imperativo biol贸gico de autopreserva莽茫o, 茅 a possibilidade de encontrar novidade na ang煤stia. Em Silogismos da Amargura, Cioran afirma que sua fonte de vida 茅 a substitui莽茫o de um desgosto por outro.

鈥溍 deriva no Vago, agarro-me ao menor desgosto como a uma t谩bua de salva莽茫o.鈥 [6] e 鈥淥 segredo de minha adapat莽茫o 脿 vida? Mudei de desespero como quem muda de camisa.鈥 [7]

Em lugar da ang煤stia, somente se vislumbra o 锚xtase ou o pr贸prio t茅dio, este estado de apatia. O menos insensato seria encarar a vida em sua condi莽茫o trivial, e encontrar-se em rela莽茫o de frivolidade com o mundo; lan莽ar-se na 鈥渂usca do superficial鈥. Por isto destacam-se, em sua indiferen莽a ou despretens茫o, os desocupados, os pregui莽osos, os c铆nicos, os c茅ticos, os estetas e as prostitutas. Todos aqueles que n茫o se deixam levar pelas promessas da atualiza莽茫o e do conhecimento, exercitando-se no tempo sem que com isso sejam emba铆dos por ele.

[1] PECORARO, R., Cioran, a filosofia em chamas.Porto Alegre, EDIPUCRS, 2004, p.13
[2] CIORAN, Brevi谩rio de decomposi莽茫o.Tradu莽茫o: Jos茅 Thomaz Brum. Rio de Janeiro: Rocco, 2011, p. 27
[3] Ibidem, p. 48
[4] Ibidem, p. 23
[5] Ibidem, p. 25
[6] CIORAN, Silogismos da Amargura. Tradu莽茫o: Jos茅 Thomaz Brum. Rio de Janeiro, Rocco, 2011, p. 57
[7] Ibidem, p. 102

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